Ruben Wagensberg e Jordi Cuixart
Meu caro,
Não quero te
perguntar como estás, porque sei, apesar de tudo, que estás bem e forte. Por te
conhecer bem, não te imagino de nenhuma outra maneira. Até hoje vinha resistindo
à ideia de te escrever – e a primeira coisa que quero fazer é me desculpar por
isso. Acho que, para mim, escrever significava aceitar aquilo que, mesmo a essa
altura, muitos de nós ainda não conseguimos assimilar.
Uma coisa,
porém, tenho gravada como um tesouro em minha memória: o dia em que fui com a
Lara à casa da tua mãe e do teu pai – e consegui falar cinco minutos contigo
por telefone. Sempre digo ao Pol Altayo (que craque!) que quero voltar logo lá,
pois parece que se come muito bem. E, de quebra, quero ver se te pego na linha
outra vez.
Em vez de
escrever cartas, o que sei que andei fazendo regularmente, e logo que saíres daí
poderás ler, é mandar mensagens via Telegram normalmente. Toda semana. Como
sempre fizemos. Para comentar um pouco os acontecimentos, compartilhar algum tweet de alguém cujos dedos coçaram, te
explicar em que confusões estamos metidos neste momento, e que não são poucas,
ou simplesmente para nos perguntarmos como estamos. E saber que somos.
Temos este
costume desde o dia em que nos conhecemos naquele bar da Rua Verdi. Poucas semanas
depois, tu e a Txell vieram me visitar na Grécia. Recordo muito aquela manhã que
passamos conversando com as pessoas que estavam presas no campo de refugiados –
militarizado – de Vassilika. Te mando junto a fotografia!
Visita de Jordi Cuixart e Ruben Wagensberg a um campo de refugiados na Grécia
Quando
acabamos, fomos ver as companheiras da Comunidade Eko. E lá conheceste o Ahmed,
um mini-Cuixart em potencial, de treze anos. Já te disse várias vezes que o
Ahmed me faz pensar muito em ti. Sempre sorridente, ainda que preocupado com todos,
sejam ou não os seus. No capítulo de “Vidas interrompidas”, da TV3, do qual foi
protagonista, dizia: “Em casa eu aprendi
que, se tem uma sacola de comida, não como até que alguém mais tenha comido.”
Em primeiro lugar, sempre, compartilhar.
Este é o verbo que melhor define vocês dois. E os dois são pessoas importantíssimas
em minha vida, duas referências. E tive a
infelicidade de ver os dois serem trancafiados.
Sabe de uma
coisa? Imagino que alguém te tenha dado essa notícia antes de mim, mas o fato é
que o Ahmed e sua família conseguiram, por fim, chegar a Frankfurt, onde ele conseguiu
se encontrar com seu irmão Mohammed, depois de cinco anos. E agora que o
pesadelo acabou, começam uma nova vida, longe da miséria na qual foram
obrigados a viver nos últimos anos, porém ainda com um longo caminho pela
frente, nesta Europa tão pouco preparada para coisa nenhuma.
Egoísta que
sou, sinto tua falta, mas não posso deixar de me alegrar (sim, é estranho) ao
pensar que tem muita gente aproveitando a tua companhia. A Txell nos explicava
isso, e há pouco tempo soubemos, de viva voz, pelo Jesús. Sempre fazemos essa
piada: imaginamos você entrando no refeitório da prisão e todos os presos levantando
os braços e gritando: - Jordi! Vem aqui!
Vem aqui com a gente! Sinto-me feliz em saber que muitos, aí dentro, têm
tido a mesma sorte que muitos outros terão um dia: a de descobrir e de conhecer
uma das melhores pessoas do mundo.
Enfim, não
vou me alongar mais, pois deves ter mil cartas para ler. Nos primeiros dias, o chat do nosso Telegram dizia: “Última
conexão recente.” Depois passou a dizer: “Última conexão há algumas semanas.”
Agora, ele me indica que a tua última conexão foi “há muito tempo”. Sim, faz tempo
demais que sentimos tua falta. Mas estamos plenamente convencidos de que logo
voltaremos a ter-te ao nosso lado.
Te amo. Te
amo muito!
Ruben
Wagensberg
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