domingo, julho 15, 2007

Pelas palavras


Repara; é nesse terreno movediço, furta-cor, que passaremos quatro dias e horas sem fim a ouvir histórias, acalentar palavras, enxergar algumas pessoas especiais bem de perto, como se usássemos luz de leitura.

É a quinta FLIP. Um fenômeno de público num país de funk e produtos "culturais" descartáveis. Onde milhares de pessoas de todas as idades se acotovelam em filas para estar frente a frente com escritores, sejam eles novos ou consagrados. Para vê-los de perto transformados em gente como a gente, que dorme-acorda-e-come-e bebe-e-erra, enfim, que existe mesmo.

Festa Literária Internacional de Paraty, ou simplesmente FLIP... Uma sigla e uma brincadeira, talvez, com o sentido do vocábulo em inglês; soltar algo no ar (e ver o efeito que dá), ou virar (como se viram as páginas de um livro), definições que também combinam com o espírito da festa; joga as palavras pro alto, vê onde caem e vai lá conferir se germinaram. Ou então pega um livro, folheia e vê se encontra alguma coisa que te faça saltarem os olhos.

O que a FLIP tem jogado no ar, cai em solo fértil. E, se depender das crianças de Paraty, floresce com todo o vigor. Desde os bonecos em papier-maché que elas confeccionam, todos os anos, para enfeitar a Praça da Matriz até a Flipinha, a vitoriosa edição infantil do evento que está sempre lotada de pequenos leitores apaixonados, o ano inteiro loucos pra estar lá e não perder um só minuto das histórias, cantigas e alegrias que os esperam.

A FLIP é um recheio e tanto, para quem lê e mesmo para quem ainda não tem lá tanta intimidade assim com esse estranho e querido objeto chamado livro. Lá nos abastecemos de temas e questões que ficamos o ano inteiro a tecer e a deslindar. Lá olhamos nos olhos de quem nos embala os sonhos, entendemos melhor o mundo real que vira literatura, podemos estar frente a frente com um correspondente de guerra ou um menino soldado, como o brilhante Ishmael Beah, 26 anos e a velha chama no olhar, este ano. Podemos ouvir o lamento de um poeta palestino e sentir a força de um humanista israelense. Podemos vislumbrar as várias Áfricas do Sul, as Austrálias, as Luandas, os Maputos e os Cariris como se fossem uma só coisa.

Na FLIP os Brasis e os mundos são iguais, ou melhor, são igualados nas virtudes e mazelas que fazem a realidade, e também na força da sua ficção. Aprende-se muito sobre as diferenças e o que elas têm em comum. Há mais boas surpresas do que as poucas decepções, e a gente faz muitas promessas aos livros que lê, aos depoimentos que leva no coração. A FLIP é uma festa de noivado, onde a gente renova todos os anos o compromisso de amar e respeitar a nós mesmos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, e em todas as páginas que lermos com o coração aberto e a alma sempre, sempre inquieta.

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