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Vicent Partal e Jordi Sánchez |
Já
deve ter uns trinta anos que escrevo, no mínimo, um artigo por dia. É o meu trabalho.
Cada dia tento fazê-lo com a mesma meticulosidade com que meu pai, ao fechar seu
bar, punha-se, ainda que cansado, a limpar a cafeteira durante horas, para que
no dia seguinte o café saísse bom. Meu pai, minha mãe, minha família, me
ensinaram a dignidade do trabalho, o amor pelo ofício que abraçamos e o
respeito às pessoas para quem trabalhamos e a quem servimos.
Durante
todos esses longos anos de jornalismo, tenho visto coisas que não pensava serem
possíveis. Conheci gente que me ensinou que a ética, tanto profissional como cívica,
está acima de tudo. E o primeiro de meus mestres foi Ramon Barnils. Assim
entendo que, além de fazer as coisas bem feitas, como os meus pais faziam,
tenho a obrigação – em função da minha profissão e da responsabilidade social
que advém dela – de pensar na sociedade à qual sirvo, de sonhá-la sempre melhor
e de fazer tudo que puder para continue a melhorar, a partir do meu modesto
pátio de manobra dos teclados.
A
partir desses dois compromissos, acostumei-me a explicar o que vejo, a cada
dia, diante dos olhos de centenas de milhares de pessoas. E me empenho, diariamente,
para fazê-lo com honradez, com coerência e com uma atitude positiva.
Nesses
trinta longos anos já escrevi sobre praticamente tudo e em todos os estados de
espírito que conhecia e que poderia imaginar. Escrevi esperançoso e
decepcionado, ansioso e pessimista, doído e feliz, desconcertado e seguro.
Escrevi com euforia, após voltar de milhares de manifestações em Barcelona;
espantado, de dentro de uma trincheira croata prestes a ser invadida pelos
sérvios; exultante, bem ao pé de um muro em Berlim; indignado em Burjassot,
terra de Guillem Aguilló; derrotado após saber que assassinaram Anna
Politkovskaia poucos dias depois de ter jantado com ela; extasiado após ver as
ruas de Palma cobertas de verde; aliviado ao ver Mandela caminhar em liberdade,
depois de ter intuído aquele momento na porta de sua prisão; divertido ao ver o
cretino do Valls se perguntar em Perpignan, em público, se tinha direito de
falar catalão, por estar representando na França.
Se te
explico tudo isto é apenas para dizer que não me lembro de um texto que tenha
sido mais difícil de escrever do este que te escrevo agora. Que as palavras que
tenho, e são tantas, tornam-se escassas quando quero te dizer alguma coisa.
Se o
apresentador quer fazer um bom trabalho quando se coloca diante das câmeras, um
exercício é fundamental, essencial e imprescindível: acalmar o corpo, para
deixar que a cabeça fale. Não se pode escrever com o corpo tremendo, não é bom
escrever com o corpo tremendo. A cabeça deve governar o pensamento. Mas há momentos
que é tão difícil, tão complicado fazer isso...
A
injustiça faz o corpo tremer. Tremer muito, e com muita intensidade. E a
injustiça que você, os outros presos e os exilados estão sofrendo faz meu corpo
tremer como nunca. Todos os dias. Cada vez que escuto seu nome, tremo. Cada vez
que vejo uma foto sua, tremo. Cada vez que passo pela Rua de Sants, onde um dia
você me acalmou quando parecia que tinham me encurralado de vez, tremo mais
ainda. Quando vejo a Avenida de Maria Cristina, onde você me explicou que nós ganharíamos
e como faríamos, tremo de novo; quando paro na esquina da Granvia com a Rambla
de Catalunya, naquele ponto em que procuravas convencer as pessoas, com o
megafone na mão, e a mim também, ao pé na rua, que aqueles guardas civis tinham
de sair dali , quanto mais rápido melhor, e quanto mais tranquilamente melhor, meu
corpo inteiro treme.
Deve
ser por isso que, cada vez que tento te escrever, me custa tanto enganchar uma
letra na outra, articular um texto que faça sentido. A injustiça da qual você é
vítima provoca em mim uma indignação que vai muito além da minha capacidade de controlá-la.
Fico indignado ao ver como mentem sobre
o que você fez naquela noite, sendo eu, como sou, testemunha dos teus esforços.
Fico indignado quando tentam te apresentar como algo que você não é, e quando lançam,
sobre você e seus companheiros, tanta miséria moral, tantas mentiras. Fico
indignado quando vejo manipularem as pessoas de maneira tão descarada e
indecente. Me revolta, toda noite, pensar em você e no Cuixart na cela de Soto,
pensar em todos os outros nas celas de Estremera e de Alcalà.
Mas hoje
me comprometi a te escrever e, para isso, tive que passar um bom tempo, um tempão
aliás, fazendo aquilo que te expliquei lá atrás: acalmando o corpo. Fiz isso
pensando em onde estamos hoje e em onde estávamos da última vez que nos vimos. Assisti
de novo os vídeos da manifestação das candeias, na Diagonal, da manifestação da
rua da Marina, da do Paralelo. Voltei a ver as imagens da concentração que as
pessoas fazem, todo dia, diante da Prefeitura de Arenys de Mar, onde tenho ido
sempre que posso, onde fui hoje. Repassei fotos e vídeos de cidadãos que, daqui
e dali, encararam os radicais do estilete. E revi as imagens da gritaria ensurdecedora
endereçada ao Bourbon e sua cara de desgosto, dentro do Palau de la Música.
Revisitei,
com um sorriso, os atos dos 21-D. E o discurso de Maragall, naquele primeiro
dia no Parlamento. Vi novamente a marcha a Bruxelas. Rememorei uma conversa com
o presidente Puigdemont em Berlim. Reli
a agenda dos atos que fazíamos a cada dia e me recordei de que, no dia seguinte
ao seu ingresso na prisão, eu fazia um ato nos Esculápios de Sant Antoni, que
teve de ser concluído dentro da igreja, porque não cabia mais ninguém em nenhum
outro lugar. E desde então o movimento foi incessante, todos os lugares sempre
cheios de gente levantando cartazes com os retratos e os nomes de cada um de
vocês. Em Santa Maria d’Oló estávamos todos de pé, em silêncio, durante um
longo tempo, cada um com seu cartaz. Na Garriga, onde havia gente no palco e em
todo lugar, aplaudíamos vocês intensamente, enquanto levantávamos um daqueles
desenhos do Calvís. Em Girona, com as pessoas ainda pendurando grandes
letreiros e laços do lado de fora, enquanto a sala, lá dentro, já estava
completamente lotada...
E o
que você faz, do fundo da sua cela abafada, querido Jordi, é criar tudo aquilo
e muito mais. Nós te devemos, eles te devem. Seu sacrifício pessoal, o sacrifício
pessoal de todos vocês, que estão presos e exilados, o sacrifício de todos os que
sofreram represálias por uma ou outra causa, é uma das alavancas mais poderosas
que o nosso povo pode utilizar para se libertar. Vocês são uma das alavancas
mais poderosas da liberdade. Porque o sacrifício de vocês faz de todos nós
devedores. Porque a dignidade de vocês faz com que qualquer esforço nosso
pareça pouco. Porque o compromisso de vocês nos dá força dia após dia.
Você
não sabe o quanto me agradaria poder tomar de novo um café contigo, mas tudo
aquilo que se passou faz com que eu compreenda que somente em um país livre terá
sentido tomar um café como fizemos tantas vezes antes - dois cidadãos
interessados na coisa pública, dois amigos desfrutando de uma conversa
amena. Por isso, já não há como voltar
atrás, não há uma pausa na qual possamos nos refugiar. Existe somente o sentimento vulcânico de que
temos de trabalhar até o esgotamento total por vocês e pela liberdade de vocês,
o que é o mesmo que dizer trabalhar por
todos.
Dá um
grande abraço no Cuixart. Diga-lhe que, sempre que leio Fuster, penso nele...