Domingo, Outubro 04, 2009

Drume, Negrita

O rosto da dor: fãs se despedem de Mercedes Sosa em Buenos Aires (foto Reuters)

No dia 29 de novembro de 2008, postei aqui minha alegria, o êxtase de estar em presença da voz, do amor e da força de Mercedes Sosa. Hoje, que a perdemos, um bumbo imaginário, irmão gêmeo daquele que ela carregava para nos exortar a fazer a nossa parte pela América Latina, ressoa num canto fúnebre, marcante e compassado como as pausas de uma procissão.
A Negra que tanto amamos deixou o corpo que há algum tempo lhe pesava e seguiu em frente com seu canto, o canto que ela transformou no nosso sangue, para além das cordilheiras. Para além de qualquer tempo, de qualquer limite, de qualquer fronteira. Com a mesma fé criança com que sempre amou o seu povo, todos os povos, todo aquele que, onde quer que fosse, estivesse privado da sua liberdade, da sua cultura e de seus direitos essenciais.
É esse o povo que mereceu seus melhores momentos, seus mais tonitruantes e libertários acordes. Mercedes pintada para a guerra, índia, mulher e espírito da vida, era o retrato da paz que todos almejávamos. Era o resistir em figura de gente. Mercedes resumia todas as alquimias, todos os ritos xamânicos, toda a nossa alma ancestral entranhada na terra. E o meu amor por ela não tinha limites; na sua voz cruzei o continente, atravessei todos os rios, vivi emocionada as misérias e beleza da nossa América Latina tão aviltada. Mercedes era a certeza de que podíamos ser como queríamos ser, todos latinos, todos hermanos, todos iguais.
Mercedes habita em mim muito além dos poucos momentos em que tive a sorte de vê-la cantar. Está nas veias e canta. Gracias a la vida, que me ha dado tanto. Y vas Alfonsina con su soledad... Lá está Mercedes com seu poncho listrado, os escorridos cabelos e aquele olhar de índio, que ao apertar ligeiramente os olhos parece já ter enxergado o universo inteiro. Aquela fortaleza diante de quem todos, sem exceção, se emocionavam. Lá está ela com seu bumbo, com sua revolta e alegria, com seu amor infinito, ecoando pela cordilheira, atravessando o nosso corpo para espalhar verdade e poesia. Para arrastar consigo milhares de adeptos de uma paz possível, de um amor que rejeita toda e qualquer xenofobia e nos reúne a todos numa raiz celebrada e verdadeira, em que cada ser diferente é respeitado e se torna um igual na voz do sangue latino.
Em novembro de 2008 eu estava exultante por tê-la visto, ainda que doente e inspirando cuidados. Hoje eu a revejo no filme dos últimos 30 e tantos anos, como um grande anjo revelador que guiou aspectos muito importantes da minha vida.
As cinzas dessa nobre mulher de largo abraço e infinita voz, que será cremada amanhã, vão ser repartidas entre a Chacarita onde nasceu, Mendoza e Buenos Aires. O seu canto, porém, tem o dom da ubiqüidade e se espalhará mais uma vez pelo mundo e nos dirá, mais uma vez, o quanto é importante fazer o caminho da paz, da fraternidade e da alegria de ter o próximo como irmão.
Drume, Negrita, no centro da paz que você plantou neste mundo.

Domingo, Agosto 23, 2009

À Motown, com carinho




Viver a década de 1970, com seu colorido e contradições, foi um privilégio para mim. Com meus 14, 15 anos, adorava usar sandálias trançadas na perna, os ousados verde-limão, rosa-choque e laranjão que coloriam as roupas, o psicodelismo em todas as imagens, caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento. Se havia um lado triste - a repressão indiscriminada, o obscurantismo e seus efeitos desastrosos na educação do nosso povo, a perda de grandes talentos brasileiros nas mãos de um monstruoso aparelho repressivo -, havia um lado adolescente legítimo, que era vivido irremediavelmente. E isso incluía as "brincadeiras" (pequenos bailes que acabavam por volta da meia-noite) no Cana Esporte Clube, em minha Barra Mansa natal, os Festivais da Canção que revelaram tantos talentos preciosos... e os artistas da Motown.
Ainda tenho vários compactos simples e duplos da gravadora que revelou alguns dos maiores talentos negros da América: Diana Ross, Michael Jackson, Marvin Gaye... Por isso foi um prazer muito grande assistir ao espetáculo O som da Motown, idealizado por Renato Vieira e Cláudio Figueira.
A concepção é inusitada: cinco cantoras representam todos os artistas da Motown, revezando-se em figurinos e gêneros, numa sucessão bem organizada e profundamente representativa dos tempos de ouro da gravadora. E que cantoras! Mais que isso: que boas atrizes! Simone Centurione, Thalita Pertuzatti, Ellen Wilson, Alcione Marques e Débora Pinheiro dão um verdadeiro show de versatilidade.

Aliás, é bom que se faça um parêntese com relação à recente "era dos musicais" do teatro brasileiro, que nos tem oferecido safras e safras de cantores-atores-dançarinos muito dotados e poderosos! Tudo é questão de oportunidade: os americanos não nascem sabendo, mas aprendem tudo isso nas escolas e aperfeiçoam depois. Está provado, com os nossos musicais, que não somos nem melhores, nem piores: com oportunidades iguais, sem dúvida ganhamos pelo número, pelo colorido e pela diversidade cultural! O talento brasileiro tem um tempero que ó, só aqui mesmo.

Para situar a platéia, não faltou uma eficiente vídeo-reportagem retratando as contradições e alegrias de uma época de mudanças. Não faltou também a luz negra e o charme que embalou nossa juventude entre-mundos. Em cena, o poderoso time de meninas desfila os sucessos da Motown com classe, elegância e, antes de tudo, voz. Voz verdadeira, cheia e poderosa, sem artifícios, direta e profunda. Destaco o belo timbre de contralto de Alcione Marques, apesar de sua evidente dificuldade com a pronúncia das letras. Os figurinos são extremamente fiéis e de bom gosto, além do ajuste perfeito.

É claro que não há como falar em Motown sem falar 'dele', Michael Jackson. Nesse particular, cabe uma observação importante: O som da Motown estreou três semanas antes do ato final do ídolo. Não há, pois oportunismo algum na mais bela homenagem que poderia ter sido feita, em qualquer tempo, ao artista. A cena é de uma simplicidade tocante e, confesso, me fez chorar muito. Afianço que não fechei luto por Michael e o produto em que se transformou ao longo do tempo: lamentei, apenas. Mas ao ver o seu momento em O som da Motown, vivi um luto muito maior, diferente.

Em um cenário praticamente às escuras, havia apenas um rasgo de cortina aberta, como que a mostrar um segundo palco lá dentro. Em cena, apenas a cantora Simone Centurione, a única branca do time, em traje de época e peruca black-power, observa as imagens que se insinuam no rasgo da cortina: Michael Jackson garoto, com seu sorriso aberto e limpo, de terno amarelo-ocre. Simone começa a cantar Ben, a cappella. E é secundada por Michael. Segue-se um dueto sentido, brilhante, honesto. Impossível não se pensar na essência de Michael Jackson, apenas um menininho começando a vida, uma criança cheia de sonhos, alegre, verdadeira. As pessoas que só conseguem ver a criatura disforme em que o artista, por razões diversas - medo, dificuldades internas, o que fôr - acabou se transformando, decerto não se lembram, em momento algum, daquilo que ele era, da matéria pura de que era feito. Criança. Talentoso. Fértil. Aberto. Apenas alguém que era o que era.
Tocada pela singeleza, chorei por Michael, pela criança a quem não foi dado, verdadeiramente, o direito de existir. E tive saudades de Ben, a canção dedicada a um ratinho e tema de um sinistro filme que, de certa forma, prefigura o lado dark da futura vida do menino:

They don't see you as I do,
I wish they would try to,
I'm sure they'd think again
if they had a friend like Ben...

"Eles não o enxergam como eu; gostaria que ao menos tentassem, pois tenho certeza de que pensariam diferente se tivessem um amigo como Ben." É o que parece nos dizer Simone, porta-voz mais que habilitada da homenagem - um dos grandes momentos de um espetáculo que, sem pretensões e com rara competência, é um dos melhores musicais da temporada, sem dúvida alguma.

Sábado, Julho 18, 2009

Ricardo

Ricardo, década de 70 - Arquivo pessoal de R.


Não estou aqui para contar de novo a bela história real que tenho contado - e vivido - tantas vezes. Estou aqui para comemorar a presença de Ricardo, essa pessoa que entrou na minha vida justamente por aqui - e pela canção
Viagem, de Taiguara, um grande artista brasileiro muitas vezes esquecido.

Ricardo, alma bailarina, espírito a 24 quadros por segundo, coração de musical, sonhos com jeito de Fox, Paramount, MGM, é alguém que me despertou de novo o prazer de contar histórias, de voltar no tempo sem estar fora do meu tempo, que me devolveu várias vidas que andavam envolvidas em papel de seda no fundo da memória, mas me vieram renovadas, imensas, atuais e prontas para serem recomeçadas dentro de novas estéticas da alma, do corpo, do tempo-hoje.

Ricardo, um baú de riquezas com perfume das primaveras austríacas. Na verdade, a cada vez que me chega um email prenunciando as alegrias frequentes que tenho ao ler o Tertúlias, comemoro Ricardo e sua inquietude tão viva, sua criatividade, entusiasmo, paciência de descobridor. Sempre que podemos, curtimos um delicioso bate-volta nos comentários do seu blog, hoje seguido por mais de 60 habitués, como ele chama os seus seletos convidados.

Alguns deles - sempre por obra e graça de Ricardo - têm aportado por aqui, o que me leva hoje a sacudir recentes impotências e animar-me, de novo, às palavras. Mais uma vez, Ricardo me desperta dos torpores e me convida à vida, a um Peach Melba imaginário em uma talvez magnífica varanda de algum hotel art-déco em Viena, em honra de Nellie Melba, a inspiradora da iguaria.

Ricardo, neste sábado cheio de vontade de viver de novo, um beijo enorme para você!

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008

Notas no tempo

Foto: Jana Castro - www.flickr.com

Últimos tempos sem tempo de escrever, tempo de escrever sem caber nas horas, horas lentas e às vezes muito rápidas. Às vezes o tempo da gente não funciona dentro do relógio - ou o relógio de dentro se atrasa. Sinto que muitos assuntos mereciam estar aqui, mas as engrenagens, o tempo de dentro e de fora, as lutas de vencer distâncias em minutos às vezes longos demais... tantas coisas que me isolam.

Madonna no Brasil: a curiosidade era grande, mas os preços, intransponíveis. Houve silêncio e simpatia, quem viu gostou, minha amiga veio do sul do Brasil e curtiu bastante. A moça, afinal, é de respeito e ofereceu um espetáculo à altura.

Ricardo Leitner, o amigo de todas as vidas que, nesta, apareceu em setembro; na verdade não, alguns meses antes, mas digamos que desabrochou em setembro. Presentes que o Universo nos revela de forma inesperada, porém inequívoca. Faltou a visita que eu faria no inverno, "para assistir filmes antigos junto à lareira", como ele queria. Mas no mês de maio, com a primavera e as flores, também há de ser divertido.

Os Palmas na minha vida: Maria João e Teresa me levaram à tarde portuguesa da Cadeg, em São Cristóvão. Muito engraçado o "Cantino da Concertina", regado a sardinhas na brasa, bolinhos de bacalhau, binho berde e uma animação inesgotável ao som de muitos viras. De quebra, descolei um bacalhau impressionante, com as bênçãos da Teresa (pode levar este, eu garanto!), o rei da mesa natalina de ontem. Bravo!

Nota triste: vivemos, desde fins de novembro, o inferno das águas. Santa Catarina submersa, centenas de mortos, perdas, danos, tristeza. E agora, Minas. A Congonhas do meu coração, como se não bastasse o barro vermelho e o abandono, agora também tem dor. A conta por desmatar e poluir é alta demais, cobrada em vidas e mais miséria. O Brasil precisa ser intransigente na preservação ambiental. Discursos não trazem os mortos de volta nem constroem novas casas para quem, hoje, está na rua da amargura. Lula, aproveite a sua popularidade e defenda não só a reconstrução, mas a proteção das cidades contra os efeitos do desmatamento, do lixo não tratado e da mineração irregular!

Tempo de retomadas: o coração singrou 2008 feliz, acalmado, aportado. E a sensação se prolonga. Há sentimentos profundamente nutritivos, que carregam consigo todas as vitaminas, proteínas e sais minerais que a alma precisa para expandir-se em plenitude.

Vi Josep Carreras de novo em março passado, em Curitiba. Uma felicidade só, afagos na alma, testemunhos de amizade e reconhecimento. Belo na sua simplicidade e grandeza, dois netos, feliz com o amor da sua vida - e ainda por cima cantando como nunca. Bom saber que o carinho perdura após tantos anos, bom saber que tudo valeu e tem valido a pena.

Presentes de Lluís Llach para minha vida: além das canções de uma força impressionante, a amizade preciosa de Àngels, Xavier, Montse e tantos outros. Não sei se Lluís, ao cumprir o plano longamente amadurecido de se afastar dos palcos, tinha a real dimensão do que a sua música continuaria a produzir. Talvez agora a ficha esteja caindo, não sei. Me parece que a eventual ausência é continuamente anulada por uma presença que insiste em crescer e ocupar espaço. Tenho a íntima certeza de que o grande artista sabe que de nada adianta subir ao palco como se fosse só um pianista - e não abrir a boca, como se não cantar fosse o bastante para calar o coração, o seu e o de quem o seguiu a vida inteira.

Gratidão ao Universo: um período difícil vem se encerrando, pendências se solucionam, processos complicados se deslindam na paz. Uma serenidade vem tomando o lugar de tensões compridas que, felizmente, fecham seu ciclo. Muita calma pra pensar e ter tempo para amar a vida que vem, com novos projetos e sonhos na palma da mão.

Sábado, Novembro 29, 2008

Mercedes

Mercedes Sosa - Foto: Reuters

Não sei direito por que a chamam La Negra. Decerto já devo ter lido isso em algum lugar. Mas para mim é Mãe Terra, talvez a própria terra, lagos andinos e cordilheira, rios, cataratas, o olhar fundo e sincero de quem já viu tudo. Olhar que, aliás, ela já tem há muito tempo, bem antes de volver a los 17, ao lado de Milton Nascimento, num disco onde vira e mexe eu deixo a minha alma de molho. Talvez agora, sentada no meio do palco em toda a sua magnificência, ternura e força, as suas profundezas fiquem mais evidentes ao olhar comum. Mas no meio da arena de um Maracanãzinho lotado, tocando bumbo para ressoar "Drume, negrita", já era assim.

Apesar do Vivo Rio, com seus garçons e bandejas invasivos, Mercedes Sosa esteve ontem entre nós com sua grandeza tranqüila, a voz mansa, firme e pausada, as convicções que nos ensinaram o bê-a-bá da latinidade num tempo de sincera fé. Aquela voz que nos tomava a todos e sacudia os alicerces, desafiando-nos a abrir o peito, fez ali o seu milagre de cada dia. E ao ouvi-la tive saudades de mim quando assinei o manifesto pela liberdade de Alex Polari de Alverga, quando participei do Primeiro de Maio que poderia ter ido pelos ares em 1978, ou quando caminhei léguas na Presidente Vargas pelas Diretas Já. Mercedes Sosa, com sua retumbante coerência, foi um dos símbolos dessa época em que tentar mudar a realidade do nosso continente era praticamente obrigação.

Sentada diante das partituras, envolta em belos panos vermelhos, atenta a tudo, Mercedes comanda com as mãos os movimentos planetários e nos rege a todos, músicos e platéia. Entre palavras de carinho para os amigos e a bisneta pequenina, que não cansa de lhe jogar beijos, essa mulher impressionante desfila uma hora e meia de canções, as de hoje, as de sempre, as que nos desatam as lágrimas quentes de saudade, às vezes de tristeza por não termos ido além com as reformas do mundo. Ah, mas quem éramos nós então? Os mesmos de hoje? Mudamos ou foi o mundo que mudou? E a saída, onde fica a saída? Certamente não na sinalização discretamente iluminada nas laterais do Vivo Rio...

A voz de Mercedes Sosa tem o poder de dissolver paredes de pedra, paredes de palavras, de sentimentos. A transparência com que o seu olhar presente e vivo nos reflete é mágica e esmagadora. Lembrei-me de um SEM CENSURA há mais de 20 anos, ainda nos áureos tempos da Lucia Leme (sem qualquer crítica à competência de Leda Nagle), quando diante dessa mulher todos os convidados choraram. "Eu posso te tocar?", perguntou a apresentadora, protagonizando um dos momentos mais verdadeiros do nosso jornalismo televisivo. Eu, em casa, virava um afluente do Rio da Prata.

Mercedes, mais que símbolo, é uma força da natureza latina. Representa os nossos povos com clareza de espírito, força de viver e aquele talento imenso que aprendemos a amar e respeitar. Até quando canta uma simples canção de amor, Mercedes é toda pátria, é toda terra, é toda gente. É rainha no centro dos iguais, porque é assim que prefere ser. Com alegria diante do novo e firmeza diante das injustiças que o mundo não aprendeu a apagar.

Acompanhada de músicos impecáveis, Mercedes Sosa mais uma vez compartilhou conosco a beleza das canções e a humanidade que faz parte da sua composição química. Ao levantar-se no final e ensaiar uns passos de dança ao som do estribilho de Maria, Maria, a golpes de punho cerrado, mostrou o quanto corresponde ao nosso amor. E o quanto ainda é aquela Mercedes que, com seu bumbo e sua voz, abria caminho na história para a nossa verdade latina.

Mercedes Sosa, uma das mais belas faces da nossa alma, eu te abraço aqui neste blog!

Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Um velho filme

Burt Lancaster e Claudia Cardinale em
O Leopardo, de Lucchino Visconti (1965)


Nada como um velho filme para despoluir a cabeça carregada de cotidiano, de disputas, problemas no trânsito, chuva, a crise (mas qual, se há tempos que não se vive de outra coisa?), as pequenas tensões que nos consomem exageradamente. Mesmo se a tv é de 14 polegadas, um velho filme aciona mecanismos internos insuspeitos que nos fazem navegar por épocas não vividas, cidades que não conhecemos bem, mas onde nos sentimos em casa, em aviões cheios ou metrô apinhado, em ônibus desolados ou carros muito velhos, no futuro, no passado, na mente de criminosos.

Às vezes a gente se lembra de tudo, até do cheiro da primeira vez que o vimos. Às vezes nunca o vimos, mas de tanto ouvir falar, acreditamos mesmo tê-lo visto. Às vezes só lembramos de partes e ficamos abismados quando aparece um detalhe que o HD da memória corrompeu. E há aqueles que vimos dezenas de vezes, apesar de todo mundo chamar a gente de maluco.

E não importa que seja bobo, não é fundamental que seja cult, cinema europeu ou japonês. O que vale mesmo é a magia que opera na gente. É a viagem além da técnica, da criatividade, da precisão da fotografia ou da luz. É aquilo que os nossos olhos comunicam ao coração, e que faz com que um velho filme nunca mais nos deixe. É a música, o som do silêncio, um ator que a gente gosta e transforma num velho amigo, num parente, num amante, num confidente.

Gosto dos canais de filmes antigos. Eles me confortam, providenciam cobertor, travesseiros e às vezes uma capa mágica ou um disco voador, uma cápsula do tempo - coisas simples e providenciais em tempos insanos. Uma de minhas paixões, há uns dois anos, era o Canal Retrô, uma raridade argentina que mais parecia um baú audiovisual de raridades. Como tudo que é bom, sumiu da tv a cabo e, segundo soube recentemente, foi vendido a um grupo americano e será desativado. Na verdade, a onda vintage começou com o canal Boomerang e os melhores desenhos do mundo (claro, os da "minha" infância). Esse, coitado, perdeu todo o glamour! Sei lá, também deve ter sido comprado, porque fala uma outra língua, só passa séries com adolescentes retardados, habitantes sei lá de que planeta. Bem, ou mal, tinha uma identidade, era dedicado à causa da lembrança. Qual pai da nossa geração não gostaria de apresentar Dom Pixote, Maguila e Wally Gator ao filho? Agora, virou qualquer coisa...

Mas voltemos aos filmes. Tive recentemente o prazer de rever O Leopardo, uma das obras-primas de Visconti (que aliás adoro, apesar de alguns amigos o considerarem datado e chato...). Que primor, que felicidade, delicadeza e cuidado na produção, atores maravilhosos em todo o seu esplendor, um belo roteiro (provavelmente melhor do que o livro que o inspirou). No final de outubro, no meio de uma maratona em homenagem ao aniversário de Rita Hayworth, finalmente fiquei sabendo por que nunca houve uma mulher como Gilda. E finalmente fui além da cena do banheiro e descobri o segredo de Norman Bates, em Psicose. Rememorei com gosto a prodigiosa trilogia de O Poderoso Chefão. E me surpreendi muito ao rever com um amigo o inimaginável Tambor, pois não lembrava de muitas passagens fundamentais.

Ontem topei com a versão original de Metrópolis, de Fritz Lang. Que grande filme para 1925! Eu fui uma das pessoas que foi apresentada ao filme na versão colorizada (houve um tempo em que isso virou moda) e com uma estupenda trilha sonora de rock, na década de 1980. Gostei tanto que comprei o disco e tenho até hoje. A trilha original do filme é muitíssimo pesada, opressiva mesmo em certos momentos. Sinceramente, o rock da primeira vez teve muito mais impacto sobre mim!
Meu amigo Ricardo Leitner, do fascinante blog Tertúlias, é um cinéfilo contumaz e sempre traz à pauta alguma recordação recheada de beleza e histórias que poucos saberiam contar. Por sua inspiração, resolvi falar um pouco desse cinema de ontem, que também pode ser um pouco de hoje. Por que não? Saudosismos à parte, o novo e o revolucionário existiram em todas as épocas da arte. Em algumas com maior intensidade, em outras mais raramente. E o que havia de rico naquele momento de criação costuma permanecer intacto na obra, mesmo que se passem muitos anos. Um dia disse à minha filha: o que conta num filme não é ser velho ou novo, é ser bom. É essa a diferença.

É claro que a magia dos velhos filmes não anula a força criadora que está por aí agitando a tela grande, venha de onde vier. Mas pode contar que a garotada que faz acontecer, que bota a cara no mundo, cria e nos emociona, com certeza já viajou (e continua a viajar) em muita sessão nostalgia. Vai por mim.


Sábado, Outubro 25, 2008

E do silêncio fez-se o espanto

Lluís Llach



Foi uma longa espera, já nem sei de quanto tempo. Um dia, no "dreaMule" (sim, a tecnologia também aprende a sonhar), encontrei e pus para baixar o Concert d'Acomiat, ou seja, o concerto de despedida de Lluís Llach, realizado dia 24 de março de 2007 em Verges, povoado onde passou sua infância e, segundo ele mesmo, "onde tudo começou".

É o tal negócio: não era prioridade até o momento em que os dígitos começaram a anunciar a conclusão do download. Daí em diante, a ansiedade foi crescendo a olhos vistos. Ontem, afinal, o arquivo chegou completo. Que felicidade!

Mas eu não sabia o que me esperava, de fato. Por mais que fosse capaz de imaginar, eu não estava preparada para o que iria ver, ao longo de três horas de emoção pura, bruta, concreta.

A dois passos de Lluís no campo magnético e ilusório da tela de 17 polegadas, o seu rosto sincero e comovido, enorme, quase se deixava acariciar. Mesmerizada, as mãos no queixo, debruçada sobre a mesa do computador, eu não mais distinguia distâncias ou me reconhecia no tempo e no espaço: estava em Verges, com ele, os olhos nos olhos cheios do agora e da saudade que se produzia junto com a música, que antecipava o adeus.

Si em dius adéu...

A gravação feita pela TV3 barcelonesa e dirigida por Lluís Danès, cineasta que colaborou muito com Lluís Llach, não é apenas um registro rotineiro, com bons cortes e tecnologia. Longe disso. Danès colocou a câmera a serviço da mais fiel expressão da tragédia amorosa que se abateu sobre os dois lados: de um o palco, onde a simples alegria de viver e cantar juntos se produzia como se o mundo fosse acabar a qualquer momento, e de outro a platéia, onde milhares de olhos marejados de todas as idades se esforçavam por suportar a ausência que crescia na presença das canções.

Lluís planejou o encerramento da carreira, isso é verdade. Por razões e razões que nenhuma resposta técnica, elaborada, consegue mostrar. E mesmo com todos os planos, condições e soluções possíveis, ninguém queria e nem conseguia acreditar.

Morri tantas vezes ontem, ao contemplar os olhos que Danès tão bem soube mostrar, o estarrecimento, cada sorriso de mar, a taça quase a transbordar, o senhor que olha em frente, mas para dentro, e ali deixa passar toda uma vida, o rapaz jovem e bonito com o filho no colo, a cantar, a cantar, o marido amoroso que beija a mão da mulher, há tempos entrelaçada entre as suas, a tristeza tão digna nos olhos de Maria del Mar Bonet... A câmera passeia por milhares e milhares de rostos, cabelos, gorros, golas de casaco, bocas a murmurar canções, milhares e milhares de olhos brilhantes, boiantes, absolutamente desolados, lutando tossudament para suportar a perda anunciada.

E o rosto de Lluís Llach vai e volta, cada vez mais perto. Quase ignoro a tela que nos separa, quase posso respirar em cima dele. E mergulho nas eras fundas que transparecem dos seus olhos claros de terra e lua, de uma cor que ninguém explica, de uma força incontrolável. Ainda outro dia falava da sua mirada com a amiga Àngels, que tanto o conhece de uma vida inteira, talvez de algumas outras. Os sentimentos também se debatem nesse rosto, em cada pequena ruga, em olhares cúmplices para os músicos, no esforço muitas vezes sobre-humano para tentar fazer com que as águas jamais transbordem dos olhos, melhor seria que voltassem para dentro assim como vieram. E como vieram, será?

Colada a ele, sei que olha para o mundo, o pedaço de mundo feito daquela gente que é o seu país, o seu país são aqueles olhos atônitos à beira do drama que estão à sua frente e talvez acreditem até o último momento - que a fé move o povo e o povo é a verdadeira fé - poder conter o inevitável, desarmar a vontade que sabem firme, desmaterializar o adeus.

Todos os músicos tocam com visível prazer, olham-se com sorrisos de orgulho, sorriem com olhos de amor, produzem ternamente a música do fim como se fosse sempre, como se o palco de Verges fosse inesgotável e as horas não existissem. Incrível como Danès teve a extrema sensibilidade de nos deixar participar dessa intimidade profunda, do sentimento comum entre eles, da sua verdade em cores fortes.

Nas suas célebres conversas entre canções (satirizadas tantas vezes por seu brilhante imitador no programa humorístico Polónia), Lluís compartilhou em Verges a vida inteira. Meu coração doeu de orgulho, feliz, ao vê-lo falar da forte impressão que lhe causou o olhar de Vinícius de Moraes, e das canções do nosso poetinha que o inspiraram a escrever Sabessis bé, sua mais emocionada homenagem ao falecido amigo e poeta Miquel Martí i Pol. Tem razão o Lluís; de que outro modo, senão o brasileiro, ele conseguiria expressar musicalmente a sua saudade - sentimento que, ao contrário da palavra que o define, não é privilégio nosso, afinal?

A emoção beirava todo o tempo o insuportável. Sinceramente, não sei como aqueles fãs ali reunidos conseguiram suportar. Era como se se comprimissem contra paredes de vidro, esticando o coração, os olhos, as palmas das mãos, as lágrimas espalhadas pela face, até as velas acesas em vários momentos.

Por que?, eu não me cansava de repetir, falando com minhas próprias águas. O que faz um homem com tanta música por dentro decidir partir para uma vida comum, por mais que o tempo livre e o anonimato, às vezes, possam seduzir?

Li esses dias uma frase de outro Luís que também adoro, Louis Armstrong: "Músicos jamais se aposentam. Só param quando não há mais música dentro deles."
Impossível não pensar em Llach. Sobretudo hoje, ao ver o vídeo de sua entrevista sobre vida e vinhos no excelente programa "La clau del vi", do Canal 33 da Catalunha. "Jo me anyoro molt", sinto muita saudade, admitiu. E eu sem conseguir calar o tal "Por que?"!!

Verges, final de festa. Lluís Llach desce ao meio do seu poble, dos que vão amá-lo eternidade afora. Muitos beijos, abraços, e ele acaba desistindo de manter na cabeça o imemorial gorrinho de lã, com tantos afagos por todos os lados. Eu já tinha visto isso no YouTube, mas com o concerto inteiro o gest correcte dos fãs - que cantam a cappella a emblemática "L'Estaca" e depois "Laura", muito afinados - é muito mais forte, derruba mesmo a gente. Nem o mais insensivel do seres conseguiria resistir.

Olhar para Lluís Llach, tanto no palco como nas entrevistas, é sentir-lhe a música pelos poros. Quando sua, não cai água, brotam notas da pele. Como os pássaros do pentagrama, estrofe de um poema de Xavier Monsó Brignardelli, um dos sensíveis fãs que fazem parte do fórum do artista.

Queria mesmo o impossível: estar no seu coração, para saber como ele consegue segurar a onada de canções que lhe inunda o peito todos os dias. Ah, quem dera se ele se dignasse a deixá-las sair uma vez por ano, pelo menos, para encontrar os amigos fiéis, apaixonados e sinceros, que naquele dia 24 de março de 2007 voltaram para casa ou para os hotéis carregados de um vazio que sabiam ser impossível de preencher.

Ao falar de Martí i Pol, o próprio Lluís admitiu que o espaço deixado por ele só faz ampliar-se. Diante da morte, porém, há pouco a fazer - talvez um poema, uma canção, uma homenagem sentida.

Vivo (muito vivo!), vibrante, docemente aguerrido, forte como um pássaro do deserto, Lluís pode, se quiser, marcar encontros. Ainda que esporádicos ou, como ele diz, pontuais. Há muita alma e sonoridade, ainda, para compartilhar. Tantos de nós precisamos, e muito, daquela tendresa que só ele tem, e que ens cura quan fa por la solitud!...


* Vocabulário catalão

Tossudament - obstinadamente (referência à canção "Tossudamente alçats")

Si em dius adéu - Se dissermos adeus (da letra da canção "Que tinguem sort")

Mirada - olhar

Jo me anyoro molt - sinto muita saudade

poble - povo

gest correcte - gesto correto (referência a uma estrofe da letra da canção "Amor particular")

onada - onda, palavra muito usada por Lluís Llach em suas letras

La tendresa... que ens cura quand fa por la solitud - A ternura que nos cura quando a solidão dá medo (da letra da canção "Tendresa")