quarta-feira, janeiro 20, 2016

O último baile

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Ettore Scola aos 80 anos
Foto; Divulgação

Quando pára o coração de um grande artista, o mundo fenece um pouco. É como me sinto: feneço ao saber que Ettore Scola nos deixou no dia de ontem, vítima de complicações cardíacas que o deixaram em coma, aos 84 anos.

Sou uma fã sentida. Scola marcou minha vida de muitas formas. Tenho uma mania particular de achar que meus grandes ídolos são incapazes de morrer. Guardo-os num compartimento que os torna aparentemente intocáveis, imunes à ação do tempo ou à possibilidade da morte. Mas a realidade é diferente e nos golpeia com essas tristezas.

Trago aqui uma valsa para Ettore Scola, a última do baile eterno que plantou em minha alma. Um baile triste e belo, poético e implacável, reinado dos esquecidos, dos estranhos, dos diferentes que são, afinal, nada mais que humanos. Nesta valsa, danço com minhas incertezas, com meus desencontros, com minhas alegrias juvenis e decepções rasas e profundas, com minha inabilidade e com a poesia da qual me aproprio para viver. 

Ettore Scola, com sua mão certeira e uma singular inocência diante das menores coisas, fez poesia com o cinema e nos abraçou com a delicadeza de quem desembrulha tesouros timidamente.  Em O Baile me encontro, e por isso valso, mas é uma valsa de adeus e de esperança ao mesmo tempo. Não há como não pensar em Nós que nos amávamos tanto e em Um dia muito especial, momentos de inefável ternura mesmo diante do que há de mais duro e injusto, lado a lado com o que há de mais belo e inesquecível.

Hoje não consigo deixar de sofrer pela ausência de Ettore Scola, um homem do seu tempo, um poeta entre os maiores da imagem. Com minha pouca habilidade para dançar, desenho a minha valsa com traços vagos, incertos, mas profundamente verdadeiros, ladeada pela saudade e pela gratidão também. Sem sua mestria e talento, meu mundo seria menos doce, triste-alegre, menos carregado da emoção genuína diante de uma obra de arte, de filmes que comoveram, ensinaram, nortearam o meu pensamento e minhas vocações mais ardentes. 

Sinto falta, hoje, do muito que o conheci sem conhecê-lo de perto. E de quanto a sua obra encheu a minha alma de alegria, amor, humanidade e sentimento.

Que o céu da sétima arte o receba com o mais largo abraço!

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Do que há de humano no amor e nas lutas



Omar Sharif como Jivago
Fotos: Acervo Divulgação MGM

Eu não diria, como na canção de Flávio Venturini, que foi assim como ver o mar.

Não. 

Mas sem dúvida foi grande o impacto do momento em que o meu olhar de menina, com nove para dez anos, encontrou pela primeira vez os olhos de Omar Sharif.

A tela Panavision que exibia a película em Technicolor, o supra-sumo da tecnologia da época, foi pouco para sustentar aquele instante.

Era 1965, creio. Fui com meus pais, numa sessão noturna - algo pouco comum para as crianças de então - assistir ao filme Doutor Jivago, no Cine 9 de Abril, em Volta Redonda. Um belíssimo cinema de 1.500 lugares, que felizmente foi tombado e continua a ser, até hoje, um cinema.

Naquela época eu já era ratazana da sala escura e, para minha sorte e felicidade, jamais fui proibida de ver ou ler qualquer coisa. A telona, portanto, era amor antigo e eu estava perfeitamente à-vontade no ambiente. Mas Doutor Jivago me marcou para sempre, e muito além daquele olhar tão negro e fundo que me acompanharia por toda a vida. 

Agora, um DVD duplo recheado de extras veio enfeitar o meu Natal. Como não acreditar que Papai Noel existe e que, ainda por cima, é cinéfilo e adivinha o presente que outro cinéfilo quer ganhar?


Geraldine Chaplin e Omar Sharif no set de filmagem


O mergulho no tempo - 50 anos! - revelou intacta a beleza visual do épico esculpido na tela por David Lean, grande mestre dos mestres. Cada detalhe daquilo que a memória guardou voltou exatamente como era. E cada detalhe do que ficou esquecido ressurgiu com toda sua força e virulência. Sim, Doutor Jivago é um drama intenso e complexo, que não nos poupa de nada. Não foi concebido na tela para criar maquiagens e devaneios. Ao contrário, desnuda, ainda que sem deixar de lado a beleza e a elegância, todas as facetas do que há de mais profundo e contraditório nas vidas humanas que se cruzam das maneiras mais impensáveis, na realidade do mundo. 

Yuri Andreievitch Jivago, poeta e médico, perde a mãe na infância e é criado pela melhor amiga desta, que faz as vezes de madrinha, e que tinha uma filha mais ou menos da sua idade. Forma-se na época que antecede a revolução bolchevique e começa a clinicar num mundo em confusão. Casa-se com Tonya, a irmã de criação e melhor amiga, mas logo se alista nas forças revolucionárias e, em serviço, reencontra a jovem Lara Komarova, que conhecera fugazmente numa noite de Natal em que Lara atirou em seu suposto padastro e amante, Victor Komarovsky, bem no meio de uma grande festa. 



Yuri e Lara - Omar Sharif e Julie Christie

Dividido entre a família e o que sabia ser o grande amor de sua vida, Yuri se despede de Lara sem tê-la tocado quando ambos são liberados do exército, mas ao regressar a Moscou só encontra tristeza: a antiga residência da família é agora uma casa de cômodos que abriga muita gente. Yuri, Tonya, o filhinho Sasha e o sogro estão reduzidos a um quarto, mas logo se vêem compelidos a fugir e recomeçar a vida no interior, em uma propriedade da família em Varykino, lacrada pelos revolucionários em nome do povo; só lhes resta ocupar a velha casa do caseiro, mas ninguém reclama. A penosa viagem de trem pelos Urais revela uma Rússia esfacelada em meio à fome, ao frio e à miséria, com cidades sendo queimadas e pessoas sendo executadas por toda parte e por qualquer motivo, já que as reinterpretações do chamado espírito revolucionário dependiam de quem estivesse no comando e das circunstâncias que envolviam cada situação.

Em meio a isso tudo, Yuri reencontra Lara, escondida com a filha Katya num pequeno povoado próximo. O marido de Lara, um ex-amigo de infância, torna-se uma autoridade no partido. Temido por todos, vive para a Revolução e não visita a família há muito tempo.
Desnecessário dizer que o amor suspende o tempo e apaga barreiras. Os dois se entregam imediatamente e o nobre caráter de Yuri se debate entre a família e o amor.


Yuri e Lara

Logo as agruras de uma guerra longe de acabar vão destruindo a resistência de todos. Próximo ao nascimento de seu segundo filho com Tonya, Yuri é capturado e feito prisioneiro pelo Exército Vermelho, como médico da tropa. Depois de alguns anos, consegue fugir e se juntar a  Lara, porém num país devastado. Por ela, fica sabendo que a família está bem, embora tenha fugido. Lara também lhe entrega uma carta de Tonya, que lhe dá conta, entre outras notícias, de que a família estaria prestes a se refugiar na França. 

Premidos pelas perseguições - Yuri por ser considerado um "poeta inimigo do povo" e Lara por causa de seu marido importante, que acaba de ser morto -, aceitam uma proposta de fuga oferecida pelo ex-amante Komarovsky, mas Yuri desiste de acompanhá-los no último minuto. 

E o final do filme... eu não seria uma verdadeira cinéfila se contasse, apesar dos anos e de vivermos na era da informação. Afinal, todos têm direito a descobri-lo e a se emocionar com ele.


A Revolução ganha as ruas

A paixão pela obra Doutor Jivago entre os intelectuais europeus começou com a leitura do livro de Boris Pasternak. A obra, proibida dentro da Rússia, foi contrabandeada por um editor italiano e lançada pela primeira vez na Itália. Logo virou sensação. O então todo-poderoso produtor Carlo Ponti, fascinado, comprou os direitos para o cinema, na esperança de que Sofia Loren, sua mulher, vivesse o papel de Lara. 

A empreitada de fazer o filme seria faraônica, sem dúvida. Para realizá-la, algumas grandes empresas cinematográficas se juntaram, capitaneadas pela Metro Goldwyn Mayer. Por decisão unânime, convidaram David Lean para a direção, pois acabara de realizar o magistral Lawrence da Arábia, com Peter O´Toole e Omar Sharif nos papéis principais. Um estrondoso sucesso em nível mundial. Lean, que também já fora contaminado pelo livro, aceitou na hora mas discordou de Sofia Loren. - Não posso usar Sofia porque é muito alta! Lara é uma mulher mignon! - argumentou. Por incrível que pareça, Carlo Ponti acabou concordando. 


Julie Christie como Lara

Omar Sharif leu o livro assim que foi sondado, para ver em qual dos papéis se encaixaria. Acabou por orientar seu agente para propor o papel de Pasha, personagem coadjuvante que viria a ser o marido de Lara. Qual não foi sua surpresa quando o agente telefonou e disse: - Olha, o estúdio não concorda com o papel de Pasha, mas querem saber se você aceitaria o papel principal. Querem que faça o Jivago!

Essas histórias e muitas outras compõem os vários bônus do DVD, que situam o filme na história, apresentam entrevistas, documentários e até o teste de Geraldine Chaplin, então praticamente uma garota, para o papel de Tonya.


O adeus de Yuri no olhar

Omar Sharif, que faz a apresentação do DVD, conta que o diretor David Lean o chamou, logo no início e disse: - Olha, eu vou te pedir para fazer a coisa mais difícil para um ator. Vou te pedir para  não fazer nada. Não faça nada! Concentre as suas emoções no olhar. Sharif concordou e se lançou a esse inusitado desafio, mas chegou a ter dúvidas. - Eu via todo mundo dizendo: "Nossa, o Rod Steiger está ótimo!", ou "Puxa, o Alec Guinness está demais!". Mas ninguém falava nada de mim! Fui ficando desesperado até que, uma noite, entrei em parafuso e disse ao diretor: "Lean, acho que não deu certo. Acho que não está funcionando!". David Lean se dignou a ir me visitar em meus aposentos, coisa que jamais fazia; ele só gostava de conviver com os personagens, nunca com os atores. Pois foi lá e me disse: "Omar, eu não quero que ninguém fique te elogiando durante as filmagens. Eu quero mesmo é que, quando o filme estrear, ninguém consiga tirar os olhos de você!

Os olhos. Sempre os olhos. Tudo está naqueles olhos o tempo todo. A ternura, o amor, a revolta, a perplexidade, a raiva, o desespero, o medo. Eu, com nove anos e agora aos 60 quase, que o diga. Uma tacada de mestre do grande David Lean, que conhecia a fundo aquilo que Omar Sharif sabia fazer como ninguém.




Paisagens de sonho, como a herdade de Varykino coberta de gelo, a cidade de Moscou recriada em Madri (sim, não havia possibilidade de filmar na Rússia em plena Guerra Fria), quase em preto e branco, contra as bandeiras vermelhas dos manifestantes. Os girassóis que parecem lamentar a partida de Lara do hospital, soltando pétalas sobre uma mesa, imagem das mais delicadas. E os rostos de Julie Christie, Geraldine Chaplin e Omar Sharif sempre em transformação, revelando a humanidade e a nobreza da alma tão profundamente russa de seus personagens.

Sem falar na trilha sonora de Maurice Jarre, capitaneada pelo Tema de Lara, que se tornou praticamente um hino de beleza em todos os lugares do mundo. Em seu depoimento, Jarre conta que só conseguiu incluir um naipe completo de balalaikas na gravação original recorrendo à ajuda de uma Igreja Ortodoxa na França. Conseguiram reunir, entre os fiéis da comunidade, uma verdadeira orquestra de talentos, mas os instrumentistas não sabiam ler música! Jarre teve que ensiná-los um a um, mas valeu a pena. Foi o toque de tradição que tornou a canção ainda mais comovente, mais plangente, mais russa mesmo sem propriamente sê-lo.


Varykino: lacrada em nome do povo

Todos esses detalhes são deliciosos, claro, mas não dão conta da razão pela qual Doutor Jivago mexe tanto com a alma da gente até hoje. Tenho a honra de fazer parte do time de testemunhas oculares da história que viram o filme no início, mas a magia permanece e tem contagiado todas as gerações subsequentes. Por que será? Pela beleza das imagens, pelos figurinos impecáveis, pelo luxo e bom gosto? Pelas cenas épicas e pela direção absolutamente apaixonante de David Lean? Por causa da música? 

Talvez a chave para entender isso esteja no pequeno documentário sobre Boris Pasternak, incluído nos extras do DVD, e nas reflexões de Omar Sharif, que o complementam. 

Pasternak, assim como Jivago, era poeta - e teve a sua obra rejeitada pela Revolução. Assim como Jivago, conviveu grande parte da vida com duas relações amorosas: a segunda esposa, Zinaida Nikolaevna Neuhaus, que inspirou Tonya, e seu grande amor, Olga Ivinskaya, que inspirou Lara. Laureado pela Academia Sueca com o Nobel de Literatura pelo conjunto da obra, em 1958, recusou o prêmio porque o governo russo lhe comunicou que, caso fosse a Estocolmo recebê-lo, não poderia mais voltar. - Ele amava demais a Rússia para renunciar a seu país - resume Omar Sharif. - E o que mais impressiona, na história de Doutor Jivago, é o seu caráter profundamente humano. São as relações humanas as que mais importam. A Revolução é o pano de fundo, mas não é um romance político. São as pessoas é que importam realmente.



Yuri, Katya e Lara em Varykino



Doutor Jivago trata das contradições de um tempo extremo. E das contradições normais dos seres humanos comuns, tanto diante de suas próprias vidas e de seus sentimentos, como diante de dificuldades que jamais esperaram enfrentar, tendo de se encontrar em um novo país que não reconhecem, na verdade, como a terra onde foram criados. Pessoas transformadas por uma guerra interna, aprisionadas entre crenças arraigadas e mudanças profundas, vitimadas por uma violência que não encontra compaixão e muitas vezes nem mesmo explicação. Em meio a isso tudo, o amor ainda é capaz de mostrar toda sua força e nobreza. Aliás, nobreza é o que não falta aos personagens dessa trama. Nem mesmo ao que seria o pior deles, Komarovsky, ainda que num ato final.

Larissa Komarova, Tonya, Yuri Andreievitch, seu meio-irmão Yevgraf, que é quem conta a história, jamais serão esquecidos. Gerações e gerações depois de nós ainda falarão deles. Nos olhos de Omar Sharif, talvez dentre os mais eloquentes (e belos, por que não?) da história do cinema, nos olhos azuis da bela Julie Christie, nos olhos vivos e discretos da fantástica Geraldine Chaplin, as emoções daquele momento histórico do cinema continuarão e a fluir e a nos envolver, e a envolver e emocionar os que vierem depois de nós. Espero que, em alguma cápsula do tempo a ser encontrada daqui a centenas de anos, alguém se lembre de colocar uma cópia do DVD de Doutor Jivago. Talvez seja boa ideia colocar também um aparelho para reproduzi-lo, já que a tecnologia pode estar avançada demais para um produto assim.

Omar Sharif, um dos mais instigantes e completos atores do cinema, nos deixou em julho de 2015, vítima de um ataque cardíaco, aos 83 anos. Sinto um carinho especial por ele, ao vê-lo tão eloquente no DVD, sorrindo para as câmeras, com o mesmo brilho no olhar. Foram muitos filmes, muitas histórias, uma presença que perfumou minha vida com o aroma da ternura e do talento. Na pesquisa de imagens para este post, encontrei esta fotografia, na qual transparece sua alma forte, sua presença inigualável - e também (como não?) o olhar com esse brilho de inocência, de verdor e de ternura que sempre o acompanhou. Sem ele, não haveria Doutor Jivago no imaginário de tanta gente que amou e ama este filme no mundo inteiro.

Eu, inclusive.






domingo, janeiro 03, 2016

Chuva que o vento leva e a canção traz


O  cartaz original do filme

Pois quem haveria de imaginar o que uma simples noite de sábado, passado o Natal e virado o Ano Novo, poderia trazer de surpreendente, de inesperado, para bafejar de alegria a madrugada que mal começava a se anunciar?

Tenho o hábito de visitar as novelinhas globais que chegam com o fim da tarde. Além do tempo, a das seis, me encanta. Além da luxuosa Irene Ravache encabeçando o elenco, é espiritualista e recheada de histórias que atravessam vidas. Já Totalmente demais, a das sete, traveste o conto de Pigmalião imortalizado por Bernard Shaw com os artifícios do mundo fashion – o que, além de repetitivo, pode ser cansativo também. Bocejos. A regra do jogo, a das nove, encapsulada entre dois telejornais, leva o mau-caratismo às últimas e quase insuportáveis consequências. Renego, me coço na cadeira, arremesso meus silêncios na direção do controle remoto.

Quando a marca do humorístico Zorra Total aparece para assombrar a telinha, agarro-me à deixa e deslizo entre os canais abertos, talvez em busca de algum episódio de “Um pé de quê” esquecido na programação. Afinal, aprender sobre árvores centenárias é bem mais edificante e afim com a minha alma. Para meu espanto, porém, deparo-me com um programa chamado Cine Conhecimento, no Canal Futura, e pego carona no bonde que já anda: uma conversa interessantíssima da apresentadora Lorena Calábria com o crítico Pablo Villaça. Bendigo a feliz coincidência que me diz que a hora é de plantar filmes, não árvores. Em seguida – suprema felicidade! – a apresentadora anuncia a exibição de Cantando na Chuva.

Isso mesmo. Paro de respirar imediatamente. Há chuva, sim, na minha janela, mas a alma festeja e grita. Mal acredito. O meu sábado, na verdade, começa agora.

Da tela, telinha ou telão, jorram toda aquela alegria juvenil, o encantamento, o arrebatamento e o êxtase que Cantando na Chuva inevitavelmente desperta. E não é saudade ou nostalgia o que me move agora: é a doce, tola e gostosa sensação de primeira vez, de descobrir de novo cada momento, cada gesto e a exuberância sempre inovadora da dança e da música nos pés e nas vozes dos queridos mestres Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds. Kelly, um gentleman, soberbo; O’Connor, a versatilidade em pessoa; Reynolds, quase uma menina, gloriosa em sua ternura.

Donald O'Connor, Debbie Reynolds e Gene Kelly

Muita gente já falou e escreveu sobre cada uma das múltiplas facetas de Cantando na Chuva. Muitos especialistas já discutiram a genialidade, a técnica, o estilo, a dança, a coreografia. Tantos outros já contaram todas as fofocas e curiosidades do filme, sob todos os ângulos possíveis. Eu, aqui da minha poltrona, apenas sinto. Sou levada por essa inundação de beleza, de poética, de mestria na dança, de emoção na garganta. E vou me impregnando, mais uma vez, de tudo que é novo, atual e fresco nessa história que funde todas as épocas em uma.

Este hino de amor ao cinema, esta fábula centrada na transição da cena muda para o reinado do som, penetra fundo na alma de quem, como eu, jamais sairá da sala escura. Tenho, sim, um clone nesse universo de magia, ao qual sempre recorro para que essa arte, a sétima senão a primeira, continuamente me salve.

Já na abertura, o contraste entre o visual de glamour e os percalços que todo artista passa para seguir o seu coração e materializar seus sonhos, retratado no percurso em flashback do personagem principal, Don Lockwood, dá a exata medida desse duplo etérico de que é feito o artista. Mesmo no topo do mundo, sabe que está ali a serviço de algo maior que ele próprio: provocar no outro um sentimento, uma emoção, uma conexão qualquer com um mundo diferente, intangível, e que só ele, naquele momento preciso, pode tornar acessível a quem o vê e percebe.

Donald O'Connor e Gene Kelly no flashback

Tudo em Cantando na Chuva é parte de uma viagem fascinante que nenhum outro musical proporciona a nós, passageiros de sua magia. Falo de todas as referências ao mundo de glamour e fantasia, às célebres Follies do teatro de revista, ao vaudeville e à estética do cinema mudo - mas sobretudo à dança, que se revelou de múltiplas formas e atingiu sua máxima expressão nas produções da era de ouro do cinema. Não há como negar o fascínio exercido por Fred Astaire, Ginger Rogers, pela exuberante Cyd Charisse – por sinal, presença mais que marcante no filme -, pela dupla dinâmica Frank Sinatra e Dean Martin, pela rainha do nado sincronizado Esther Williams e tantos outros bailarinos fenomenais. No auge de sua forma e versatilidade, Gene Kelly coloca todo seu talento a serviço da maior homenagem de todos os tempos a todos os artistas que fizeram do tap dance e do jazz, em suas variadas formas, as grandes estrelas de uma cinematografia que marcou, definitivamente, a vida de várias gerações mundo afora.

Por obra e graça do mais que genial coreógrafo Stanley Donen, que co-dirige o filme ao lado de Kelly, Cantando na Chuva mudou tudo no cinema. Delicadeza, ousadia, charme, finesse, criatividade... nenhum elogio seria suficiente para definir o conjunto de transformações que se conseguiu operar, na cena da dança, em um só filme. Os grandes conjuntos das Follies Girls, com figurinos primorosos, são presentes que a gente ganha a cada segundo.  Os trios, os solos, o grande momento de O’Connor com a boneca no sofá, as cenas dançadas no flashback, a apoteose da Broadway – enfim, uma sucessão de alegrias orquestradas com precisão, que colorem a história com poesia e ternura. A gente flui com o filme. Cada um conquista, à sua maneira, o próprio sapato com chapinha, o salto alto inimaginável de Cyd Charisse, mergulha no pas-de-deux praticamente clássico do sonho de Lockwood, envolto na mais poética (e quilométrica) écharpe ao vento da história, canta no coro de Gotta Dance!... Não é possível passar imune por Cantando na Chuva, nem mesmo pela enésima vez.

Do meu latifúndio no sofá à poltrona do Cine Riviera, que me apresentou ao filme ainda na infância, fico só imaginando o assombro estampado nos rostos das primeiras plateias americanas, na época da estreia do filme. Coloco uma câmera imaginária na frente desses rostos e vejo o espanto se transformar, nos olhos de cada espectador, em riso, em lágrima, em angústia, em euforia – para voltar a ser espanto, assombro, incredulidade e, no final, rendição incondicional ao talento que materializou algo tão único e irrepetível como Cantando na Chuva.

Na cena clássica em que Gene Kelly literalmente canta na chuva, sozinho, foi preciso – segundo uma das lendas que cercam o filme – misturar leite à água para dar mais brilho à chuva produzida no estúdio. Questões íntimas e insondáveis das lentes e da luz. Para nós, porém – sobretudo para mim, que neste momento não consigo e nem tento controlar minha emoção – nada disso importa. Vejo apenas o que a alma canta, o que a dança no corpo evoca, o que a chuva lava e purifica – e o que este grande artista nos oferece, para sempre gravado no celulóide, na cópia digital, no DVD, no blue-ray e no coração.


Muito boa noite, chuva na minha janela. Muito boa noite, inesquecível sábado, dois de janeiro de 2016. Muito boa noite, inesquecível Cantando na Chuva.

Gene Kelly

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Marudhi

Erick Gutierrez como o Fauno Guardião
Foto: Paulo Barbuto

"Que eu tenha, hoje e a cada dia,
a força dos Céus,
a luz do Sol, 
o resplendor do Fogo,
o brilho da Lua,
a presteza do Vento, 
a profundidade do Mar, 
a estabilidade da Terra, 
a firmeza da Rocha.
Que assim seja! E assim se faça!"


A citação acima me chamou logo a atenção no programa do espetáculo Marudhi, que marcou o encerramento do ano da Company Ballet de São Paulo, no Teatro Alfa, nos dias 5 e 6 de dezembro. Uma pesquisa me revelou ser na verdade uma oração celta, muito antiga, dedicada à Grande Mãe, ou seja, à Natureza.

Esta pequena sutileza, com menção aos elementos, instigou ainda mais minha expectativa em relação ao enredo que estava por se desenrolar no palco - recheado de elementos mágicos, seres da natureza e mesmo iniciações, numa aura de espiritualidade que envolvia o bem, o mal e as escolhas de cada um em sua jornada pessoal.

O Fogo Sagrado, alimentado pela energia das Fadas e dos seres de luz no coração de uma imaginária (ou não) Floresta de Cogumelos Gigantes, ilumina toda a vida do lugar e de seus míticos habitantes, sempre guardado pelo fiel Fauno. Mas o Mundo da Escuridão, que almeja a Luz, ameaça toda essa tranquilidade: o Senhor das Trevas comanda uma invasão que afasta o Fauno Guardião, aterroriza os habitantes, rouba o Fogo Sagrado e faz a Floresta mergulhar numa escuridão que parece cada vez mais irremediável. 
Haverá salvação?

A Floresta de Cogumelos Gigantes 
Foto: Paulo Barbuto

A cortina se abre e nos convida à Floresta. O cenário de sonho, o impacto da música e a iluminação etérea fariam inveja a muitas produções de anos recentes, até mesmo do Theatro Municipal do Rio e do Theatro São Pedro, de São Paulo. 

A essa altura, já me transportei: decerto faço parte de alguma das tribos que habitam aquele universo. É como se estivesse justamente ali, participando e observando a Floresta de um ângulo menos, digamos, destacado. Acabo de anular, intuitivamente, os limites da caixa cênica.

Diante do Fogo, o Fauno (Erick Gutierrez) é uma presença que marcará todo o espetáculo e que, já no primeiro instante em que aparece, dá o tom da dramaticidade e da poética que veremos em cena. É ele que, com sua natureza humana e animal, sua alma simples e grandiosa, vai costurar todas as páginas da história concebida por Márcia B. T. Leite, diretora geral da Company Ballet. 

O Fauno guarda o Fogo 
Foto: Paulo Barbuto

A vida na clareira onde brilha o Fogo Sagrado é de uma perfeição e de uma alegria que nos fazem viajar na ilusão de algum paraíso feito apenas de verdade e beleza, onde criaturas de todos os tipos convivem em harmonia e festejam as bênçãos da Natureza, sem qualquer preocupação. Quem é que não sonha com uma vida assim?

Após a celebração do Fogo, as criaturas da Floresta dançam e comemoram, uma após outra. Nada mais bonito para apresentar os alunos da escola no que têm de melhor: a dança em todo seu entusiasmo. O grupo dos Elfos das Fitas, habilmente coreografado por Erick Gutierrez, traz à cena o estilo irlandês de sapateado. Uma festa à qual o Fauno se junta, exultante, esbanjando energia e construindo uma mágica particular. Não faltaram flores, muitas flores, e um carramanchão de fitas que transformou o palco num autêntico Festival da Flora, tal como seria celebrado nas tradições dos povos mais antigos.

Os Elfos das Fitas 
Foto: Thamilou

Sem que o ritmo da cena se altere, sucedem-se no palco vários grupos de ballet clássico, do adulto ao baby: Ninfas da Floresta, Delphines (flores das Fadas), Rubi, Mirra, novamente as Fadas, Libélulas... 

Muda o estilo, mas não a magia: entram os Gnomos do sapateado, coreografados por Andrea Pito e Erick Gutierrez. Mais uma vez o Fauno literalmente atravessa a cena, com seu enorme arco, alegrando e envolvendo os pequenos. Pixies, Naiades e Leprechauns são embalados pelo jazz e realçam o clima contagiante. 

Mas logo tudo se acalma, para contrabalançar: o palco é tomado por uma nova e delicada onda de clássico. Joaninhas, Fadas-Íris, Nixies, Fadas, Violetas, todas com figurinos de excelente gosto e de todas as cores. Mas o nosso incansável Fauno se prepara, mais uma vez, para agitar o pedaço ao lado dos Elfos das Fitas, que retornam numa coreografia arrebatadora, potente, com trilha fortemente marcada e sonoridade inesperada. 

Vale ressaltar, aqui, um aspecto extremamente virtuoso de Erick Gutierrez na criação de seu personagem. O Fauno jamais descansa; observa o tempo todo, antecipa situações e reações, protege o Fogo e também os seres da floresta. O mais interessante é que o ator e bailarino demonstra um entendimento da natureza do Fauno que vai muito além de sua simples encarnação: toda a movimentação cênica - inspirada, segundo revelou, no mítico bailarino russo Vaslav Nijinsky, intérprete e criador do célebre ballet L'après-midi d'un Faune - dá conta, de forma no mínimo espantosa, de uma dualidade essencial, intrínseca, desse misterioso ser. Meio bicho, meio gente, o Fauno tem atitudes extremamente humanas, aprisionadas porém num corpo que nem sempre o deixa se expressar como desejaria. Em sua inocência e também em sua sagacidade, que muitas vezes salva as situações, o Fauno de Erick Gutierrez é simplesmente irresistível.

Erick Gutierrez na pele do Fauno Guardião
Foto: Paulo Barbuto

Infelizmente, um grupo de Sílfides é vítima da fúria do Senhor das Trevas (Luciano Guia, em impressionante caracterização e atuação), que resolve acabar com a festa justamente no momento em que elas celebram o Fogo. Em vão o Fauno, as Fadas e outros seres tentam defender a Floresta. Um a um, os grupos que seguem o Senhor das Trevas ocupam o espaço e expressam sua visão de mundo: Djinns e Duendes em excepcionais coreografias de street dance, Goblins arrasando no sapateado, Salamandras no contemporâneo, Harpias e Anjos Caídos no street, Trolls no jazz adulto...  

Mas há quem comece a refletir sobre tantas transformações, já que o Fogo Sagrado se anuvia mais e mais, próximo da extinção. Começam a se anunciar as guerras internas no ambiente trevoso. E os Feiticeiros da Floresta resolvem se unir para enfrentar o Senhor das Trevas, honrando uma anunciada profecia: "Se Fogo é o que queres, no Fogo morrerás." É hora da inevitável disputa entre o Bem e o Mal.

Luciano Guia, o Senhor das Trevas
Foto: Paulo Barbuto

Pouco a pouco, a Luz ressurge das cinzas, a partir da ação regeneradora das Fadas sobre o Fogo Sagrado, e se estabelece o Círculo Mágico da Purificação, que traz de volta os seres de luz, movidos por vários ritmos e estilos: o sapateado, o clássico, o neoclássico. Elfos, Fadas, Feiticeiros e muitos outros seres celebram o retorno da harmonia e da paz ao seio da Floresta, numa grande festa de fitas, flores e muita alegria.

Apoteose: o triunfo do Bem
Foto: Paulo Barbuto

Depois de derramado o doce suor da arte, eram evidentes a alegria e o envolvimento de todos no espetáculo, desde o elenco até a produção. Além do alto nível técnico, percebe-se que há forças maiores em ação: o entusiasmo, a vontade, a fé. Esses atributos em conjunto, aliados a uma consistente pesquisa e ao apuro em todos os aspectos, fizeram de Marudhi um espetáculo memorável, do qual todos podem e devem se orgulhar. E que deveria - por que não? - ser apresentado outras vezes. Claro que, se isso não acontecer, é compreensível, já que envolve uma multidão de gente. Ainda assim, penso que pelo menos trechos dele devam ser reapresentados em festivais e eventos de dança, para que mais pessoas possam apreciar, se alegrar e se inspirar.

Marudhi me emocionou, me deixou leve e feliz. É bom ver que a qualidade e os valores essenciais fazem parte do projeto de uma escola de dança. O vídeo que explicou o empenho em envolver bailarinos e famílias no espírito da obra a ser dançada, com o apoio de uma contadora de histórias, completou esse entendimento. Isso é de muita valia para a formação de tantos jovens artistas, já que faz a conexão entre técnica e sentimento - algo indispensável para que a arte possa de fato acontecer em uma pessoa, de dentro para fora.

Até me deu vontade de ir ao Face, aonde quase todo mundo está, e curtir a página da escola. Um ótimo exemplo de competência e de capacidade de voar acima do banal e do comum, para plantar sementes inestimáveis na vida dos artistas de todas as idades que pisaram o palco em Marudhi

Toda a Floresta comemora a paz
Foto: Paulo Barbuto

segunda-feira, novembro 17, 2014

Um cisne

Vejo neste momento a estrela maior do lendário Ballet do Teatro Mariinsky envergar, em pele e penas, um cisne que morre.
Atravessa-me a melodia de Saint-Säens, tão familiar, e mergulho na agonia que se avizinha, em meio ao mais absoluto e irrespirável silêncio. Quebrado apenas pelo farfalhar dos braços-asas que golpeiam debilmente os intervalos musicais, na esperança de, talvez, reter o último sopro de vida.
Estendo, na alma, este breve e comovente instante de beleza; enveredo por uma dobra no tempo e visito os cisnes que perduram dentro de mim. Mudo eu mesma o cenário, a música, o coreógrafo e, em segundos, estou em pleno Lago dos Cisnes, ao som de Tchaikovsky. Admito que posso estar sugestionada pelo pas-de-deux que virá na sequência, mas não, decerto que não, a cena é outra.
Revejo, entre névoas, um cisne branco que, a despeito da leveza aparente, guarda o mundo dentro de si. No primeiro ato do ballet, debate-se entre o enlevo e a tristeza, preso a um encanto irremediável. No rosto quase juvenil, o sofrimento é cortante e me arrebata. Já não consigo caber em minha cadeira; temo que a tenha feito ranger, gafe imperdoável. A música arremete contra o pobre animal feminino e indefeso, incapaz de vencer sozinho o destino que lhe oferece e, ao mesmo tempo, afasta o amor. Como romper aquele corpo que o encarcera e seguir o coração? A agonia do cisne-mulher é também minha. A eloquência da bailarina em expressar, de corpo inteiro, toda aquela dualidade e impotência, me toma por completo. Perco fácil a noção elementar dos limites entre caixa cênica e plateia. E vou junto, nas mesmas águas revoltas, com o coração na garganta. Em raros momentos de lucidez, percebo-me de novo plateia, de olhos grudados naquele cisne imenso e atormentado, e penso, na mais completa ignorância dos próximos passos do enredo, que a intérprete certamente vai explodir a qualquer momento, tamanha a força das emoções que transmite em intenção e gesto. Tudo aquilo é de uma beleza que me transtorna, e eu não consigo entender direito por que.
De volta ao agora, percebo que o pas-de-deux do cisne branco já começou. Mas não posso ficar aqui, tenho de seguir o "meu" cisne para ver o que vai acontecer.
Dá-se, então, a explosão que eu pressentira. O cisne negro, com o dedo em riste e olhar firme, inunda o palco com todas as emoções antes represadas por seu duplo, o cisne branco. E a mesma bailarina já é outra, altiva, imponente, dominadora. Estranhamente, dentro de mim tudo parece se encaixar. Acompanho a beleza dos seus movimentos, senhora do seu espaço e perfeita no conjunto. Respiro fundo, em estado de graça.
Redesperto no agora, bem a tempo de aplaudir os bailarinos russos, ao final do pas-de-deux do cisne branco. Acho que vir aqui hoje, afinal, não passou de um pretexto para essa inesperada viagem pela memória que me coloca, de novo, diante do cisne que, um dia, conquistou a tabula rasa que eu era, em termos de ballet, e me lançou nos trilhos dessa apaixonante forma de arte.
Hoje, no agora, agradeço a Ulyana Lopatkina pela memorável Morte do Cisne, e a Kristina Shapran e Timur Askerov, pelo perfeito Adagio branco de O Lago dos Cisnes.
E sempre, no coração da memória, agradeço a você, Cristina Martinelli, por ter colocado na minha vida a mais perfeita encarnação dos maiores cisnes da história do ballet.


Cristina Martinelli 
Foto: Richard Sasso
Acervo da artista

segunda-feira, outubro 27, 2014

FIDA 21 - Direto de Portugal, a dança em máximo quilate

Filipa de Castro e Carlos Pinillos
Foto: Divulgação CNB - Portugal

Por Maurette Brandt

Filipa de Castro e Carlos Pinillos são bailarinos principais da Companhia Nacional de Bailados de Lisboa, Portugal. Os dois estiveram em Belém pela primeira vez como atrações internacionais do FIDA 21. Simpáticos, acessíveis e super profissionais, integraram-se logo ao grupo de artistas e convidados. No trabalho, muita disciplina e concentração.
No palco, um choque de felicidade, para dizer o mínimo.
A primeira apresentação da dupla aconteceu na quinta-feira, 23, e tirou o fôlego da plateia logo de cara. Vent, coreografia de Carlos Pinillos para música original de Mário Franco, também artista da CNB, trata das constantes explosões que acontecem na superfície do Sol, em pequenas crateras que os cientistas batizaram com o nome de vent. Bem, isto me explicou Carlos Pinillo após a apresentação, lançando ainda mais luz sobre o primoroso trabalho. A concepção original projeta, no ciclorama, imagens das próprias explosões, amplificando o efeito já eletrizante da coreografia absolutamente precisa, de movimentos habilmente articulados e exaustivamente pesquisados. Infelizmente não foi possível usar a projeção no Theatro da Paz, onde o fundo negro e o ciclorama se alternaram, mas ainda assim o impacto foi muito forte.
Nada é comum em Vent. Cada movimento se acopla à música de maneira quase simbiótica e conduz a uma série de pequenos clímax que vão precipitando o espectador numa jornada quase compulsiva. A gente não sabe direito o que nos move além da própria beleza do traçado coreográfico, mas é impossível nos desgarrarmos dos dois, absolutamente sincrônicos, intérpretes até a medula, perfeitos tecnicamente. E não há qualquer distinção entre Filipa e Carlos: os dois são grandes artistas, carismáticos e de uma limpeza técnica invejável, além da química perfeita em cena. O figurino despojado, em tons escuros e transparência sobre matizes alaranjados, cabe perfeitamente no contexto. 
Vent é um trabalho habilmente lapidado e depurado, que demonstra ser possível produzir-se algo novo, e com muita beleza, na área do movimento. Fiquei completamente sem ar. E tenho certeza de que a plateia do FIDA também se extasiou, pois ninguém queria deixar Filipa e Carlos saírem do palco: os aplausos foram muitos e bem compridos.
Sorte nossa que ainda iríamos vê-los em cena mais duas vezes.

Dom Quixote

Engraçado, depois de ver um trabalho absolutamente especial como Vent, que honestamente não sei enquadrar em um estilo definido, foi surpreendente e renovador assistir ao grand pas-de-deux de Dom Quixote, interpretado por Filipa e Carlos. Com toda sinceridade, foi o mais perfeito que já tive a oportunidade de assistir, em todos esses anos. Mas a perfeição não é o ingrediente principal da interpretação dos artistas: a intensidade, o estilo, a coqueteria e o glamour fizeram toda a diferença. Filipa de Castro é uma Kitry sem afetação, senhora de si, coquete e muito elegante, enquanto Carlos, na pele de Basilio, exibe porte, categoria e uma certa ternura.  Irretocáveis nas variações, os bailarinos nos devolvem a um tempo de verdadeiro glamour no ballet, com movimentos grandes, presença cênica e uma ocupação excepcional do palco. Sem nada de novo, tudo é novo, fresco e nunca visto no Dom Quixote de Filipa de Castro e Carlos Pinillos no palco do magnífico Theatro da Paz. Os aplausos retumbantes do público estão nos meus ouvidos até agora.

FIDA 21: muito para lembrar

Comecei, muito animada, a postar o dia a dia do FIDA 21 neste blog, mas o Festival foi tão absorvente que simplesmente não consegui voltar todos os dias ao computador para registrar as emoções da noite anterior.
De volta à terra aparentemente firme do dia a dia, trago para cá a memória recente, as histórias e os melhores momentos que o FIDA 21 deixou no coração.

Aniela Kalif, entre a dança e a prancheta

Conheci Aniela em 2003. Na época já era bailarina da Cia. de Danças Clara Pinto, ainda do grupo "das novinhas", como era chamado carinhosamente. Disciplinada nos ensaios e nas apresentações, Aniela marcava uma presença forte e promissora que foi se confirmando ano após ano. Mas as demandas dos estudos naturalmente vieram junto e sua vida foi se transformando. - Tem uma hora que a gente tem que escolher - conta. - Infelizmente ainda não dá pra se viver da dança, então fui pra faculdade.
Aniela escolheu a Arquitetura como profissão e foi conciliando como podia os estudos e a carreira de bailarina. - Quando não deu mais resolvi ficar só na escola mesmo - explica Aniela, que acaba de começar um mestrado e tem muitos projetos em andamento. Assinou o projeto da loja Grand Jété, que funciona na Escola de Danças Clara Pinto da Travessa Dr. Moraes, assim como a reforma dos vestiários e, mais recentemente, renovou totalmente a sala de espera da escola.
No FIDA 21, Aniela integrou, como convidada, a Cia. de Danças Clara Pinto e brilhou em coreografias de Marcelo Pereira e Adriana Villela. Em forma, com a paixão e a profissão bem conciliadas, Aniela é só sorrisos e simpatia.  Essa disciplina toda vem de berço: Aniela é uma das "filhinhas de peixe" da Escola Clara Pinto: a mãe, Paula Kalif, é experiente professora e ensaiadora da Escola e já atuou, como bailarina, em vários balés da companhia.

 A BON DANCE, uma surpresa

Uma das boas surpresas do FIDA 21 foi o grupo A BON DANCE, da Guiana Francesa. Com bailarinos experientes e talentosos, coreografias inspiradas e bom gosto, o grupo arrebatou prêmios, aplausos e elogios.Os bailarinos Lory Faubert, Lubna Khodr, Yannick Coco e Christophe Aucourd, coreografados por Priscilla Faubert, trouxeram ao FIDA um trabalho refinado, intenso e elegante. Dentre as obras apresentadas, as coreografias Fléaux, apresentada no dia 23, e Variante, no dia 25, foram destaque pela consistência e força. O público adorou. Os bailarinos participaram das competições de solos e duos com grande sucesso. Bravo!

Cia. Nataraja, como sempre, uma beleza

Nataraja é uma das dimensões do deus indiano Shiva e significa "o senhor da dança", conforme me explicou Marieta Hamsá, líder da Cia. de Dança Nataraja, de Belém. Esse grupo me conquistou desde o meu primeiro FIDA: o trabalho é devocional e muito artístico, repleto de detalhes, com música ao vivo, bailarinos talentosíssimos e uma consistência incrível. No FIDA 21, apresentaram Kryta Yuga - A Era da Luz, coreografia da própria Marieta. Lindos trajes, esmero na maquiagem e nos cabelos, coreografia delicadíssima, acompanhada por um excelente bailarino-músico, na flauta. Ver a Cia. Nataraja em cena é sempre uma alegria e um momento de elevação!

No próximo post falarei mais dos convidados deste ano, que arrebentaram a boca do balão, para dizer o mínimo.


quarta-feira, outubro 22, 2014

FIDA 21: Valores da Terra cada vez melhores

Sou FIDA de carteirinha desde 2003 - e me orgulho disso.
Cheguei a Belém e a esse festival incrível pelas mãos de Fábio de Mello, em seu primeiro ano como diretor artístico do evento. Assim conheci Clara Pinto e sua verdadeira saga para criar um fluxo regular e anual de apresentações de dança para Belém. O FIDA já recebeu alguns dos maiores artistas do Brasil e do mundo, além de professores que trazem na bagagem o que há de mais atual em termos de técnica e interpretação, proporcionando uma troca saudável e positiva, que se traduz em crescimento para os artistas da terra e para os que chegam.
Ontem, na estreia do FIDA 21 - sim, são 21 anos de dança e arte em Belém, sim,senhores - tive o prazer de participar do júri de um prêmio que me é muito querido, o "Valores da Terra", destinado aos grupos do Pará. Nesses vários anos é palpável o crescimento desses artistas, que se atualizaram e vêm construindo um trabalho consistente e rico, sem perder de vista os valores culturais locais, mas agregando a modernidade e a evolução. Neoclássico, gospel, contemporâneo, dança do ventre, rap, dança-teatro, folclore... vários estilos ocuparam o palco com força, talento e vontade. Gente, vontade faz toda a diferença quando se trata de driblar as dificuldades e fazer a dança acontecer.
Ontem, no FIDA, foi uma alegria ver grupos como o Dançart,de Marituba, apresentar criações absolutamente modernas, vivas, com forte conteúdo de pesquisa e uma busca genuína por inovar e expandir o talento de seus componentes. O mesmo vale para o grupo Ribalta, de Ananindeua, com a obra "Confissões": pesquisa, inovação, uso criativo do espaço, dos figurinos e dos próprios corpos dos bailarinos como elementos cênicos. "Windos", do Grupo Dança e Arte, foi uma inovadora surpresa no fértil terreno do rap, hip-hop, passinho... sei lá, de tudo um pouco. Satirizando a tecnologia e ao mesmo tempo reconhecendo seu papel essencial na vida de hoje, a coreografia iluminou com alegria o palco, com bailarinos de excelente técnica e grande vivacidade. Um grande sopro de vento novo. Mas as surpresas não pararam por aí: o grupo Free Dance, de Belém, trouxe ainda mais novidade e alegria para "desconstruir" o espaço do palco com graça e talento, numa grande homenagem à arte da mímica. O figurino recriava com humor e delicadeza o personagem Carlitos, de Charlie Chaplin, mas evocava Marcel Marceaux e outros grandes artistas que transformaram o mundo num lugar melhor com sua reinterpretação do ser humano comum. Em suma, a dança cresce no Pará - e o FIDA é sem dúvida a grande vitrine para se ver isso tudo.
Destaque para a emoção sempre renovada de ver a Cia. Palavras em Movimento, de Soure, para provar que dançar é algo que está no espírito e se transfere para o corpo com alegria e beleza, em qualquer época da vida. Parabéns à turma de Soure, que sempre nos traz o folclore paraense com emoção e beleza! Presença obrigatória e imperdível!

Convidados emocionam

Este ano, Carlinhos de Jesus e Vanessa Nascimento resolveram dançar na plateia. Ninguém esperava, mas todo mundo adorou. Os bailarinos fizeram seus próprios caminhos entre as cadeiras, num verdadeiro baile dedicado a homenagear quem estava sentado. Houve de tudo: beijos, suspiros e até Carlinhos no colo de uma sorridente senhora. Grande carinho dos artistas para com o público de Belém, recebido com alegria e muitos aplausos.

Cícero Gomes e Karen Mesquita, primeiros bailarinos da geração recente do Municipal do Rio, estão entre os artistas mais brilhantes do momento. Técnica, rigor, profissionalismo e a chama viva do talento são marcas dos dois excelentes bailarinos, que fizeram o palco do Theatro da Paz "arder" com o grand pas-de-deux de Chamas de Paris. Cícero, o vigor em pessoa, eletrizou a plateia com seus célebres saltos e uma postura em cena que o coloca em igualdade absoluta de condições com os maiores artistas do ballet em nível mundial. Karen Mesquita, com uma presença cênica arrebatadora e técnica impecável, não fica atrás: a química entre os dois é inegável e contagiante. Essa geração jovem do ballet brasileiro sem dúvida merecia e merece dançar muito, dançar mais, e realizar-se num arte que fazem tão bem, com tanto despojamento e gosto. É a verdade da arte, algo que não pode morrer sufocada por rotinas ou regras. Em suma, bailarino tem mais é que dançar, como Cícero e Karen fazem como ninguém. Bravo pra eles!  Mas o FIDA continua e os dois dançam ainda hoje, amanhã e no sábado. Quem quiser, verá.

Um só nome, dois talentos diante da Graça

Fábio de Mello é um poeta do movimento e da luz: coreógrafo sensível, é capaz de extrair de um artista forças insuspeitadas até mesmo pelo próprio artista. De cultura imensa, consegue buscar em seu manancial interno as maiores delicadezas para transformar em dança, em som, em memória musical, em luz de estarrecedora beleza. Seja no ballet, na ópera, no carnaval, no cinema ou na vida, Fábio de Mello transforma em amor e beleza tudo que toca.

Fábio de Melo é um padre jovem, alegre, descontraído, filho de sua geração. Com simpatia e uma sabedoria invulgar para sua idade, consegue atrair um imenso fluxo de pessoas para uma espiritualidade sadia, solta, humanista. Sua voz bonita e sua atitude humilde, sincera e despojada conquistam os corações sem esforço. Pela arte e pelo amor, inspira e encaminha pessoas para que se voltem para dentro e tenham, cada uma, o seu encontro particular com o Deus que as habita.

Um único nome para duas pessoas tocadas pela Graça Divina, cada um à sua maneira. Se Fábio de Melo, o padre, escolheu o sacerdócio como caminho para expressão de sua arte e de sua fé, Fábio de Mello, o coreógrafo, escolheu a arte, ou foi escolhido por ela, para criar belezas que são, em essência, manifestações de fé e delicadeza - de fé no talento humano e em sua capacidade de manifestar a graça de muitas formas.

O padre e o coreógrafo acabam de se encontrar, no plano da poesia, em uma obra de arte: o ballet "A fé de um povo", criação coletiva da Companhia de Danças Clara Pinto, de Belém/PA, e de Fábio de Mello. O espetáculo, que faz parte do projeto Resgate da Cultura Paraense, criado pela bailarina, coreógrafa e professora Clara Pinto, estreou ontem, 21 de outubro, na abertura do XXI Festival Internacional de Dança da Amazônia - FIDA, iniciado por Clara Pinto em 1994.

"A fé de um povo" homenageia o Círio de Nazaré, marco da cultura religiosa em nosso país. Quem não ouviu falar na corda, nos pagadores de promessas, e do carinho do povo paraense por "Nazinha" - ou seja, Nossa Senhora de Nazaré, a grande Mãe de todos?  Para recriar esse indescritível momento de fé, os coreógrafos escolheram canções populares que moram no coração de todos. Na voz de Fafá de Belém, "Eu sou de lá" e a "Ave Maria" imortalizada por Dalva de Oliveira. E na voz do Padre Fábio de Melo, "Círio outra vez", de sua autoria. Para completar, a força avassaladora da música de Vangelis para o filme "A Missão".

Fábio de Mello, o coreógrafo, num ato de fé na arte - que é sua profissão de vida - adornou com sua iluminação e arremates coreográficos a canção de Fábio de Melo, o padre, criando climas e ternuras especiais para transformar "A fé de um povo" numa espécie de oração plástica, com a qual comungamos, extasiados e felizes. Os coreógrafos Clara Pinto, Welton Bezerra, Valdir Fernandes e Fábio de Mello mergulharam fundo no sentimento do povo paraense e retrataram a devoção à Virgem, a corda, a esperança e a dor com movimentos marcantes e suaves, alternando força e contemplação, angústia e fé, até a redenção final pela Graça. A mesma Graça que tocou ao nascer e toca, até hoje, os talentosos Fábios de Mello que, cada um com seus talentos e dons, se cruzaram no espaço do sagrado e se tornaram parte da criação de uma bela e singular obra de arte.