quinta-feira, dezembro 25, 2008

Notas no tempo

Foto: Jana Castro - www.flickr.com

Últimos tempos sem tempo de escrever, tempo de escrever sem caber nas horas, horas lentas e às vezes muito rápidas. Às vezes o tempo da gente não funciona dentro do relógio - ou o relógio de dentro se atrasa. Sinto que muitos assuntos mereciam estar aqui, mas as engrenagens, o tempo de dentro e de fora, as lutas de vencer distâncias em minutos às vezes longos demais... tantas coisas que me isolam.

Madonna no Brasil: a curiosidade era grande, mas os preços, intransponíveis. Houve silêncio e simpatia, quem viu gostou, minha amiga veio do sul do Brasil e curtiu bastante. A moça, afinal, é de respeito e ofereceu um espetáculo à altura.

Ricardo Leitner, o amigo de todas as vidas que, nesta, apareceu em setembro; na verdade não, alguns meses antes, mas digamos que desabrochou em setembro. Presentes que o Universo nos revela de forma inesperada, porém inequívoca. Faltou a visita que eu faria no inverno, "para assistir filmes antigos junto à lareira", como ele queria. Mas no mês de maio, com a primavera e as flores, também há de ser divertido.

Os Palmas na minha vida: Maria João e Teresa me levaram à tarde portuguesa da Cadeg, em São Cristóvão. Muito engraçado o "Cantino da Concertina", regado a sardinhas na brasa, bolinhos de bacalhau, binho berde e uma animação inesgotável ao som de muitos viras. De quebra, descolei um bacalhau impressionante, com as bênçãos da Teresa (pode levar este, eu garanto!), o rei da mesa natalina de ontem. Bravo!

Nota triste: vivemos, desde fins de novembro, o inferno das águas. Santa Catarina submersa, centenas de mortos, perdas, danos, tristeza. E agora, Minas. A Congonhas do meu coração, como se não bastasse o barro vermelho e o abandono, agora também tem dor. A conta por desmatar e poluir é alta demais, cobrada em vidas e mais miséria. O Brasil precisa ser intransigente na preservação ambiental. Discursos não trazem os mortos de volta nem constroem novas casas para quem, hoje, está na rua da amargura. Lula, aproveite a sua popularidade e defenda não só a reconstrução, mas a proteção das cidades contra os efeitos do desmatamento, do lixo não tratado e da mineração irregular!

Tempo de retomadas: o coração singrou 2008 feliz, acalmado, aportado. E a sensação se prolonga. Há sentimentos profundamente nutritivos, que carregam consigo todas as vitaminas, proteínas e sais minerais que a alma precisa para expandir-se em plenitude.

Vi Josep Carreras de novo em março passado, em Curitiba. Uma felicidade só, afagos na alma, testemunhos de amizade e reconhecimento. Belo na sua simplicidade e grandeza, dois netos, feliz com o amor da sua vida - e ainda por cima cantando como nunca. Bom saber que o carinho perdura após tantos anos, bom saber que tudo valeu e tem valido a pena.

Presentes de Lluís Llach para minha vida: além das canções de uma força impressionante, a amizade preciosa de Àngels, Xavier, Montse e tantos outros. Não sei se Lluís, ao cumprir o plano longamente amadurecido de se afastar dos palcos, tinha a real dimensão do que a sua música continuaria a produzir. Talvez agora a ficha esteja caindo, não sei. Me parece que a eventual ausência é continuamente anulada por uma presença que insiste em crescer e ocupar espaço. Tenho a íntima certeza de que o grande artista sabe que de nada adianta subir ao palco como se fosse só um pianista - e não abrir a boca, como se não cantar fosse o bastante para calar o coração, o seu e o de quem o seguiu a vida inteira.

Gratidão ao Universo: um período difícil vem se encerrando, pendências se solucionam, processos complicados se deslindam na paz. Uma serenidade vem tomando o lugar de tensões compridas que, felizmente, fecham seu ciclo. Muita calma pra pensar e ter tempo para amar a vida que vem, com novos projetos e sonhos na palma da mão.

sábado, novembro 29, 2008

Mercedes

Mercedes Sosa - Foto: Reuters

Não sei direito por que a chamam La Negra. Decerto já devo ter lido isso em algum lugar. Mas para mim é Mãe Terra, talvez a própria terra, lagos andinos e cordilheira, rios, cataratas, o olhar fundo e sincero de quem já viu tudo. Olhar que, aliás, ela já tem há muito tempo, bem antes de volver a los 17, ao lado de Milton Nascimento, num disco onde vira e mexe eu deixo a minha alma de molho. Talvez agora, sentada no meio do palco em toda a sua magnificência, ternura e força, as suas profundezas fiquem mais evidentes ao olhar comum. Mas no meio da arena de um Maracanãzinho lotado, tocando bumbo para ressoar "Drume, negrita", já era assim.

Apesar do Vivo Rio, com seus garçons e bandejas invasivos, Mercedes Sosa esteve ontem entre nós com sua grandeza tranqüila, a voz mansa, firme e pausada, as convicções que nos ensinaram o bê-a-bá da latinidade num tempo de sincera fé. Aquela voz que nos tomava a todos e sacudia os alicerces, desafiando-nos a abrir o peito, fez ali o seu milagre de cada dia. E ao ouvi-la tive saudades de mim quando assinei o manifesto pela liberdade de Alex Polari de Alverga, quando participei do Primeiro de Maio que poderia ter ido pelos ares em 1978, ou quando caminhei léguas na Presidente Vargas pelas Diretas Já. Mercedes Sosa, com sua retumbante coerência, foi um dos símbolos dessa época em que tentar mudar a realidade do nosso continente era praticamente obrigação.

Sentada diante das partituras, envolta em belos panos vermelhos, atenta a tudo, Mercedes comanda com as mãos os movimentos planetários e nos rege a todos, músicos e platéia. Entre palavras de carinho para os amigos e a bisneta pequenina, que não cansa de lhe jogar beijos, essa mulher impressionante desfila uma hora e meia de canções, as de hoje, as de sempre, as que nos desatam as lágrimas quentes de saudade, às vezes de tristeza por não termos ido além com as reformas do mundo. Ah, mas quem éramos nós então? Os mesmos de hoje? Mudamos ou foi o mundo que mudou? E a saída, onde fica a saída? Certamente não na sinalização discretamente iluminada nas laterais do Vivo Rio...

A voz de Mercedes Sosa tem o poder de dissolver paredes de pedra, paredes de palavras, de sentimentos. A transparência com que o seu olhar presente e vivo nos reflete é mágica e esmagadora. Lembrei-me de um SEM CENSURA há mais de 20 anos, ainda nos áureos tempos da Lucia Leme (sem qualquer crítica à competência de Leda Nagle), quando diante dessa mulher todos os convidados choraram. "Eu posso te tocar?", perguntou a apresentadora, protagonizando um dos momentos mais verdadeiros do nosso jornalismo televisivo. Eu, em casa, virava um afluente do Rio da Prata.

Mercedes, mais que símbolo, é uma força da natureza latina. Representa os nossos povos com clareza de espírito, força de viver e aquele talento imenso que aprendemos a amar e respeitar. Até quando canta uma simples canção de amor, Mercedes é toda pátria, é toda terra, é toda gente. É rainha no centro dos iguais, porque é assim que prefere ser. Com alegria diante do novo e firmeza diante das injustiças que o mundo não aprendeu a apagar.

Acompanhada de músicos impecáveis, Mercedes Sosa mais uma vez compartilhou conosco a beleza das canções e a humanidade que faz parte da sua composição química. Ao levantar-se no final e ensaiar uns passos de dança ao som do estribilho de Maria, Maria, a golpes de punho cerrado, mostrou o quanto corresponde ao nosso amor. E o quanto ainda é aquela Mercedes que, com seu bumbo e sua voz, abria caminho na história para a nossa verdade latina.

Mercedes Sosa, uma das mais belas faces da nossa alma, eu te abraço aqui neste blog!

sexta-feira, novembro 21, 2008

Um velho filme

Burt Lancaster e Claudia Cardinale em
O Leopardo, de Lucchino Visconti (1965)


Nada como um velho filme para despoluir a cabeça carregada de cotidiano, de disputas, problemas no trânsito, chuva, a crise (mas qual, se há tempos que não se vive de outra coisa?), as pequenas tensões que nos consomem exageradamente. Mesmo se a tv é de 14 polegadas, um velho filme aciona mecanismos internos insuspeitos que nos fazem navegar por épocas não vividas, cidades que não conhecemos bem, mas onde nos sentimos em casa, em aviões cheios ou metrô apinhado, em ônibus desolados ou carros muito velhos, no futuro, no passado, na mente de criminosos.

Às vezes a gente se lembra de tudo, até do cheiro da primeira vez que o vimos. Às vezes nunca o vimos, mas de tanto ouvir falar, acreditamos mesmo tê-lo visto. Às vezes só lembramos de partes e ficamos abismados quando aparece um detalhe que o HD da memória corrompeu. E há aqueles que vimos dezenas de vezes, apesar de todo mundo chamar a gente de maluco.

E não importa que seja bobo, não é fundamental que seja cult, cinema europeu ou japonês. O que vale mesmo é a magia que opera na gente. É a viagem além da técnica, da criatividade, da precisão da fotografia ou da luz. É aquilo que os nossos olhos comunicam ao coração, e que faz com que um velho filme nunca mais nos deixe. É a música, o som do silêncio, um ator que a gente gosta e transforma num velho amigo, num parente, num amante, num confidente.

Gosto dos canais de filmes antigos. Eles me confortam, providenciam cobertor, travesseiros e às vezes uma capa mágica ou um disco voador, uma cápsula do tempo - coisas simples e providenciais em tempos insanos. Uma de minhas paixões, há uns dois anos, era o Canal Retrô, uma raridade argentina que mais parecia um baú audiovisual de relíquias. Como tudo que é bom, sumiu da tv a cabo e, segundo soube recentemente, foi vendido a um grupo americano e será desativado. Na verdade, a onda vintage começou com o canal Boomerang e os melhores desenhos do mundo (claro, os da "minha" infância). Esse, coitado, perdeu todo o glamour! Sei lá, também deve ter sido comprado, porque fala uma outra língua, só passa séries com adolescentes retardados, habitantes sei lá de que planeta. Bem, ou mal, tinha uma identidade, era dedicado à causa da lembrança. Qual pai da nossa geração não gostaria de apresentar Dom Pixote, Maguila e Wally Gator ao filho? Agora, virou qualquer coisa...

Mas voltemos aos filmes. Tive recentemente o prazer de rever O Leopardo, uma das obras-primas de Visconti (que aliás adoro, apesar de alguns amigos o considerarem datado e chato...). Que primor, que felicidade, delicadeza e cuidado na produção, atores maravilhosos em todo o seu esplendor, um belo roteiro (provavelmente melhor do que o livro que o inspirou). No final de outubro, no meio de uma maratona em homenagem ao aniversário de Rita Hayworth, finalmente fiquei sabendo por que nunca houve uma mulher como Gilda. Ah, enfim consegui ir além da cena do banheiro para descobrir o segredo de Norman Bates, em Psicose. Rememorei com gosto a prodigiosa trilogia de O Poderoso Chefão. E me surpreendi muito ao rever com um amigo o inimaginável Tambor, pois não lembrava de muitas passagens fundamentais.

Ontem topei com a versão original de Metrópolis, de Fritz Lang. Que grande filme para 1925! Eu fui uma das pessoas que foi apresentada ao filme na versão colorizada (houve um tempo em que isso virou moda) e com uma estupenda trilha sonora de rock, na década de 1980. Gostei tanto que comprei o disco e tenho até hoje. A trilha original do filme é muitíssimo pesada, opressiva mesmo em certos momentos. Sinceramente, o rock da primeira vez teve muito mais impacto sobre mim!


Meu amigo Ricardo Leitner, do fascinante blog Tertúlias, é um cinéfilo contumaz e sempre traz à pauta alguma recordação recheada de beleza e histórias que poucos saberiam contar. Por sua inspiração, resolvi falar um pouco desse cinema de ontem, que também pode ser um pouco de hoje. Por que não? Saudosismos à parte, o novo e o revolucionário existiram em todas as épocas da arte. Em algumas com maior intensidade, em outras mais raramente. E o que havia de rico em cada momento de criação costuma permanecer intacto na obra, mesmo que se passem muitos anos. Um dia disse à minha filha: o que conta num filme não é ser velho ou novo, é ser bom. É essa a diferença.

É claro que a magia dos velhos filmes não anula a força criadora que está por aí agitando a tela grande, venha de onde vier. Mas pode contar que a garotada que faz acontecer, que bota a cara no mundo, cria e nos emociona, com certeza já viajou (e continua a viajar) em muita sessão nostalgia. Vai por mim.

sábado, outubro 25, 2008

E do silêncio fez-se o espanto

Lluís Llach



Foi uma longa espera, já nem sei de quanto tempo. Um dia, no "dreaMule" (sim, a tecnologia também aprende a sonhar), encontrei e pus para baixar o Concert d'Acomiat, ou seja, o concerto de despedida de Lluís Llach, realizado dia 24 de março de 2007 em Verges, povoado onde passou sua infância e, segundo ele mesmo, "onde tudo começou".

É o tal negócio: não era prioridade até o momento em que os dígitos começaram a anunciar a conclusão do download. Daí em diante, a ansiedade foi crescendo a olhos vistos. Ontem, afinal, o arquivo chegou completo. Que felicidade!

Mas eu não sabia o que me esperava, de fato. Por mais que fosse capaz de imaginar, eu não estava preparada para o que iria ver, ao longo de três horas de emoção pura, bruta, concreta.

A dois passos de Lluís no campo magnético e ilusório da tela de 17 polegadas, o seu rosto sincero e comovido, enorme, quase se deixava acariciar. Mesmerizada, as mãos no queixo, debruçada sobre a mesa do computador, eu não mais distinguia distâncias ou me reconhecia no tempo e no espaço: estava em Verges, com ele, os olhos nos olhos cheios do agora e da saudade que se produzia junto com a música, que antecipava o adeus.

Si em dius adéu...

A gravação feita pela TV3 barcelonesa e dirigida por Lluís Danès, cineasta que colaborou muito com Lluís Llach, não é apenas um registro rotineiro, com bons cortes e tecnologia. Longe disso. Danès colocou a câmera a serviço da mais fiel expressão da tragédia amorosa que se abateu sobre os dois lados: de um o palco, onde a simples alegria de viver e cantar juntos se produzia como se o mundo fosse acabar a qualquer momento, e de outro a platéia, onde milhares de olhos marejados de todas as idades se esforçavam por suportar a ausência que crescia na presença das canções.

Lluís planejou o encerramento da carreira, isso é verdade. Por razões e razões que nenhuma resposta técnica, elaborada, consegue mostrar. E mesmo com todos os planos, condições e soluções possíveis, ninguém queria e nem conseguia acreditar.

Morri tantas vezes ontem, ao contemplar os olhos que Danès tão bem soube mostrar, o estarrecimento, cada sorriso de mar, a taça quase a transbordar, o senhor que olha em frente, mas para dentro, e ali deixa passar toda uma vida, o rapaz jovem e bonito com o filho no colo, a cantar, a cantar, o marido amoroso que beija a mão da mulher, há tempos entrelaçada entre as suas, a tristeza tão digna nos olhos de Maria del Mar Bonet... A câmera passeia por milhares e milhares de rostos, cabelos, gorros, golas de casaco, bocas a murmurar canções, milhares e milhares de olhos brilhantes, boiantes, absolutamente desolados, lutando tossudament para suportar a perda anunciada.

E o rosto de Lluís Llach vai e volta, cada vez mais perto. Quase ignoro a tela que nos separa, quase posso respirar em cima dele. E mergulho nas eras fundas que transparecem dos seus olhos claros de terra e lua, de uma cor que ninguém explica, de uma força incontrolável. Ainda outro dia falava da sua mirada com a amiga Àngels, que tanto o conhece de uma vida inteira, talvez de algumas outras. Os sentimentos também se debatem nesse rosto, em cada pequena ruga, em olhares cúmplices para os músicos, no esforço muitas vezes sobre-humano para tentar fazer com que as águas jamais transbordem dos olhos, melhor seria que voltassem para dentro assim como vieram. E como vieram, será?

Colada a ele, sei que olha para o mundo, o pedaço de mundo feito daquela gente que é o seu país, o seu país são aqueles olhos atônitos à beira do drama que estão à sua frente e talvez acreditem até o último momento - que a fé move o povo e o povo é a verdadeira fé - poder conter o inevitável, desarmar a vontade que sabem firme, desmaterializar o adeus.

Todos os músicos tocam com visível prazer, olham-se com sorrisos de orgulho, sorriem com olhos de amor, produzem ternamente a música do fim como se fosse sempre, como se o palco de Verges fosse inesgotável e as horas não existissem. Incrível como Danès teve a extrema sensibilidade de nos deixar participar dessa intimidade profunda, do sentimento comum entre eles, da sua verdade em cores fortes.

Nas suas célebres conversas entre canções (satirizadas tantas vezes por seu brilhante imitador no programa humorístico Polónia), Lluís compartilhou em Verges a vida inteira. Meu coração doeu de orgulho, feliz, ao vê-lo falar da forte impressão que lhe causou o olhar de Vinícius de Moraes, e das canções do nosso poetinha que o inspiraram a escrever Sabessis bé, sua mais emocionada homenagem ao falecido amigo e poeta Miquel Martí i Pol. Tem razão o Lluís; de que outro modo, senão o brasileiro, ele conseguiria expressar musicalmente a sua saudade - sentimento que, ao contrário da palavra que o define, não é privilégio nosso, afinal?

A emoção beirava todo o tempo o insuportável. Sinceramente, não sei como aqueles fãs ali reunidos conseguiram suportar. Era como se se comprimissem contra paredes de vidro, esticando o coração, os olhos, as palmas das mãos, as lágrimas espalhadas pela face, até as velas acesas em vários momentos.

Por que?, eu não me cansava de repetir, falando com minhas próprias águas. O que faz um homem com tanta música por dentro decidir partir para uma vida comum, por mais que o tempo livre e o anonimato, às vezes, possam seduzir?

Li esses dias uma frase de outro Luís que também adoro, Louis Armstrong: "Músicos jamais se aposentam. Só param quando não há mais música dentro deles."
Impossível não pensar em Llach. Sobretudo hoje, ao ver o vídeo de sua entrevista sobre vida e vinhos no excelente programa "La clau del vi", do Canal 33 da Catalunha. "Jo me anyoro molt", sinto muita saudade, admitiu. E eu sem conseguir calar o tal "Por que?"!!

Verges, final de festa. Lluís Llach desce ao meio do seu poble, dos que vão amá-lo eternidade afora. Muitos beijos, abraços, e ele acaba desistindo de manter na cabeça o imemorial gorrinho de lã, com tantos afagos por todos os lados. Eu já tinha visto isso no YouTube, mas com o concerto inteiro o gest correcte dos fãs - que cantam a cappella a emblemática "L'Estaca" e depois "Laura", muito afinados - é muito mais forte, derruba mesmo a gente. Nem o mais insensivel do seres conseguiria resistir.

Olhar para Lluís Llach, tanto no palco como nas entrevistas, é sentir-lhe a música pelos poros. Quando sua, não cai água, brotam notas da pele. Como os pássaros do pentagrama, estrofe de um poema de Xavier Monsó Brignardelli, um dos sensíveis fãs que fazem parte do fórum do artista.

Queria mesmo o impossível: estar no seu coração, para saber como ele consegue segurar a onada de canções que lhe inunda o peito todos os dias. Ah, quem dera se ele se dignasse a deixá-las sair uma vez por ano, pelo menos, para encontrar os amigos fiéis, apaixonados e sinceros, que naquele dia 24 de março de 2007 voltaram para casa ou para os hotéis carregados de um vazio que sabiam ser impossível de preencher.

Ao falar de Martí i Pol, o próprio Lluís admitiu que o espaço deixado por ele só faz ampliar-se. Diante da morte, porém, há pouco a fazer - talvez um poema, uma canção, uma homenagem sentida.

Vivo (muito vivo!), vibrante, docemente aguerrido, forte como um pássaro do deserto, Lluís pode, se quiser, marcar encontros. Ainda que esporádicos ou, como ele diz, pontuais. Há muita alma e sonoridade, ainda, para compartilhar. Tantos de nós precisamos, e muito, daquela tendresa que só ele tem, e que ens cura quan fa por la solitud!...


* Vocabulário catalão

Tossudament - obstinadamente (referência à canção "Tossudamente alçats")

Si em dius adéu - Se dissermos adeus (da letra da canção "Que tinguem sort")

Mirada - olhar

Jo me anyoro molt - sinto muita saudade

poble - povo

gest correcte - gesto correto (referência a uma estrofe da letra da canção "Amor particular")

onada - onda, palavra muito usada por Lluís Llach em suas letras

La tendresa... que ens cura quand fa por la solitud - A ternura que nos cura quando a solidão dá medo (da letra da canção "Tendresa")

quinta-feira, outubro 09, 2008

Quatro anjos em um (ou "À Seita, com carinho")

Instantâneos de Àngels, por Jaume Lujan

Cada vez mais, a vida me confirma a crença de que ser fã é uma qualidade especial do espírito. Tem gente - como eu - que nasce com esse tipo de inclinação. Coisa que muita gente pode considerar "menor", "infantilidade" ou coisa que o valha. Há quem ache, inclusive, que quem tem natureza de fã não merece crédito.
Em defesa própria e também dos muitos fãs maravilhosos que conheço por este mundo afora, venho dizer que essas visões desfocadas não passam de preconceito. Eu, particularmente, gosto muito de ser fã - e de muita gente, entre famosos e anônimos, próximos ou não. Com o meu eterno prazer de encontrar personagens fabulosos pela vida, digo que o fato de ser fã só tem me ajudado a colecioná-los. E olha... eu garanto que a minha coleção tem preço. E não há leiloeiro no mundo que tenha o poder de arrematá-la!
Para minha felicidade, eu só faço aumentá-la. Na foto acima está Àngels, o anjo de verdade que acaba de valorizar imensamente o meu acervo de grandes personagens humanos. Àngels é especial em muitos sentidos, mas muito particularmente por ser, também ela, uma fã.
Foi a primeira a receber-me - e com que carinho! - no universo virtual de Lluís Llach, a lista ou fórum chamado Cafè Antic. Hoje estamos construindo uma bela amizade regada a música, idéias e embebida na sabedoria da resistência. Resistência, aliás, praticada com toda poesia pelo grupo de fãs mais afetuoso, animado, exacerbado e apaixonado que conheço: a placeta, como eles mesmos se definem, ou a Seita, como o próprio Llach carinhosamente os chama.
Freqüento a lista, dentro das minhas possibilidades e guardada a distância transcontinental. Participo também, quando posso. Já me vi envolvida em acaloradas e respeitosas polêmicas musicais, já me deliciei com os textos do incrível Gerard, já falei no msn com a Montse e troquei emails com vários integrantes. De Àngels, tenho me aproximado mais - talvez por termos em comum o universo do ferro e do aço, talvez por eu ter sido, em alguns momentos da vida, próxima de sindicatos operários, ramo em que ela milita com verdade e energia. Ou talvez, simplesmente, por Llach, e pronto.
Mudei com a lista. Resolvi aprender catalão e engrossar as fileiras do fortalecimento do idioma (embora ainda esteja bem no bê-a-bá). Entrei em vários mundos llachianos que enriquecem minha vida pessoal. Tenho conhecido mais profundamente a música extraordinária do grande artista que é Llach. Mas, sobretudo, aprendo intensamente, todos os dias, algo sobre a natureza humana.
Se quisermos de verdade, podemos ser iguais sendo diferentes. Se quisermos, deixamos de lado nacionalidade, idioma, cor, credo, crenças, tudo em nome da causa maior da nossa humanidade. Se quisermos, podemos encontrar pontos comuns com cada pessoa, por mais diferente de nós que ela possa parecer. Assim me sinto em relação a essa seita amorosa, verdadeira, firme, aberta e receptiva, musical, capaz de santas loucuras e de construir tanta felicidade.
Hoje vi muitas fotografias dos eventos familiares animadíssimos que organizam. Lá estão todos com suas mulheres, maridos, filhos. A criançada llachiana se diverte, curte com os pais, brinca, aproveita. A vida em família é mais um lado forte de ser fã. No caso da Seita, a família da música faz com que todas as famílias se encontrem, cantem juntas, lembrem do que é bom, esqueçam as tristezas e construam coisas bonitas.
Lá está Llach entre eles, rindo, posando para fotos, fazendo boas brincadeiras em momentos que deixam saudades, pois afinal o cantautor de Verges - ou simplesmente "o de Verges", como muitas vezes é chamado - deixou os palcos, mudou de vida e se dedica à música que se produz nos tonéis onde envelhece o cobiçado vinho Vall Llach, produzido em sua vinícola. Ou, uma vez por ano, entrega-se à direção artística da Procissão de Verges, inspiração de um dos belos temas do emblemático cd Verges 50.
Mas a placeta - ou seja, a pracinha do bairro, o lugar onde tudo acontece, segundo me explicou a incansável Àngels - não desiste. O amor pelas canções é incurável, o respeito pela decisão do artista uma lei entre eles. Fazem planos, preparam um disco, formam grupos, coros, trios, quartetos - reinventam sempre o espírito llachiano que os move. Cujo lema bem poderia ser, por exemplo, "per això, malgrat la boira, cal caminar", ou seja, seguir em frente apesar de tudo, como reza uma das letras mais emblemáticas de Lluís Llach, da canção Que tinguem sort.
Sorte mesmo tenho eu, de ter o privilégio de aprender com eles.

sábado, setembro 27, 2008

My old blue eyes...

Paul Newman - Foto: Arquivo/Press

Este era o "meu" sorriso confiante, complemento quase indispensável aos olhos azuis feitos do melhor mar do universo. Este era o homem mais emoldurado em meus sonhos de adolescente, a criatura confiável que eu respeitava e amava numa redoma, da forma estranha e intensa com que os fãs de cinema amam seus atores. Este era o exemplo de ser humano que cultivava uma dignidade sem limites, uma força solidária fabricada pela dor da perda de um filho, uma humanidade que só fazia ampliar-se.
No impulso da notícia de sua morte, no piloto automático que des-controla a falta que já faz uma era de esperanças boas, combates sadios e sonhos românticos também, por que não?, escrevo sobre a falta que ele me faz. A mim, que só o vi com os olhos mergulhados na tela. Que só o li com a alma cheia de confiança, taí um sujeito decente, que não é só um par de olhos bonitos e o sorriso incandescente que será difícil apagar da memória. A enorme falta que já faz esse personagem, que dignifica a tão combalida sociedade americana, para tanta gente, próxima ou não. Só de saber que ele existia, eu sentia uma espécie de conforto interno. Era como se pensasse: ele está lá, bonito e digno como o vi em Estrada para Perdição, engolindo tranqüilamente, com sua arte segura, profunda, gente do calibre de Tom Hanks e Jude Law.
A beleza de Paul Newman, que escolheu o caminho da verdade, da firmeza e dos princípios, é muito maior do que os seus olhos azuis de mar, maior que a idade, do que qualquer idade. A beleza de um homem que escolheu uma companheira e viveu para ela, atravessou os anos de mãos dadas com ela, é bem mais intensa do que o visível. Por isso eu amava Paul Newman com reverência e respeito, entre sonhar com seus olhos azuis de um Butch Cassidy montado na bicicleta e gritando "Etta Place! My Etta Place!" ao redor da bela Katharine Ross e acompanhar sua paixão por velocidade (como eu morria de medo de que se acidentasse!), seus comoventes discursos humanitários, seu interesse permanente pela juventude e em viabilizar um mundo melhor para ela.
Eu amava Paul Newman com o direito impossível de fã, na salva de prata da distância próxima com que a tela grande nos ilude. Olho para ele em qualquer de suas fases e sinto o mesmo calor, a mesma ternura, a mesma vontade de ter tido, um dia, o instante de visitar-lhe os olhos em pessoa. Hoje, tudo pesa porque aquela fortaleza que fazia parte dos meus tesouros pessoais se foi. Mas como não se perderá tudo o que ele me ensinou e me fez ver nessa vida, com sua hombridade, arte e beleza, estou aqui para homenageá-lo com as palavras mais sinceras que consigo encontrar, e revivê-lo no azul sem fim que me invade o coração neste momento.
Obrigada, Paul, por ter existido para o mundo, para mim e para o cinema - este senhor da magia que, felizmente, fará com que você continue a existir para muitas gerações que virão.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Che gelida manina...

Giacomo Puccini

Convenço-me de que o povo, aqui no Brasil, gosta mesmo é de falar. Falam quando a coisa é boa, falam quando é ruim, falam de todo jeito. Ao assistir, no dia 19, à última récita de La Bohème, a escolha do Teatro Municipal para não deixar passar em branco o ano Puccini nesses tempos de vacas magras, concluí que é melhor fazer ouvidos moucos à criticagem geral e escutar a música.
Em matéria de dificuldades, o Municipal é graduado e pós-graduado. Não é de hoje que as autoridades abandonam o teatro à própria sorte, como se ele fosse capaz de, milagrosamente, fazer brotarem recursos para atender a gregos e troianos, manter temporadas de diversidade européia, fazer manutenção e tudo o mais que é necessário. É claro que isso não acontece, e a instituição tem que fazer das tripas coração para não deixar a peteca desfolhar-se no chão.
A Bohème saiu, apesar dos pesares. E foi digna das comemorações do ano Puccini, apesar da falta de quase tudo. Orquestra, regente, elenco e técnica fizeram o possível e o impossível para realizar uma produção de alto nível - e conseguiram.
Reclame quem quiser da alternativa, por sinal muito bem aproveitada e interessante, de utilizar projeções de quadros famosos na boca de cena e à guisa de cenários, durante a ópera: se o teatro não tem recursos para construir cenários mirabolantes, por que não criar? Gostei. Ficou bonito, desperta a curiosidade pelas obras, dá um visual requintado. Muito melhor do que certos cenários, no passado, feitos por artistas plásticos afetos a instalações de funcionalidade e estética duvidosas. Há muito, muito tempo mesmo, que não se vê alguém do nível de um Gianni Ratto fazendo algo no Teatro... Acabou que a Bohème e os quadros se entenderam muito bem e a coisa funcionou, no aspecto cênico.
Em termos de música e interpretação, que é o que mais interessa quando se fala em ópera, não tive do que me queixar. Sou grande fã de Fernando Portari e adorei vê-lo novamente em cena. O desempenho vocal foi muito bom e, como ator, também não fez feio, embora eu às vezes tenha a impressão de que há algum tempo vem se desleixando um pouco de si mesmo e da carreira. Em alguns momentos, talvez os mais marcantes, esteve inteiro e doou-se muito ao papel; em outros, porém, me pareceu algo distante. Já Rosana Lamosa, cujo timbre não me agrada tanto, foi se intensificando a partir do segundo ato. Sua "Mi chiamano Mimì" foi sofrível, mas a melhora foi sensivel até o ato final, no qual ambos foram brilhantes. Rodrigo Esteves, Homero Velho e Luiz Ottavio Farias - como Marcello, Schaunard e Colline, respectivamente - formaram um trio coeso, qualificado e de bela sonoridade.
Há, porém, um reparo a fazer: a idéia de transformar a sublime ária de Musetta num arremedo de Marilyn Monroe cantando "Diamonds are a Girl's Best Friends", com dois bailarinos estranhíssimos e coreografia grotesca, foi realmente um desastre. Que me desculpe o diretor de cena Francesco Maestrini, mas aquilo foi uma palhaçada, não tem outro termo. A reação do público foi condigna, diga-se de passagem, no dia em que assisti; perpassavam a cena murmúrios de escárnio. A intérprete Gabriella Pacce também ficou prejudicada, pois como cantar bem, sendo jogada dum lado pro outro como se fosse uma corista? Convenhamos,
um pouco de respeito é bom e o Sr. Puccini gosta, assim como nós, ali na platéia. Foi realmente lamentável que, por causa de uma pantomima mal engendrada, um dos momentos mais expressivos da ópera tenha sido perdido, reduzido a galhofa.
Mas olhando para a cena, do alto da minha galeria G45, não pude deixar de pensar em outra Bohème, de 1981, idealizada por Franco Zefirelli para o Metropolitan Opera. Não, não se trata de estabelecer comparações; essa nossa Bohème acabou por me remeter àquela, a primeira que vi, ainda que em vídeo, e que nunca esqueci. De fato, não há como apagar aquela delicadeza e despojamento que tão bem apresentavam o tom de denúncia social sugerido por Puccini ao retratar toda aquela pobreza em lastimável condição, sem assistência nenhuma, nos bairros boêmios e pobres de Paris.
Pensei na fragilidade de Tereza Stratas, no romantismo vívido de um Josep Carreras no auge de sua forma, na presença de Joseph Morris, nos cenários, figurinos, na música que, como disse o meu vizinho de poltrona, "comove muito, não tem jeito..."
Em março deste ano, Zefirelli foi homenageado no Metropolitan, no entreato da 347a. apresentação de "sua" Bohème, com elenco liderado por Angela Ghiorghiu. Uma montagem que já dura 17 anos e permanece fresca, adorável, perfeita para traduzir Puccini!
Guardadas as proporções, a Bohème do Teatro Municipal marcou presença e demonstrou que, quando os verdadeiros artistas resolvem arregaçar as mangas, sempre conseguem produzir qualidade e beleza.
Tenho a certeza de que o mestre aí em cima, de modo geral, aprovaria.



sábado, agosto 23, 2008

Minha alma canta...

Caetano e Roberto durante os ensaios
Foto: Divulgação

Há momentos extraordinários na vida. Que trazem surpresa e êxtase, sentimentos leves e fundos suspensos no ar. Momentos de simples beleza, puros, comoventes. E que, às vezes, fazem história também.

O encontro entre Caetano Veloso e Roberto Carlos em torno da obra de Tom Jobim, ontem à noite no Municipal do Rio, foi um desses.

Desde que soube do concerto, tive vontade de estar lá. E graças à paciência do meu amigo Paulo Henrique, que enfrentou galhardamente a fila que deu conta dos ingressos todos em apenas três horas - sem chance pro pessoal que se fiou na internet -, tive essa felicidade.

Devo declarar aqui que a minha fidelidade ao Rei é referencial apenas. Admiro, contudo, uma pessoa que consegue manter a popularidade em alta - e que alta! - há mais de 40 anos, quase sem abalos. Ninguém consegue isso por acaso. Acompanhei a Jovem Guarda, adoro várias músicas emblemáticas, mas fui me afastando do Roberto quando enveredou por algumas estradas um tanto duvidosas, para o meu gosto pessoal. Mas devo dizer também que a figura dele é gostável; é como um velho amigo. E dos poucos que ainda diz "bicho" com um jeito todo especial. Gosto das marcas registradas do Rei. E no entanto nunca, até precisamente ontem, tinha me arriscado a um show seu.

Caetano é o meu São João menino, uma paixão eterna e irrestrita. Caetano é o profeta de um futuro presente - músico, obra e criador numa só pessoa. Saber da história dos "Caracóis", em anos recentes, foi um prazer e uma emoção. Falo da visita de Roberto ao grande artista no exílio em Londres e a música-homenagem que a gente tanto gostava de ouvir, de (então) secreta e comovente inspiração. Mas Caetano e Roberto deixaram outras marcas na história: as canções que Caetano fez para o Rei cantar - "Como dois e dois", "Força Estranha" e "Muito Romântico",- a citação na letra de "Baby" (ouvir aquela canção do Roberto)...

Tudo levava a crer, portanto, que na noite de ontem estaríamos diante de um momento histórico.
E foi o que aconteceu, em todos os sentidos. O Teatro Municipal descortinou-se para uma camada do público que jamais o vira - e provavelmente por pura distração ou esquecimento. E o público de Roberto, em franca e assumida maioria, tomou os espaços do Teatro em profusão. Estava ali justificada a fila descompassada para disputar os ingressos.

Tem suas particularidades, essa classe média que aceita sem maiores filtros a cultura de massa que lhe é servida em abundância, produto de um sistema social baseado no recorte, e não no todo. Em muitos países do mundo, da América Latina inclusive, todas as culturas convivem ricamente. Na escola, as crianças têm a opção de estudar música e se habituam tanto às salas de concerto quanto aos espetáculos de rock ou música popular. Há lugar para tudo.

Aqui ocorre um fenômeno curioso: há preconceitos malucos contra a arte dita "erudita", que fazem com que um volume enorme de pessoas de razoável poder aquisitivo se excluam de certos contextos por considerá-los privilégio de poucos.

No Municipal, ontem, era evidente a surpresa em muitos rostos bem trajados. Era como se, de repente, batessem aqueles célebres "cinco minutos" e a pessoa pensasse:

- Nossa! Como isto aqui é bonito! Por que será que eu nunca vim aqui antes?

Respeitoso, o público de Roberto encheu de orgulho o nosso Teatro. Com raríssimas exceções, fez-se o silêncio condigno. E quando o entusiasmo deu lugar a comoventes e afinados coros, como no caso de Samba do avião, interpretado por Roberto, e Eu sei que vou te amar, cantada pelos dois, isso se deu com imenso cuidado e carinho. Demonstrações claras de que o que falta não é sensibilidade, e sim a percepção de que música é música, e todos os estilos cabem na alma. Com certeza, o amor ao Rei terá conquistado ontem novos corações para o Teatro Municipal também.

No palco, as homenagens de cada um a Tom Jobim foram de extremo bom gosto, tanto musical quanto cenicamente. A alta tecnologia por trás dos cenários nos devolveu a alegria de um Rio que era só música, sol, céu e mar. O Rio de Tom, Vinícius, da Bossa-Nova cinqüentona e inteiraça.

De desafinado, mesmo, só o backlight do projeto
Itaú brasil - escrito assim mesmo, com "b" minúsculo - que pairou no palco até o início (atrasadíssimo, por sinal) do espetáculo. A publicidade anda tão agressiva! É óbvio que não tenho nada contra os grandes patrocinadores; sem eles a nossa cultura estaria infinitamente mais capenga do que já está, por absoluta asfixia financeira. E os bancos, mais do que qualquer outro setor da economia, têm em mãos os instrumentos para revitalizá-la. Mas francamente, um backlight no palco é de um mau gosto extremo, uma invasão de espaço sacralizado que não deveria ocorrer. Há modos e maneiras de marcar presença sem atirar um "tô pagando" assim tão evidente em cima das pessoas - que por acaso também pagaram, e muitas regiamente, para ali estar.

Caetano Veloso é hoje, além de pensador, esteta, compositor e uma das grandes figuras da nossa intelectalidade, um instrumento musical inigualável. A sua voz está cada vez mais bonita e perfeita. Com sua espontaneidade e beleza, comportou-se quase que religiosamente em relação à obra jobiniana. Interpretou a canção Por toda a minha vida praticamente como se fosse uma ária. Sereno e muito à-vontade, uniu emoção e elegância, suavidade e coração, força e delicadeza. Envolveu-nos numa aura apaixonada, marcada pela saudade de Tom e talvez um pouco de nós mesmos, daquele "nós" que gostávamos de ser quando ouvíamos e vivíamos as músicas do maior entre os Brasileiros de Almeida.

Roberto Carlos comoveu, na sua pequena voz tocante, aquela voz que está na nossa alma desde sempre. Samba do avião, Lígia (com a boa lembrança, em vídeo, do dueto com Tom em um de seus especiais de fim de ano), Corcovado, Por causa de você... Roberto tem uma marca, um poderoso carisma, uma força que emociona sempre, uma história que não merecia mesmo ser manchada pelo triste episódio que envolveu o processo contra o jornalista Paulo Cesar de Araújo, e que confiscou uma tremenda e amorosa biografia musical do cantor, baseada em mais de 200 entrevistas e em material publicado em jornais e revistas. O fruto da pesquisa de uma vida, feita com o conhecimento do cantor, foi confinado a um galpão de propriedade do Rei, para apodrecer longe da memória.

Não sei quem terá levado o nosso Roberto Carlos a ter uma atitude tão feia e incompatível com sua biografia. Caro Rei, eu peço a você que repare isso, em nome de tudo o que vi no Teatro Municipal, na noite de ontem! Você sabe que o livro foi um ato de amor à sua obra, vida e carreira. O argumento utilizado pelos advogados - de que somente Roberto deveria lucrar com a sua obra - é de uma fragilidade absurda, pois muitos e muitos artistas já foram biografados por escritores competentes e nem por isso deixaram de ganhar muito dinheiro. E nem por isso os biógrafos sequer chegaram perto de enriquecer.

Roberto, vire de uma vez essa página negra e devolva ao seu público - a esse mesmo público que, por causa de você, descobriu ontem o Teatro Municipal do Rio - a oportunidade de conhecer o excelente trabalho sobre a sua vida que dorme, intocado, em porões onde um importante registro da música brasileira, em breve, virará comida de traças. E devolva, sobretudo, ao zeloso biógrafo Paulo Cesar de Araújo a alegria de compartilhar o seu trabalho de autor com todos os que te admiram.

Mas voltemos ao palco do Teatro Muncipal, na noite de 22 de agosto de 2008. Roberto e Caetano, que abriram o concerto com Garota de Ipanema - sentados em banquinhos, como se estivessem ali batendo papo há horas e sempre fazendo mil salamaleques um para o outro, cortados por carinhosos (e verdadeiros) abraços e beijos - tiveram a feliz idéia de fazer os papéis de Dick Farney e Lúcio Alves e revisitar a memorável Tereza da Praia, mais carioca impossível. E fechar, muito poeticamente, com Se todos fossem iguais a você, um espetáculo marcado pela delicadeza, em que nada foi desperdiçado: luz, cenário, timing, a presença de músicos magistrais, o repertório e o melhor dos dois solistas.

Enquanto ouvia, do meu excelente lugar na fila C da galeria, o povo entoar baixinho, quase num sussurro, o Chega de saudade - em excelente back-vocal para os artistas -, senti, sem esforço e com o coração nas nuvens, o peso da história. E sem precisar de uma camiseta com a inscrição "Eu fui".

Agora atenção, Itaú: não bastam os concertos previstos para o Rio e São Paulo. Esse espetáculo, a bem da música popular brasileira, merece tournée nacional.

Oh vento, que faz cantiga...

Foto: Capa do livro "Dorival Caymmi", de Francisco Bosco
Edição PubliFolha (2006)


Coqueiro de Itapoã,
coqueiro...
Areia de Itapoã,
areia...
Morena de Itapoã,
morena...
Saudade de Dorival
,
me deixa!....


(Dorival Caymmi - 30/04/1914-16/08/2008)



quarta-feira, julho 30, 2008

Dercy

Dercy Gonçalves
Foto: Divulgação

É estranho que este blog tenha, em tão pouco espaço de tempo, registrado tantas despedidas: Zélia Gattai, Jamelão... e agora Dercy, 101 ou 102 anos, grande musa do imaginário popular.

Não desejo aqui ficar no tom da tristeza nem criar uma vibração saudosista, mas não há como não reconhecer que o andar de cima anda movimentado, com pressa de transferir tantas personalidades queridas, e todas de uma vez!...

Quando nasci, a impávida Dercy Gonçalves já tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança. Posso dizer que me criei com a sua imagem na pauta da televisão - e não nego que sempre gostei dela. Já era uma figura carismática na era anterior ao palavrão no ar; divertida, espevitada, com expressões faciais fortes e impagáveis e sempre um comentário espirituoso na ponta da língua.

Assisti muitas entrevistas até comoventes da filha de Madalena, uma mulher vivida e segura, que possuía espiritualidade e deixava entrever a decência do seu caráter. Lembro-me que uma vez alguém lhe perguntou qual era o seu maior desejo na vida, e ela disse: "Que a humanidade se entenda para produzir a paz, e que meus netos sejam os maiores homens do mundo." Achei bonito, puro. Dercy era resolvida, enfrentava-se, não tinha vergonha de nada, era positiva e interessante.

Nunca a vi dentro do rótulo de escrachada, como meio mundo fazia questão de classificá-la. Era uma atriz de verdade, uma comediante inteiríssima - e isso, convenhamos, é muito difícil de fazer. É incrível que as pessoas gostem de ouvir alguém dizer mil palavrões, paguem ingresso no teatro para vê-la - e no entanto discriminem essa pessoa justamente por isso. Creio que essa foi a injustiça básica com Dercy, uma verdadeira marca de brasilidade, uma boa tradução do nosso espírito boa-praça. E corajosa, por tudo o que enfrentou na sua época, para firmar sua vocação e dar rumo ao próprio destino.

Foi triste para mim vê-la flertar com a senilidade, pois eu conhecia a outra Dercy, sempre imperturbável e senhora de si. Não gostei de ver as pessoas se aproveitarem do seu estado para expô-la indevidamente na frente das câmeras. Afinal, ela merecia, em tudo e por tudo, a reverência dos brasileiros. Ajudou a construir a memória deste país; foi uma personagem de garra e amplitude, que nunca deixou de lutar - e atravessou dois séculos sorrindo e fazendo sorrir.

Deixo aqui o seu rostinho maroto, no auge da carreira. Uma foto que sintetiza a alegria de que foi portadora, e que encheu o nosso coração a vida inteira. Dercy foi muito gente, foi muito Brasil. Curvo-me à sua passagem, certa de que a memória do povo, mesmo com fama de ser curta, há de lhe fazer toda a justiça.

domingo, julho 20, 2008

Hora de encontrar a turma das filas

ESPECIAL FLIP 2008

Flip 2008: embandeirada
Foto: Maurette Brandt


A Festa Literária Internacional de Paraty, ou simplesmente FLIP, tem lá suas peculiaridades: todos os anos a compra de ingressos é uma angústia longa que se transforma em stress e, às vezes, tem final feliz. Estamos sempre sujeitos ao enlouquecimento espontâneo de um dono de pousada que pode, a qualquer momento, ter um surto e achar que está perdendo dinheiro: motivo suficiente para aumentar preços sem critério e suscitar uma longa e complexa negociação. Isso sem falar nas passagens de ônibus, o já proverbial tem-não-tem-ônibus-extra, quando todo mundo sabe que vai ter, tem que ter, pois a procura é grande e a empresa, logicamente, não vai querer deixar de faturar.

Mas essas coisas todas têm um pouco de graça. Todos os anos tem a célebre fila nos pontos de venda, pois os pobres mortais que se candidatam à verdadeira prova de resistência que é assistir a 20 palestras - ou mesas, como a organização as chama - à razão de cinco por dia têm de aguardar ansiosamente que seja anunciado o dia da venda e o horário em que as bilheterias, a internet e o telemarketing vão abrir, sempre todos ao mesmo tempo. Tudo em nome de uma democracia fictícia que pressupõe - em intenção, não em gesto - garantir o acesso de todos.

Meu ponto de venda é a loja da Modern Sound, em Copacabana, a dois passos de casa. Sempre acho que serei a primeira, pois tenho uma paciência praticamente inquebrantável para me enquadrar em longas esperas. Pois este ano fui a terceira - o que parece bom, salvo se a velocidade dos compradores (e vendedores) online não superar a compra direta. No caso da Flip, nunca se sabe. Mas a fila - que na Modern Sound merece a deferência de um civilizado par de bancos compridos - é um local de encontros. Você sempre vê as mesmas pessoas, conhece algumas novas, ouve histórias, administra os boatos que proliferam - é mais caro, tem taxa, não tem taxa, acho que já acabou e terrorismos desse quilate - e, no mínimo, tem diversão garantida por algumas horas.

Este ano, o "sistema" - nome genérico que no meu tempo personificava a ditadura e hoje representa a rede informatizada - ia abrir às nove. Sabedores disso, os pontuais fileiros pediram ao dono da Modern Sound para abrir a loja antes do horário normal de nove e meia. Às dez, já com quase três horas de fila e muito papo rolando, foi anunciado aos quatro ventos pelo segurança, no papel de um autêntico jogral, que haveria um atraso. A tensão progride, alguns gesticulam, outros tentam por telefone, alguém diz que em casa não conseguem acessar as vendas pela internet.

- É o sistema...

Por fim, às onze-quase-doze, o tal sistema resolve funcionar. Só deixam entrar um de cada vez, para não dar problema; aguardo por minutos agora intermináveis na porta, até que me liberam. No caixa, porém, dá-se o milagre da suavidade. Peço dois pacotes completos, entrada inteira. A menina processa e os ingressos começam a jorrar rapidamente da impressora. Em menos de 15 minutos, tenho todas as folhinhas na mão, com as mesas discriminadas e os hologramas perfeitos para leitura eletrônica. Em nenhum momento ouvi algo sequer parecido com "Acho que não tem..." Pago e, na dúvida, resolvo afundar-me numa das poltronas da Modern Sound para destacar os ingressos, contar e conferir.

Tudo certo. Já é quase uma da tarde. Despeço-me de um ou outro companheiro de fila e sigo para casa carregando os preciosos (e caros) ingressos para a Tenda dos Autores. Ao chegar, descobriria que esquecera os óculos no balcão, mas foi só questão de telefonar e passar para pegar no dia seguinte.

Uma amiga que comprou por telefone sofreu um pouco mais, pois era sempre o número 89 ou coisa que o valha na fila de espera, mas afinal foi atendida e comprou o que queria. Já no ônibus, porém, começo a ouvir histórias de não-tem; gente que chegou à noite e não achou quase nada, gente que viu a fila de idosos arrebatar o estoque inteiro...

Uma coisa eu aprendi, no penoso ano em que a venda ficou por conta das Americanas.com; a Flip não põe todos os ingressos à venda no primeiro dia. Eles dividem em cotas e vão soltando aos poucos. No tal ano das Americanas, quando entrei na internet - poucos minutos após a abertura das vendas - já não havia quase nada. Comprei o que pude e, dia após dia, dedicava-me ao trabalho de formiguinha de garimpar ingressos. Nesse afã, acabei conseguindo entradas para quase todas as mesas na Tenda dos Autores.

Já em Paraty, nas seis filas que se formam para o acesso à tenda - que continuam absolutamente manuais, mesmo após seis anos - a gente encontra o pessoal de todos os anos. Há pessoas com quem nunca trocamos uma palavra sequer, mas que conhecemos de longa data - quer dizer, de longa fila. A senhora acompanhada da filha, que quase sempre é a primeira como nós, a outra senhorinha de descendência indígena, os cabelos ainda pretos, outras duas amigas que sempre vêm... Criamos um vínculo estranho com essas pessoas. O fato de vê-las parece nos assegurar uma familiaridade, um compromisso inusitado que só se dá com flipianos: o início de julho é guardado a sete chaves para aqueles momentos ora fortes, ora perturbadores, ora engraçados, para aquela sala-de-estar com escritores que a gente admira, com outros de que só ouvimos falar e muitos que nem isso. Mas aprende-se, e como! As idéias e linguagens nos cercam com sua novidade e espírito. Cabe a nós aproveitá-las e engordar a alma de beleza, realidade, inconformismo, susto e emoção.

Porque a Flip, com seu jeito único, é um pouco de tudo isso.

domingo, junho 29, 2008

... antes de me despedir, deixo ao sambista mais novo o meu pedido final...



Verdes e rosas mais pálidos, gritos de guerra mais roucos, ruas do Rio mais caladas, cortadas de um luto discreto, fundo, uma dor do povo.
Mestre Jamelão se despede em farto, amplo cortejo. Sob as palmas da platéia que se alonga nos quilômetros e quilômetros do adeus.
O samba sente muito. Mas é o povo que chora. O povo que não pensou duas vezes e foi em peso vê-lo passar pela última vez, interpretando como ninguém uma saudade profunda.
Jamelão saiu de cena como um rei, com a pompa e circunstância que mereceu e conquistou vida afora.
Houve um tempo em que já era tradição: duas semanas antes do Carnaval, as intrigas da oposição sempre espalhavam no Rio de Janeiro que Jamelão tinha morrido. Mas todo mundo sabia que era para enfraquecer a Mangueira. Imagino que ele risse da piada, pois no dia aprazado estava lá ele, com sua voz inconfundível, à frente da mais querida. Era Estandarte de Ouro na cabeça!
Sou o tipo de devota que aprendeu a sonhar com o ZiCartola que nunca viu, que ouvia Matriz e Filial com respeito e reverência - e que sempre chora quando a Velha Guarda entra na avenida com seus ternos de festa.
Com Jamelão não foi diferente: sempre o olhei como um desses seres superiores que detém o segredo de estar no coração do povo. Mas não como uma moda que é esquecida assim que sai de cartaz: Jamelão é pra sempre.

Por onde passou, o cortejo do grande mestre encontrou um olhar perdido, um surdo imaginário a soar compungido, uma cabeça baixa, uma lágrima, mãos em jeito de oração, o silêncio de alguém que saúda de dentro de uma tristeza tímida, sincera.
Há uns quatro anos, acho, tive a felicidade de assistir ao Desfile das Campeãs numa frisa. Minha amada Mangueira, segundo lugar naquele ano, estaria lá. Num dos intervalos, perambulando pela área do bar, pude vê-lo. Pequenino dentro do terno rosa e amparado por dois ou três guardiães da Escola, brilhava com uma força tremenda. Não pude evitar o nó na garganta.
Jamelão, um símbolo e uma voz, já faz muita falta. Mas sei que há de refulgir sempre sobre a Sapucaí, no céu do Carnaval. Não uma estrela, constelação. Não um puxador, um intérprete, como sempre fez questão de dizer. Não um sambista, mas o próprio samba.

sábado, junho 14, 2008

Gerard


Um inusitado efeito multi-idiomático tem operado em mim um verdadeiro milagre: leio e compreendo o catalão! Óbvio que com algumas limitações, mas mesmo assim é uma proeza. Ainda não freqüentei nem mesmo um curso online e, no entanto, progrido a olhos vistos na escola da generosidade e de uma empolgação genuína.

Isso se deu por obra e graça de Lluís Llach, aquele que, mesmo tendo encerrado voluntariamente a carreira musical no ano passado, ainda canta muito em milhares de corações, principalmente na sua Catalunya e na França, onde se exilou durante o franquismo.

Em seu esmerado e elegante website, um dia desses deparei-me com El Cafè Antic. Não, não é um café. É simplesmente o nome da lista de discussão dos fãs de Llach, que por sua vez foi assim batizada em homenagem a uma de suas belas canções.

Entrei na llista, pois é assim que se escreve em catalão, muito timidamente, mais para observar. Mas que acolhida recebi! Logo os mais assíduos se interessaram em saber como eu cheguei lá - e abriram não só o coração, mas também o baú de lembranças. Àngels, Montse, Xavier, Carme, Carlos, Juanjo... cada um com uma história, uma ternura, uma razão para ser llachiano.

Em meio ao calor e à força dos participantes, me veio Gerard.


Um belo dia abro o gmail e vejo um texto de estarrecer. Em catalão, como sói, que é como se expressa a maioria absoluta da
llista. Leio com a atenção redobrada que o pouco domínio do idioma me exige, entre uma e outra olhada no "Dicionari català, valencià i balear", gentilmente disponiblizado online pelo Institut d'Estudis Catalans. E me delicio com sua precisão, suas fagulhas, suas idéias envolvidas no amplo abraço de um estilo irretocável.

Gerard é um poeta que, por distração ou por gosto, escreve em prosa. Na llista, cria textos formidáveis, sempre com alguma referência ou situação criada para lembrar Lluís Llach.

Depois de umas três ou quatro leituras, resolvo manifestar o meu deslumbramento e travamos contato. A força de suas histórias, dos personagens e das variadas dimensões do seu povo é muito comovente, terna mesmo, apesar da dureza inevitável, temperada por vezes com algum sarcasmo ou fina ironia.


Em suas linhas leio coisas quase brasileiras; não são referências explícitas, mas maneiras de ser, observações, detalhes que mostram que há incertezas, violência e amoroso respeito em toda parte. Ora é uma situação documentada, ora apenas uma idéia a defender. Mas Gerard as transforma com sua doçura e mestria, com uma
tendresa e uma elegância tais que é impossível resistir-lhe.

Gerard é moderno no sentido renovado da palavra, na forma como fere o papel com verdades e sangue. Nesse sentido, ler em catalão é, para mim, um ponto de honra. Agora, além de aprender para poder mergulhar, em intenção e gesto, na obra llachiana, há que fazê-lo pelas palavras de Gerard, que calam fundo acima e além da barreira (mas que barreira?) do idioma.

Ele chama de cultura oculta o universo de belezas que vive dentro da língua catalã, talvez com alguma tristeza. Ouso discordar. Acho que são coisas como a música de Llach e os escritos de Gerard - ao lado de uma imensa e inquietante obra nacional em literatura, poesia, teatro, música e todas as artes, sem esquecer o design - que fazem com que pessoas como eu desejem ardentemente virar a chave da língua e entrar, devidamente alfabetizadas, no coração desse fascínio.

quarta-feira, maio 21, 2008

Noris e as cores

Ao lado da estufa em Riddervoldsgate - Foto: www.noris.no

Meu reencontro, há dois anos, com os companheiros bolsistas do American Field Service, a turma daquele emblemático ano letivo 1974/1975, tem sido alegria pura e surpresa constante.Trouxe-me, por exemplo a arte de Noris Maria Dias, gaúcha de Pelotas hoje radicada na Suécia, que no dia 14 de maio último inaugurou sua primeira exposição individual naquele país.

A história dessa psicoterapeuta que tornou-se uma artista referencial é fascinante. Bolsita do AFS na Noruega, foi estudar psicoterapia na Itália com o marido; depois de formado, o casal foi morar e trabalhar em Oslo, onde nasceram os dois filhos. Foi lá que Noris conheceu o pintor Garman-Vik e passou a freqüentar o seu grupo. Apesar de ter ido morar na Toscana, Noris retornava periodicamente ao trabalho com o mestre e, desde 1998, dedica-se integralmente à pintura. E a fertilidade é impressionante: entre 2004 e 2008 foram doze mostras em várias cidades do mundo, inclusive no Brasil!

Até dia 27, Noris realiza o sonho de expor individualmente no país que adotou como pátria. E nós, colegas AFSers, vibramos muito com isso. Em seu interessantíssimo site, é possível ter uma idéia da profundidade e beleza do seu trabalho, além de conhecer melhor a sua intensa trajetória.

Vale a pena publicar aqui o texto de apresentação da exposição de Noris, escrito pela amiga Juliette Atwatter e retraduzido por mim, após mergulhar de olhos e sentidos bem abertos no seu universo "desfeito em cores no além", que descrevo com essa brilhante estrofe da canção Teletema, do compositor Paulo Sérgio Valle.

Parabéns, Noris, pelo trabalho e por suas vitórias!

Noris

Texto de Juliette Atwatter
Tradução: Maurette Brandt


A arte de Noris não é fácil de qualificar. É feminina sem ser estereotipada ou água-com-açúcar; tampouco é abertamente feminista, como mero contraponto a uma perspectiva masculina. É uma arte profundamente enraizada em fértil terra de imagens, em criações que mesclam, com riqueza de detalhes, a natureza, a religião, os mitos e o (sub)consciente.

Ainda que muitas das imagens sejam facilmente perceptíveis a olho nu, diante de um observador mais atento, pronto a dedicar-lhes o necessário tempo, desdobram-se lentamente e revelam uma essência condensada, firme, consistente. As várias camadas de sonho são recheadas de um estonteante imaginário mítico e psicológico, com crânios escondidos pelos cantos. Esqueletos – lembretes da nossa fragilidade e mortalidade – ao lado de mulheres fecundas, curvilíneas, e de madonas voluptuosas e sensuais, celebram o ciclo de vida, morte, renascimento e acima de tudo amor. Que, em um dos quadros, faz com que até a esquelética morte tamborile os dedos, ansiosa por ser notada.

O surpreendente uso da cor e as ricas padronagens envolvem detalhes inesperados - e na maioria das vezes desconcertantes, como as curvas da cauda de um gato que escapam do robe de uma mulher (Tommasia); os rostos aparentemente encaixados de um casal que dança (Beijo); um auto-retrato com um pé calçado, outro descalço e uma mulher nua ao fundo, embrenhando-se furtivamente na mata (Crepúsculo); um gato manhoso que imita sinuosamente os contornos de uma árvore banhada por um luar espectral (Allegro, ma non troppo); um homem sentado de costas para o mundo lá fora (A árvore de Stein); seus filhos rodeados de borboletas. Toda essa atenção aos detalhes nos leva a estender e explorar mais a fundo as imagens - e, em última análise, a questionar a impermanência à nossa volta.

Embora sua bagagem em psicoterapia fique patente no trabalho, sua arte nunca se leva demasiado a sério. Um humor irônico está presente quase o tempo todo, seja num título (Galinhas da Paz) ou num detalhe (o gênero de uma figura crucificada); e, embora o estilo vigoroso e a técnica madura denotem uma escuridão imanente, há sempre traços de luz e uma beleza fugaz, que nos deixam uma sensação de esperança.






domingo, maio 18, 2008

Zélia

Zélia Gattai - Foto: Yahoo

Sei de alguém que hoje deve estar feliz.

Lá no Céu dos Escritores Eternos, Jorge Amado abre os braços para sua queria Zélia, que nos deixa decerto com aquele sorriso confortador e macio de poesia, com que fazia a vida parecer muito fácil, muito normal.

A lei natural das coisas e o coração da gente nunca se entendem lá muito bem; intelectualmente, conseguimos ver a lógica de uma vida longa e bem vivida, rica, fértil, terminar após 91 anos, quase 92. Com o coração, porém, sentimos saudades dela, íntima à sua maneira da nossa alma ávida de alguma solidez.

Zélia Gattai era a beleza em estado bem sólido, que não só tinha uma enorme graça como um jeito de ser prazeroso, que quase imediatamente nos convidava à cozinha, a uns bolos de fubá ao som da Bahia. Convidava-nos, sobretudo, a uma presença marcante de Jorge, o seu Jorge com quem tinha um pacto lindíssimo - e com quem viveu um mundo que, para muitos de nós, tinha o doce sabor de uma utopia possível.

Não que tudo fossem flores; eles é que eram capazes de florir as adversidades com sua fé profunda, sua verdade, seu talento e as histórias que deram cor e forma à nossa memória, enquanto nação.

Em maio de 2006 estive na Casa de Jorge Amado, em Salvador, espaço mais que vivo que Zélia presidia com o ardor próprio da sua personalidade. Podia senti-la em cada detalhe, nos óculos de Jorge, nas capas dos livros, no café e na água mineral que pedi. Na capa amarelecida de Seara Vermelha, que me fez lembrar o dia em que meu pai me falou desse livro, e de Jorge.

Quando Zélia enchia a tela da tv com o seu sorriso, parecia que tudo estava bem. Sua vitalidade ultrapassava as marcas por vezes duras da vida. Tinha alguma coisa de fresco, de natural, que fazia a gente gostar dela mesmo sem a ter de fato conhecido.

É chato começar este domingo em meio à saudade material de Zélia. No Rio de Janeiro, o sol brilha demais para essa tristeza. Mais isso deve ser uma forma de homenagem. Salvador terá talvez emudecido; os personagens diários da velha capital, com quem ela conviveu desde que começaram a brotar dos livros do marido, devem andar pensativos, sombrios, pelas ladeiras. Os anarquistas estarão de luto, apesar do sol.

Mas no Céu dos Escritores Eternos, há uma animada mesa de amigos que comemora a chegada da grande mulher Zélia Gattai, escritora e brasileira como poucas.

Vamos tentar, em nossa pequena medida, brindar com eles!

Adeus, querida Zélia, e bem-vinda ao coração da lembrança.



sexta-feira, maio 16, 2008

Sobrevivência

Dor


Ando na rua e tento lutar contra a pressa; observo. Não necessariamente em busca de um fato novo; faço o que posso para registrar a magia do corriqueiro, do comum, do casual. Nas quadras em torno de casa, que freqüento religiosamente por razões domésticas - mercado, farmácia, caixa eletrônico, banca de jornal - tenho um bom retrato de uma Copacabana que não engana mais ninguém. Hoje, expor as vísceras virou uma dolorosa moda que nos impõe, a cada dia, os tons sem tom de sua passarela.

Observo a crescente população de panfletadores. É uma polpuda massa onde cabem todas as idades, desde o senhor de poucos cabelos brancos à senhora de quadris mais pródigos e calça colante - passando, é claro, pelos rapazolas de bermudão e camiseta e as menininhas mais ao estilo funk. Deve ser duro disputar centímetros de calçada, todo dia, com vários concorrentes - e para entregar um produto que ninguém quer! Pois eu pego senão todos, quase todos esses papeluchos que oferecem dinheiro rápido, compram jóias, vendem serviços. E não é raro receber de volta um aliviado "obrigado" . É, deve ser duro entregar panfleto em Copacabana.

A linha de sobrevivência está cada vez mas tênue nesse território de diversidades. Palavra essa, aliás, que a cada dia se esvazia mais. Tenho observado como as palavras, num mercado de poucas verdades, vão sendo saqueadas: carente, cidadania, risco social (agora é "vulnerabilidade"), diversidade, diferenças... A síndrome do politicamente correto tem o dom de desvitalizar o idioma e nos deixar mais pobres, mais sem sentido. Nunca pensei que esse tipo de doença fosse tão fatal para a língua. Daqui a pouco não teremos mais o que dizer.

O que vejo, sem nuances, é a miséria mesmo. E ela se agiganta. Não falo como os incomodados de ocasião, nem como quem pede que "tirem essas pessoas da minha vista". Não. Vejo a miséria a rondar-nos muito de perto. Ninguém está imune à destruição que ela infunde em tudo: crenças, valores, sentimentos, conduta, na mesa e nos móveis da casa, na roupa que vestimos, naquilo que comemos. Viramos egoístas por centavos - e por necessidade. Temos tanto medo de viver que disparamos um pico de adrenalina a cada vez que enfrentamos (sim, enfrentamos) a rua. O velho prazer de bater perna está carcomido pelo medo dessa miséria que avança e toma conta de cada canto. O que antes era um simples moleque, no doce conceito "literário" do nosso cotidiano, hoje é uma arma em potencial. Não conseguimos mais dizer, sem hesitar, que vivemos na melhor cidade da América do Sul, baby, eu sei que é assim, como Caetano nos ensinou um dia. E nem podemos dizer, como Geraldo Azevedo, que em Copacabana tudo é rei... e rainha. Em Copacabana, tudo é grade, tranca e ferrolho, do Leme ao Posto Seis. No shopping-cidade onde moro, que a vida inteira exibiu com orgulho suas cinco entradas para três ruas, erigiram feias grades de alumínio anodizado, totens da desesperança que de dia pendem sobre nossas cabeças, ameaçadores, e de noite fecham-se sobre a liberdade como uma sentença perpétua.

Por que temos tanto medo da miséria? Por que não nos dedicamos, de corpo e alma, a eliminá-la?

Por que não queremos essa responsabilidade. Mais fácil delegá-la às autoridades, sob a frágil desculpa de que pagamos nossos impostos, e se alguém rouba no Governo, não é culpa nossa. Não queremos agir por meios pequenos, não buscamos organizar-nos dentro dos valores que por tantos anos defendemos, mas que na verdade não temos, ou perdemos. Será que não existe uma forma de nos entendermos e trabalhar sem disputa, de modo limpo, pelo bem-estar de todos? Nós, a população enjaulada que pensa ser a mocinha da história, fechamos todo dia os nossos olhos aos pigmeus do boulevard, nas santas palavras de Aldir Blanc. (Sim, a nossa música-retrato é uma fonte inesgotável de bons exemplos que ainda não se consumiram na autofagia das mentiras travestidas de benevolência). Precisamos acreditar que, se uma pessoa que vive na rua não come, um dia ela virá - e com justa razão - cobrar a conta diretamente, com os meios de que dispõe. E não há sociologia, por mais lúcida que seja, que possa resolver.

Vamos esperar mais o quê? A tão falada (e tão vazia!) justiça social tem que ser hoje. E nós temos de ser capazes de realizá-la, pois os discursos já não conseguem nem disfarçar a medonha face da tragédia nacional que presenciamos. Num mundo de privacidade zero, não há criancinha que não saiba dos males do mundo. A barbárie corre nas nossas veias, não é atributo exclusivo da massa que viceja diante dos nossos aterrorizados olhos, como se não fizesse parte do mesmo mundo. Nós a alimentamos com a nossa indiferença cortante. Assim como foi na Revolução Francesa, essa massa já nos atinge em cheio, e não há argumento que a convença a voltar ao seu território. Ela não se contenta mais com isso, já perdeu o que tinha a perder e agora, o que vier é lucro. Doa a quem doer.

Vamos acordar o que ainda nos sobra de princípios e vontade - e fazer a hora, como disse um dia o Geraldo Vandré, num mundo onde ainda havia espaço para muita fé no poder de gente unida. De baixo para cima, como formiguinhas operárias, com a mão na massa mas gritando forte. E com a certeza de que, se não formos à luta para trazer de volta o bem comum, se não dermos de nós para que ninguém mais tenha de sacrificar-se por uma casa, um buraco, como disse Maiakovski pelas palavras de Caetano na canção que, não por acaso, se chama Amor, um confronto maior, mais duro e mais sofrido será inevitável.

Temos de agir com pouco, mas organizados e coerentes, para fazer muito. Com nosso tempo engolido, nosso pouco dinheiro, nossa força de pressão em cima do síndico, do vereador, do subprefeito, enfim, sabendo o que fazer, onde ir e como conseguir que a população saia da inércia e abra espaço para que todos possam primeiro sobreviver - e, logo em seguida, conhecer o doce sabor da dignidade.

domingo, maio 11, 2008

Per molts anys, Lluís!

Lluís Llach - Foto daqui

Lluís Llach fez 60 anos no dia 7 de maio. Entusiasta recente da arte e da poesia desse catalão prodigioso, acho importante comemorar. De longe, Llach - que há um ano trocou os palcos por suas vinhas no interior da Catalunha - deve estar sorrindo: seus fãs, que são muitos e profundamente antenados, manifestam sua amorosa saudade com enorme respeito à decisão do artista de mudar de vida.
Eu cá comigo acho que mudou de vida sim, mas de alma não dá para trocar.

E minha esperança-última-que-morre de fã tardia ainda arde por vê-lo cantar. Sobretudo depois de ver um vídeo impressionante, o registro de um concerto seu diante de um Camp Nou (o estádio do Barcelona) apinhado de gente, velas acesas na mão, a entoar L'Estaca, sua mais emblemática canção de alerta, num lindo mareio prá lá e prá cá, com o maior jeitão de Maracanã em dia de Pra não dizer que não falei de flores.
Era 6 de julho de 1985, e Llach, então com seus 37 e carinha de 28, embriagava-se da pura felicidade de cantar. Uma energia incrível, e a simplicidade de um tempo que nos parecia mais terno.
Fica no blog o meu abraço, recheado de teimosas esperanças. Às vinhas e às canções!

Já murcharam nossa bola, pá...

Vida de torcedor - Foto daqui


De Bom Tempo a Rosa dos Ventos eTanto Mar 2

Ora bolas, mal o radinho cantou direito a vitória do Mengão, sob as bênçãos do eterno tricolor Chico Buarque, veio a vitória no Carioca e a amarga e tola derrota para o América do México. Adeus, Libertadores! Sniff!
E já que comemorei com Chico, é também dele o tom do luto, com duas passagens históricas: as estrofes de abertura de "Rosa dos Ventos" e um trechinho da letra da segunda Tanto Mar, lamentando os resultados meio amargos que sobrevieram à inocência libertária da Revolução dos Cravos.

Rosa dos Ventos
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
Tanto Mar (2)
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Fazer o quê, não é? Resta guardar as bandeiras, porque rubro-negro que se preza não desiste nunca. Não é à-toa que somos a maior torcida do Brasil. Hora de dar a maior força para o novo treinador, sacudir a poeira e dar a volta por cima, galera...

sábado, maio 03, 2008

Bom tempo (em vermelho e preto)

Chico Buarque e o neto Francisco no Maracanã, 27/4
Foto: Zero Hora

No compasso do samba
eu disfarço o cansaço,
Joana debaixo do braço,
carregadinha de amor!
(...)
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito,
O radinho contando direito
a vitória do meu tricolor!
(Chico Buarque, Bom Tempo)
O dia de glória de todo flamenguista que se preza chegou: ver Chico Buarque, sabido e ferrenho tricolor, no meio da torcida. E a foto que vocês aí vêem, além de não deixar a menor dúvida, foi com toda justiça matéria de capa de vários jornais brasileiros, na última segunda-feira. Tá certo que o neto, o mais jovem Francisco da família, é o grande responsável por isso. A gente entende. Mas o prazer... o deleite de ver um Chico atento, concentrado e mesmo sorridente, pendendo para o vermelho e preto em pleno Maracanã, é inenarrável. Sinal de bom tempo nos corações rubro-negros.

Não há como discutir que Chico é uma unanimidade. Mesmo que cante pouco, grave pouco e sinta mais vontade de escrever seus livros, numa altura da vida em que todas as escolhas lhe são permitidas. Mas esse rosto ainda de menino, esses olhos d'água que têm arrastado, há décadas, os sonhos femininos em praticamente todas as faixas etárias, são mesmo uma paixão da gente. Paixão brasileira, de poesia, de luta, de compromisso e coerência. Falar de Chico é difícil, às vezes, porque ele está pregado na alma. É olhar para trás e para a frente como se o tempo fosse um só, apenas um trem com várias composições, cuja viagem é curta e, ao mesmo tempo, não acaba nunca.

Ao ver Chico e o neto no Maracanã, lembrei-me dessa canção que cito aí em cima, de um Chico que, carioca de berço, ainda era bem "paulistano" e cantava com sotaque.

Um marinheiro me contou
que boa brisa lhe soprou
que vem aí bom tempo
Um pescador me confirmou
que um passarinho lhe cantou
que vem aí bom tempo...


Tempo bom que, já então, andava longe da inocência. O menino Chico, de violão em punho, incorporava-se às lutas estudantis e sabia que, a qualquer tempo, o tempo que era bom podia fechar. Mas ia se aventurando na saudável mistura de amor, poesia e resistência. Como todo mundo, também eu vi, ainda menina, a banda passar; mas vi também Januária, Carolina, a Rita... e Pedro Pedreiro, Morte e Vida Severina, Funeral de um Lavrador. E depois, entre nuvens mais cinzentas, Construção, Apesar de Você, Cálice, Pelas Tabelas, Vai Passar... e a esperteza do parceiro-heterônimo Julinho da Adelaide, em Acorda Amor e Jorge Maravilha.

Tempo fecha, tempo abre, e esse Chico de mil faces sempre nos recheou da melhor poesia que o povo podia cantar. Há alguns anos, na Festa Literária de Paraty, pude sentir na pele o tamanho do carisma desse homem; uma fila que dava voltas à enorme tenda da Flip mobilizou praticamente todo o contingente policial da cidade, aos gritos de "Lindo! Lindo!". E não das mulheres daquele tempo, mas de suas filhas, ou mesmo netas. Chico retribuía com um sorriso cabisbaixo e um rosto roxo. Difícil conter a explícita emoção da galera. Senti orgulho por ver que o nosso rapaz, mesmo aos sessenta e poucos, consegue provocar esse baticum em tantos corações.

Todos sabem do fervor do Chico pelo Fluminense, e de sua paixão por futebol. Todos conhecem a história do seu Politheama Futebol Clube e das célebres partidas privadas que gosta de jogar, em seu campo particular ou em outras plagas. Na fila de entrada da Flip, inclusive, uma francesa segredava a uma amiga que tinha conseguido "convites para o futebol do Chico Buarque". Quem não gostaria de ter o privilégio de assistir aos volteios do craque da alma pelo gramado? Confesso ter amargado uma invejinha...

Ao segundo Francisco, um belo flamenguista, fica o agradecimento da torcida. Que eu saiba, foi o único capaz de arrastar um amoroso "vô" às fileiras rubro-negras. O repórter disse que Chico comemorou o gol de Obina; mais ainda que assim não tenha sido, estava lá, com sua camisa azul e florida emoldurada pelas cores do coração de tantos como eu.

Ah, meu caro Chico, que bom que o futebol é democrático, ou pelo menos pode ser!... É diante dele que os Pedros Pedreiros da vida deixam escapar o grito, ainda agarrados ao imemorial radinho. É ele que faz o avô ter o prazer de levar o neto ao Maracanã, de partilhar a magia da torcida em dia de quase decisão, mesmo quando o seu time não está. Há até quem diga que brasileiro só é patriota no futebol, mas não creio nisso não. Antes, acho que o amor ao futebol ajuda a ser patriota, mas essa é uma outra conversa. O importante mesmo é saber que, ainda que por um dia e por razões amorosas, Chico Buarque fez a alegria dos flamenguistas e parou para ver o Flamengo passar.