domingo, janeiro 14, 2007

Milton, Chico e Ney

A vida volta, às vezes.
E volta cheia de gás, sem nostalgia, com gosto de agora.
Nesses tempos recentes, muita coisa guardada vem se reinstalando em mim de um jeito bom, cheiroso, de memória que refresca a pele.
A música, principalmente... mas a música da vida, aquela que jamais se separa de todo da gente.
Dezembro e janeiro me trouxeram, de uma só enfiada, Milton Nascimento, Chico Buarque e Ney Matogrosso. Ao vivo e a cores, para acender muita coisa costurada à bainha da minha alma desde muito sempre.

Primeiro foi Milton, com seu vigor contagiante, o timbre impossivelmente belo, todas aquelas canções claras feito água de rio, rio vereda de Minas, a Minas que morou dentro de toda uma geração, aliás várias gerações, por obra e graça do menino de Três Pontas e todo o seu clube da esquina.
Ouvir e ver o Milton, só e acompanhado, é um pouco como a letra de uma das canções do último disco: "Será que isto quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer?"
Felicidade suprema foi receber, de presente, A lua girou - e o convite para fazer corinho, toda uma platéia respeitosa e apaixonada a cantar, muito afinada, "Hãã... hãã... hãããera... hãã... hãã... hãããera", um colchão sonoro para as sublimes improvisações que só Milton Nascimento sabe fazer, com sua voz de cristal de rocha, da melhor pedra que há nas nascentes das Gerais.

O segundo foi Chico, nosso irmão, nosso filho, nosso pai, amante e amado. Chico dos olhos inocentes e de todos os pecados e sonhos marcados na pele feito tatuagens, só pra nos dar coragem pra seguir viagem quando a noite parece não acabar... Chico, ombro a ombro nos anos de medo, desespero e amor... Chico feminino plural... Chico, encanto que de repente acorda e ressurge no palco, sempre mais belo e do mesmo jeitinho de menino que arriscou ver a banda passar e levou o Brasil com ele.
O homem, poeta e fotógrafo do seu tempo vem novo de coração e de canções, sem faltarem aquelas que a gente jamais esquece e sempre há de reconhecer, afinal, quem canta comigo canta o meu refrão...
Entre as novas, as médias e as antigas, Chico e seu violão nos devolveram a certeza de que, afinal, demos pra alguma coisa, escrevemos com ele parte da história, só por ouvi-lo e ecoá-lo por toda parte, amanhã há de ser outro dia, meu Deus, vem olhar, vem ver de perto essa cidade a cantar...
Quem te viu e ouviu um dia amou-te à primeira estrofe, atravessou o bosque que um muro alto proibia e seguiu contigo; quem te vê e te ouve agora recolhe na alma a poesia que deixas no chão, olha bem fundo nos olhos verdes das canções e, rendido, abre os braços pra você.

E o que dizer do terceiro? Ney Matogrosso, cálido e forte, é um vento de tempestade e, ao mesmo tempo, um acorde singelo a ecoar na noite. Quase acústico, escolheu cantar acompanhado por violões, guitarra, viola, violão de sete cordas, alaúde. E foi replantando, podando e enxertando as canções mais contundentes e também as delicadas, até produzir emoção pura. O Ney que está no palco cercado de cordas é um mestre das artesanias vocais e expressivas. Estão lá os mesmos olhos penetrantes que mesmerizam, cortam, ferem e amam. Estão lá o bom-humor, a pitada de malícia, a brejeirice - e também dor, sentimento, indignação. Ney é um ator a serviço das canções, um artífice da mais pura simplicidade no ato de cantar.
Nesse quase concerto, a surpresa é a pequena mas precisa seleção do repertório dos Secos & Molhados, ao final: Sangue Latino, Rosa de Hiroxima, Fala. E Ney fala, sim, com a voz e autoridade de quem fugiu de limites sem jamais ultrapassar os meridianos do bom-gosto. Fala com o corpo, os sentidos, melodia e palavras. E faz voltar e seguir o tempo, ora sambista, ora bandoleiro, ora amendoim torradinho... mas sempre, sempre Ney. Como só ele sabe ser, sentir e se fazer sentir.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Independentes

I
Selvagens o tempo
e os arrepios de medo
- hora de guardar-se.

II
Jogar, ora bolas
pernas compridas e poucas
pra tanta sede de gols...

III
Faceiríssima, nua,
o amar armado no espelho
- e a alma, encolhida.

IV
Esse funk pra todo lado
e o coração, surdo-mudo,
põe o leite pra esquentar.

V
Portugal cá dentro
canção pra lá dos olhos
E onde estás, tu, mamá?*


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* (Estrofe da Canção de Lisboa, de Jorge Palma,
mestre da música e da alma portuguesas)

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Saudade boa, ou "tudo fácil, nada perto"

Neste momento, 01:48 da manhã, ouço extasiada o terceiro ato da ópera I Puritani, de Vincenzo Bellini, transmitida ao vivo do Metropolitan Opera, em Nova York. Solistas, a revelação Anna Netrebko, o tenor Eric Cutler e o barítono Franco Vassallo. Um amigo me avisou a tempo de poder ouvir quase a ópera inteira, um raro prazer em linha direta.

Enquanto ouço, penso na maravilha que é a instantaneidade da tecnologia. Num instante deixo minha cadeira de trabalho e estou na platéia do Met, com toda a energia e carga emocional que uma ópera como esta traz consigo e distribui, generosamente, aos aficionados.

Tecnologia... Pode ser acolhedor ver chegar um email quentinho, saído do forno da alma, com carinhos vivos de alguém - boas palavras, amenidades, poemas, doçuras. É bom clicar ou receber um clic no msn, falar com alguém léguas e mares distante. É bom ter o Skype e conversar como se fosse de bem perto. A tecnologia é capaz de, a todo momento, fazer suas mágicas, colorir o dia, abraçar a alma.

Penso em como tudo isso é fácil... o difícil, mesmo, é o ser humano.

Aqui sentada a escrever meu blog, sinto falta de ti e tuas graças. Do modo como chegaste sem jeito, do nada, e abriste caminho para alegrar-me. E de como nos entendemos com verdade e poesia, com uma naturalidade mansa, mas absoluta.

A tecnologia abrigou um texto meu, escrito com a máxima paixão, e levou-te a ele. E assim vieste, sem mais cerimônia, a sorrir timidamente no email. Minha alma distraída, leve-solta no ciberespaço, recebeu-te com alegria leve, fraterna.

Sabias falar comigo, fazer-me rir, poetar, sonhar. Parecias sempre chegar para o chá com biscoitos finos, um pouco de geléia a lambuzar poemas, sorrisos, palavras vivas, histórias contadas com brilho nos olhos que eu ainda não via. Convidavas-me a passear pelo teu dia-a-dia, eu ia de carruagem, às vezes com asas emprestadas. E divertia-me sempre.

Fomos criando costume, cumplicidades... e ficando necessários um ao outro. Eu te esperava, e tu a mim, para trocar poetas e suas estrofes, construir lembranças, inventar verdades. O oceano e o fuso horário que nos separavam tornaram-se irrelevantes para tanto assunto, tanto gozo de estar juntos.

Os sonhos, bem alimentados, engordavam a olhos vistos (ou quase). Um dia disseste que ias atravessar o mar... e então pusemo-nos a desejar o encontro dos olhos e das mãos e das pequenas felicidades. Esforçamo-nos para isto online e offline: email, msn, telefonemas do ultramar... tudo contribuiu para que afinal, pudéssemos estar juntos.

Mesmo no continente, ainda faltavam uns três mil quilômetros. Preparei-me para ti desde muito longe e bem dentro, e tu para mim. E conseguimos, sim, conseguimos... tudo parecia conspirar para que a alegria ao vivo fosse a mesma das cartas, juras e sonhos anunciados.

Gostamo-nos. Amamo-nos. Houve verdade e ardor, pânico e dúvidas. Recuos, ansiedades, desconforto misturado ao carinho e à leveza de ser juntos, simplesmente, diante do mar e de nós mesmos.

Voltamos à distância física, mas lá estava o email a amenizar tudo, a rechear incertezas com poemas e beijos. E, mesmo com o passo inseguro, permanecíamos cúmplices em muitas coisas. Era um prazer duelar sobre bobagens da gramática, trocar apelidos, falar de tudo aquilo que gostávamos.

No seio de algum desvario, arrefeceste. Divergimos, amuei-me, foram menos emails, tu com mais compromissos, a interessar-se por coisas que eu não via, mas estranhamente pressentia. Nossa fina sintonia apontava interferências, e nem a eficiência das redes sem fio conseguia saná-las.

Até que pousaste em outras asas, para desgosto das minhas, que se equipavam para voar rumo ao que ficou do encontro, curar saudades, rechear ternuras. E olha que se não fosse a tecnologia eu nem ficava sabendo...

E vieram as dores normais, bem humanas, de uma despedida conturbada demais e mesmo imerecida, diante do belo que por tanto tempo soubemos cultivar. Vieram a raiva e as palavras não medidas, os machucados na alma. A tecnologia entrou para dar mais intensidade à dor e deletar o registro amoroso, datado e preciso, cuidadosamente organizado para perdurar.

Mas não quiseste ir de todo, apesar da primeira maré de fúria. No msn teimavas em ficar, eu me horrorizava, resisti, excluí, bloqueei - e tu a insistir, a pedir passagem para talvez uma palavra que ficou sem ser dita, um detalhe importante que escapou... Ao terceiro dia, capitulei e deixei-te entrar, não sem medo ou até uma certa mágoa. Que o tempo, mesmo ainda curto, encarregou-se de lavar.

Agora, às vezes, nossos nomes se encontram. No início até se estranhavam, entravas, saías, sumias, voltavas, tudo em questão de segundos. E eu pensava em como era bom quando conversávamos, felizes por estar um com o outro, ainda que apenas por um texto digitado, um poema captado, um beijo no ar. Espero que fales, não falas. Revelamos nossas músicas, arrisco um poema. Vira e mexe, voltas. Vejo-te, tu me vês. Nada ou tudo se diz em silêncio. E voltas a sair, eu também saio.

Na saudade de conversar, não é o amor que volta. Fica o carinho a bailar, o toque de sensibilidade que nos uniu nos livros, nas canções que nos vieram ao encontro na estrada, nos poetas que emprestamos um ao outro, nos marcadores deixados na alma.

Quando vejo teu nome, nossas palavras fazem barulho dentro de mim, como a querer soltar-se e cirandar de novo ao vento, a pular, desabridas e de mãos dadas, as janelas que acabamos por deixar entreabertas...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Nas pétalas de um poema roubado, devolvido e compartilhado

Gosto de Cora Rónai.

Não me peçam explicações: gosto, pronto.

Não é só porque sempre admirei seu pai, Paulo Rónai, respeitadíssimo tradutor e pessoa das mais queridas no meio intelectual de sua geração.
Nem apenas porque Drummond sempre me falava bem dela, "eu vi essa menina crescer, ela é muito inteligente...".
E nem só pelas belezas que escreve.

O meu gostar tem um pouco de tudo isso e também alguns dos ingredientes que deixa escapar pelas vírgulas, reticências, exclamações: temperos simples do coração, receitas de família, guardados de gaveta recendendo a perfume com naftalina, sabores de infância... são muitas coisas. Assim que a encontro sempre com muito prazer na coluna do jornal e no blog também.

Mas essa semana Cora foi demasiado fundo, e com tanta transparência e leveza que quase não percebia chegarem-me as lágrimas com tanta força, ao vê-la contar (sim, vê-la, porque Cora se vê no papel) a história do poema roubado à chácara da sua infância.

Ocorre que Paulo Rónai e sua mulher resolveram decorar jardins, quintais, pomares e tudo que de verde havia com, imaginem, poesia pintada em doces tabuletas! Paulo escolhia, Nora pintava, e as tabuletas-poema proliferavam no caminho do verde, a iluminar o espaço da natureza. Tesouros que, como nos conta Cora, o tempo e os humores da floresta encarregaram-se de dissolver.

Mas um deles voltou, e com as próprias pernas que o levaram, mais de 20 anos atrás.

A deliciosa crônica de Cora Rónai revela os detalhes desse insólito retorno com as melhores tonalidades da alma. A bem do melhor entendimento, peço-lhe vênia para resumir: um menino que por ali andava achou "tão bonita" a tabuleta com um poema de Cecília Meirelles, dedicado aos donos da casa, que a levou consigo... e guardou-a muito bem, creio que com respeito e carinho até, pois permaneceu intacta. Para devolver, envolveu-a num saco de lixo preto e anexou um tímido e maltraçado bilhete, no qual revela que, já homem, converteu-se a Jesus e achou mais certo devolver.

A foto que ilustra a crônica mostra a tabuleta restituída soberbamente à paisagem, decorando uma casinha de pássaros ou pombos, talvez. Veio-me forte a emoção ao percorrer a pintura do poema, feita pela mãe de Cora com a delicadeza própria do amor, com reverência e provavelmente um enorme carinho pelo inestimável presente da comadre Cecília (sim, Cora revela também ser sua afilhada). Delicadas folhas de hera formam uma guirlanda a circundar uma parede imaginária que antecipa os sinais do tempo no reboco descascado, um ar de permanência, perenidade...

Um poema assim só podia mesmo voltar para casa. Cora diz que teve vontade de abraçar o homem que o devolveu, e fala da esperança que há num mundo em que meninos roubam poemas e homens honestos os devolvem.

Penso que tem mais razão do que imagina. A esperança foi plantada quando alguém percebeu que as vozes da natureza recitariam poemas, se estes estivessem bem à mão para serem recebidos na alma. Foi multiplicada entre as crianças que cresceram na convivência natural com aquelas tabuletas sussurrantes. O vento por certo acompanhava, no contrabaixo do seu ir-e-vir, as vozes das dríades que entoavam Bandeira, Cecília, Drummond e quem mais ali estivesse. Se a chuva levou alguns, é porque foram enfeitar outro lugar... como esse da Cecília, que acabou por parar nas mãos ávidas de beleza de um menino que, afinal, deu pra alguma coisa, aprendeu sem saber com as rimas, até entender um dia que não devia ficar com algo que não lhe pertencia. Contudo, se o poema o chamou um dia, é porque talvez, de algum modo, lhe pertencesse sim... é o quinhão de esperança que lhe marcou por dentro, que lhe foi doado por obra e graça do amor que nasceu do que foi ali plantado.

E que bateu em mim. Porque eu senti, Cora, o cheiro do verde das folhas a emoldurar as palavras. Arderam-me os olhos, a alma alvoroçou-se, e eu fiquei feliz por viver num tempo em que tais histórias acontecem aos seres humanos de delicado coração.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

No ano novo, Drummond de presente


Drummond, o nosso Carlos Drummond de Andrade, como sempre mineiramente preciso, ensinou-nos duma vez por todas o que é preciso para receber de braços bem abertos cada ano que chega, como este 2007. Lembrá-lo nas asas da esperança é um presente com cara de esperança boa, esperança de que possamos mudar o nosso país e o nosso futuro, com vontade e energia, contra essa maré de urucubaca que insiste em nos tirar do sério.
Pra todos nós, a receita do poeta maior para o ano novo.

Receita de Ano Novo
Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Um piano com uma história por trás

Há um piano à venda. É um belo Fritz Dobbert de cauda, novo em folha, a laca preta reluzindo, mecanismo e cordas brilhando. A flanela parece que acabou de ser comprada. As teclas em ébano e marfim parecem virgens, as cores firmes, a suavidade que transparece por entre os dedos de quem o toca e o entende.

Esse instrumento que transcende poesia, que reflete no espelho que é o tampo o esforço enorme despendido para comprá-lo, pertence a uma escola de música. Ou melhor, a um conservatório de música, como convém à melhor tradição brasileira. Um conservatório que formou e ainda forma instrumentistas nas mais diversas áreas. Onde se ensina e aprende teoria e prática musical. Um lugar onde se toca e canta por música.

E está à venda, descobrimos por entre os olhos tristes das professoras.

A vida moderna é difícil, a situação do país também. Foi-se o tempo em que o ensino da música era uma prioridade para certas famílias em melhores condições. Quando eu era menina, muitas colegas de escola freqüentavam as cobiçadas aulas de teoria e piano, sonho de poucos (eu, nem pensar, quem dera!). Mas esses poucos ainda eram suficientes para manter em boa posição os conservatórios, onde pacientes mestres dedicavam-se aos alunos, às audições, aos exames no Rio de Janeiro. Uma amiga da mesma geração me contava, há alguns anos, que em sua cidade usavam uniformes com dragonas indicativas do ano de estudo nos ombros, e que os exames anuais eram uma verdadeira agonia, com direito a suor nas mãos e dor-de-barriga...

Os conservatórios funcionavam com o rigor característico do modelo educacional da época. Só que o mundo foi virando e desvirando, a vida tornou-se muito mais veloz, as meninas deixaram de cultivar virtudes e talentos próprios às donas-de-casa para buscar espaço em ambientes antes privativos dos homens, e nesse roldão a música foi sofrendo abalos sucessivos. Depois vieram os anos 70, tempo de transgredir e transformar... A guitarra de Jimmi Hendrix horrorizava os mais ortodoxos e hipnotizada os mais jovens com sede de liberdade para desconstruir e criar. A vida intelectual brasileira era dizimada pela ditadura militar, assim como a economia e o sistema educacional. Seguiram-se tempos mais duros para o emprego e o ambiente social, num processo sem volta. E as transformações levaram consigo muitas tradições importantes na nossa cultura, entre as quais vários conservatórios de música, sobretudo no interior.

Fora-se o tempo em que um entusiasmado Heitor Villa-Lobos recebia carta branca do Presidente da República para transformar o país pelo canto coral e reunia 20 mil vozes, pasmem, 20 mil vozes no Maracanãzinho para celebrar o trabalho que implantara em praticamente todas as escolas públicas do Rio de Janeiro. O maestro acreditava nisso, provou que podia, mas estamos aí até hoje a nos debater em cima das mesmas questões. Nem quando os Titãs escrevem que "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte", as pessoas entendem. Aquelas aulas de música eram vitais para inspirar, instigar e tirar as crianças da pasmaceira, da mesmice e fazê-las descobrir o mundo através da única linguagem que, até hoje, se provou universal. Esperanto? Uma bonita ilusão. Religiões? Olha o resultado nos jornais todo dia. Só na música as pessoas se encontram de verdade. Só a música é capaz de unir, numa mesma orquestra, africanos, neozelandeses, israelenses, palestinos, vietnamitas. E mesmo que aquelas mesmas crianças não dessem pra músicos, o ensinamento plantava-se dentro delas para que soubessem apreciar, e ensinar aos seus filhos, que um dia existiu um Mozart, um Bizet, um Villa-Lobos, um Carlos Gomes. A música será talvez a única tradição que se mantém praticamente intacta através dos tempos, pois possui som para se guardar na memória. Um livro pode-se queimar, mas a música pode-se lembrar, reproduzir, escrever de novo.

Ficamos piores sem a música. Aliás, ainda que às vezes a gente não se aperceba disso, ninguém vive sem ela, seja qual for o gênero da preferência.

O conservatório do interior possui um piano, e uma bela história de realizações pequenas e grandes. Possui a dedicação de vidas inteiras ali depositadas, empenhadas na plantação diária da sementinha da música, essa mesma que abre as portas do mundo. E possui também dívidas, essas coisas comezinhas que nos atacam no dia-a-dia, é um aluguel, é um imposto, é menos um, dois, mais alunos, é o pagamento de professores, luz, gás, telefone... Dívidas que um piano transformado em dinheiro pode pagar, sim, mas o que paga o piano e sua história? Os jantares beneficentes cuidadosamente arranjados para pagar suas prestações? As vaquinhas de última hora, quando o dinheiro faltou? As personalidades que passaram por suas teclas reluzentes e delas tiraram sons à beira do divino? Os corações que se alegraram com sua música a espalhar-se no ar? Os alunos de primeira viagem, que sentaram-se ao banquinho com as mãos frias e o coração aos saltos, mortos de medo e de emoção, na primeira audição?

Vende-se um piano com uma história. Uma história com suas recordações. Vendem-se lembranças que têm som, têm eco na alma. Triste é o tempo em que se faz necessário transformar em mercadorias as peças sem as quais os sonhos não podem existir.

domingo, dezembro 24, 2006

À cata de um sentido em meio ao alvoroço

Gosto de Natal. Adoro as comidas. E gosto também de dar e ganhar presentes. E dos rituais, arrumar árvore, presépio, mensagens... sobretudo lembranças boas e confortáveis da infância, como o refresco de vinho com água e açúcar a que sempre tínhamos direito em quantidades ilimitadas, as rabanadas em calda (raras hoje em dia), toda aquela azáfama familiar na cozinha, um cheiro bom de azeite português a circular pela casa...

Nesses dias de dezembro, em paralelo à contabilidade espiritual do ano, às pequenas e grandes frustrações e alegrias, tenho sentido pânico nas ruas. Nunca o burburinho da multidão acotovelada entre pacotes e ataques de nervos, a disputar espaço nas calçadas, nas lojas, nos locais públicos, me incomodou tanto. A um grande desconforto no estômago somam-se uma grande sensação de inutilidade e impotência, uma tristeza impregnada de vazio. As passoas parecem desesperadas por comprar, comprar, comprar, numa falsa e desenfreada euforia... Parecem estar todas no piloto automático, correndo atrás de coisas, coisas das quais não podem prescindir de jeito nenhum, e tudo tem que ser feito rapidamente, como se estivessem a contar os segundos que as separam da noite de Natal.

Noite de Natal... Natal quer dizer nascimento. A noite de Natal existe para pensarmos no nascimento do Menino Jesus, de forma pobre e precária, quase sob as estrelas... Existe para reencontrarmos tudo aquilo que é simples e puro por dentro... Existe para lembrar, justamente, que bens materiais nada significam. O importante é a estrela. É a luz que transforma as pessoas e as faz melhores.

Sim, o Natal é festa católica. É chamado "a data máxima da Cristandade." Mas nem por isso deveria ser circunscrito aos crentes. Mesmo um ateu pode enxergar beleza no simbolismo da manjedoura. Naquele momento de paz e ternura em que um pequeno grupo de pessoas se ocmove diante da majestade genuína de um recém-nascido, alguém que acaba de abrir os olhos e o peito para o mundo, seja santo ou não.

A tradição da troca de presentes vem dos Reis Magos, aqueles que viajaram céus e terras para entregar ao Menino Deus os seus dons. Sim, dons! Magos por certo, trouxeram ouro, incenso e mirra por seu valor verdadeiro, não pelo comercial. A pureza do ouro, a depuração pelo incenso e mirra. Assuntos espirituais, dons para proteger o menino. Não bens a serem consumidos.

Pois hoje, nas ruas, a olhar a multidão aflita dessas últimas horas, procuro em vão o sentido das coisas. O que se vê são apenas os sentidos. Todos querem tocar, cheirar, apalpar as coisas que não são do espírito, mas são do Natal. Natal igual a comida, igual a presentes, igual a ser, por um dia, algo que não se é. Natal onde o presépio fica esquecido, é apenas mais um item na decoração - de preferência, motorizado e todo iluminado artificialmente.

Ando pelas ruas com vontade de gritar... Desisto, recolho-me. Ando à cata de algo que faça sentido no meu sistema solar, um espelho no qual possa penetrar e olhar o Natal como São Francisco olhou sua cidade ao sair, nu, em busca do sentido da sua vida de santo, o santo que mais amou os pobres e os animais, e que escolheu a vida natural para expressar o seu amor por Deus e pela humanidade.

Amo o silêncio da noite estrelada em que Deus deu ao mundo o seu filho, o presente máximo e mais valioso, para que nos trouxesse a luz com que iluminar a caminhada. Amo o sentido do presépio, a gente comum que torna viva a santidade, pois santifica a vida em si a cada momento, só por existir, por sorrir acima de tudo, e por viver o Natal a cada dia na comunhão, na partilha e na fraternidade. Que enxerga o próximo como a si mesmo, o principal e mais difícil ensinamento daquele menino que um dia...

Ah, deixa pra lá. O importante é que o Natal existe, está no coração e não nas prateleiras das lojas onde, até próximo da meia-noite, muita gente se debaterá por um objeto qualquer que se pareça com a felicidade.

Que, como diz aquela velha e querida canção natalina, é brinquedo que não tem... Sim, porque não é brinquedo, é dom. E só pode mesmo estar dentro da gente...
Que o Natal dentro de ti possa ser muito, muito feliz.

sábado, dezembro 09, 2006

Dores de amores, essas passarão

Não importa a idade: no amor somos todos adolescentes. Os hormônios percorrem o corpo com aquela velocidade estupenda que nos faz viajar a jato do céu ao inferno em segundos, que nos dá falta de ar, taquicardia, que nos faz rir e chorar de qualquer coisa, por qualquer coisa, ao sabor do tanto que vai no peito, tanto que quase arrebenta a todo momento.

Adolescentes de fato e de direito na alma, confiamos. Entregamos. Aceitamos. Adoramos. Rimos sozinhos o tempo todo, lembrando dos tudos e nadas, sonhando com a hora de desafogar o amor, reparti-lo com o corpo, os olhos e a alma do amado, deixá-lo correr livre pelas praias da alegria de estar junto, mal seguramos os nossos sentidos, não pensamos em outra coisa que não o objeto do amor, ainda que às vezes nem consigamos nos recordar direito dos traços do seu rosto... O amor, na pele do amado, não tem defeito, tudo o que ele ou ela diz é lindo, interessamo-nos por tudo o que faz, gostamos de quase tudo o que gosta - e, se não gostamos de tudo, "perdoamos" na hora o que não nos agrada tanto assim. É tão bom viver da graça do amor!... Essa graça infinita que nos toca, nos dilui e engrandece... E que nos faz enxergar o mundo das alturas, com as cores alteradas para melhor, e nos torna bem mais pacientes para com tudo o que não seja o tempo-espaço que nos separa do ser amado.

É uma adolescência rica, viva, que funciona do mesmíssimo jeito em qualquer corpo, de qualquer forma, em qualquer fase da vida. Na linha do tempo, o que a distingue da adolescência propriamente dita é apenas um detalhe: na maturidade sabemos que vai passar. Jovenzinhos, acreditamos que vamos morrer se algo der errado, que não aguentaremos o baque, que nada além do amor é possível.

Na maturidade as coisas florescem iguais, as esperanças nascem iguais, chegam sem aviso e te envolvem na ternura, na alegria e glória de apaixonar-se. Estás assim a navegar no vazio, muitas vezes sem sentir - e de repente te cai alguém na vida. Que conheces na rua, na livraria, no trabalho, num bar... ou quem sabe recebes um email de alguém que leu um dos teus escritos? Não importa de onde vem o canto da sereia, mas ele chega e tu, por alguma razão, o escutas... e gostas... e teu coração o segue, a princípio devagar, ensaias um ar de engano, finges que não é bem assim, mas as cordas do corpo tremem, vibram daquele mesmo jeito que já vibraram um milhão de vezes, e agora nada mais parece fazer sentido sem essa expansão, sem esses balões de gás a ocupar todo o espaço do estômago, amassados pela dúvida, apertados pelas vias respiratórias... pronto, o amor tomou-te.

É infalível: tentas parecer adulto. Ou acreditar que és sério, que essas coisas não te afetam, que desta vez vai ser diferente... Mas há algo em ti que não te obedece, que teima em entregar-se ao sonho, à contemplação do amor, ao êxtase do amor, à fome que ele provoca e que, num minuto qualquer, torna-se insaciável, compulsiva, profunda, imemorial... E parece impossível viver longe do amado, qualquer cama fica enorme sem aquele ser ao teu lado, as noites ficam difíceis de varar, sentes saudade até quando estão juntos, o acordar só é bem-vindo se tiveres aqueles olhos a se abrirem sorridentes, gratos pelo encontro banhado pela luz do dia que começa... é isso, o amor povoou-te.

Enamorados, acreditamos em tudo. Só vemos o que queremos ver, só ouvimos o que o coração insiste em dizer (ou inventar)... Deletamos tudo o que não combina com aquele doce e fundo estado de sentir, aquela disposição infinita para ser feliz e fazer feliz, aquele gozo fácil de pequenos detalhes, cumplicidades, coisinhas dos dois... Esquecemos de pronto qualquer olhar mais avesso, um gesto contrário, um passo para trás... Uma certa dor nos espreita, mas a negamos e voltamos a mergulhar no ser-feliz-de-fadas que o amor plantou dentro da gente...

Mas a maturidade tem suas agulhas, ah tem. E às vezes elas nos espetam - de leve, mais ou menos, ou com toda força. E, muito a contragosto, começamos a perceber os sinais do amor que se vai, ou que ainda não foi mas quer ir, ou que disfarçou-se e agora mostra a cruel face do adeus. Mas não, não é possível, não queremos ver, vivemos ali a nossa verdade pura e abundante, ofertamos o melhor e o mais precioso, isso deve bastar, não?...

Nem sempre basta. Você não percebeu, porque não podia ou não queria ou não aguentava, mas o outro já não respira no mesmo ritmo. Já não te telefona tantas vezes, já não te sussurra ao ouvido, não dorme bem ao teu lado, tem tanto mais o que fazer... Esquece muitos combinados, não responde tuas perguntas, não quer tuas mãos dadas, os carinhos escorregam vãos pela pele ausente...

E um dia tu descobres que o teu amor, aquele lá que nutriste dentro do teu coração, está só. Que já não há comida. Que os sonhos se desentenderam. O objeto-amado-ausente já partiu de ti. Enquanto tu anseias, ele vaga. Se sonhas, ele viaja. Foge-te aquele espaço onde ambos cabiam tão confortavelmente. E, por mais que o tentes, não o encontras mais...

Te custa crer, eu sei. Uma dor fina vai penetrando os ossos da alma até quase rebentarem, e lá dentro cresce, cresce, cresce... Não te conformas, não acreditas, mas é em vão. Foi-se o amor, e o que vês é um estranho agora. Bate um constrangimento, entra um véu no caminho, e o coração comprime-se tanto no peito que parece que nunca mais conseguirás respirar de novo, que viver é muito mais perigoso do que parece, quando se enxerga o mundo com cara de todo-dia.

Para o sofrer de amor, não existe todo-dia; existe o dia-após-dia depois do amor acabado, sempre tão penoso, difícil de palmilhar, cada degrauzinho mais alto que o Everest... Um dia chora, outro finge que ri, depois de amanhã é uma febre de 40 graus, e segunda-feira - certo, Drummond, é isso mesmo, ninguém sabe o que será.

Com quinze anos no corpo, a certeza é só uma: morrer é uma questão de horas.

Já com quinze anos na alma e alguns, muitos mais no corpo, certezas já não são favas contadas. Sabe-se apenas que aquilo já aconteceu uma, duas, infinitas vezes... e que, um dia, após muitas esquinas, a gente vê que a dor ficou para trás. A gente sente que consegue respirar, ler, conversar, trabalhar, ir ao cinema. Dançar sem peso no coração. Perdoar praticamente qualquer vacilo, seu ou do amado de então. E evoluir na graça de saber-se vivo, pronto, nem mais nem menos. Normal.

Até que isso aconteça, porém, há que carregar a dor no silêncio da alma, ou aos gritos no escuro, desesperar-se na esperança do momento em que tudo vai passar - e abraçá-lo com o coração quando ele, enfim, chegar.

terça-feira, novembro 14, 2006

Jorge Palma

Ela estava lá há um bom tempo, como quase tudo que se quer baixar no eMule. Hibernava, esquecida e desesperançada, entre as centenas de canções da minha fila. E de repente, eis que de repente, encontro-a ontem inteiramente verde, o que significa pronta, baixada, liberada: "Like a rolling stone", de Bob Dylan, cantada pelo Jorge Palma - esse grande, grande artista português que só vim a descobrir há uns poucos meses, mas que fixou de vez residência entre os queridos da minha alma.
Não posso mentir: a gravação não é apenas caseira, é horrível. Escutar qualquer coisa, em meio ao burburinho geral e ao som abafado e distante, é uma façanha. Apenas adivinha-se ao longe o que seria, deveria ser, uma grande interpretação de Jorge Palma para um clássico da minha geração e da anterior, mas o resultado é precário. Dá a impressão que foi feita com um gravador desses pequenos, de repórter, por cima de um muro ou de um mar de gente talvez.
Mesmo com tudo contra, "Like a rolling stone" me emocionou. Porque só um fã de Jorge Palma, em seu ardor para proteger, preservar e cuidar de tudo o que diz respeito ao Mestre, poderia tê-la feito.
Jorge Palma é um desses artistas que os tempos velozes não fabricam mais. A um imensurável talento e bom gosto estético, sem falar nas ricas referências de seu vasto universo cultural, somam-se os dons do músico, irretocável ao piano, do compositor profundamente fértil e do arranjador de primeira. Em suma, é um verdadeiro escândalo.
Desde que o descobri, numa tarde perdida de junho, quando um amigo fez-me a gentileza de oferecer "Diz-me tudo", uma canção de outros autores que foi tema de uma telenovela em Portugal, algo em mim mudou. Já na introdução pude notar que estava diante de algo diferente, e senti que devia prestar muita atenção. Daí para cá, lancei-me à busca por esse pedaço que faltava no quebra-cabeça do meu sentimento da arte: ter Jorge Palma bem ao meu lado, um companheiro de viagem como o foram, desde sempre, Chico, Caetano, Gil, Milton, Ivan Lins e tantos outros sem os quais não poderia viver da forma que vivi até hoje.
Nessa busca encontrei toda a beleza das canções, e a alma do artista a escorrer por elas. Deparei-me, também, com vários lados de Jorge, um tipo verdadeiramente afeito à aventura de viver, encantador, disponível, muitas vezes perdido também. Mas o que realmente me explicou Jorge Palma foi o contato com seus fãs.
Cada fã de Jorge Palma é uma espécie de tradução da sua obra, um guardião sempre a postos para proteger alguma coisa. Uma canção, um fragmento de canção, um velho long-play, um retrato amarelo, as bebedeiras, os comprimidos, a letra das músicas que ele esquece, os atrasos para começar os shows... nada escapa a essa verdadeira legião de memorialistas que, unida, cuida dele e ainda oferece, generosamente, tudo quanto é informação relevante para quem, como eu, apenas começa a buscá-lo.
Fã de Jorge Palma é quem está sempre disposto a segui-lo na estrada, viajar umas centenas de quilômetros, ficar sem dormir e ir trabalhar no dia seguinte. É a turma que está pelos 50 e também a galera que está pelos 20. É quem se sente só mesmo acompanhado, é quem se estranha no espelho mas é capaz de voar no trapézio e dizer "Bom-dia!" ao mundo quando se enamora. É toda uma tribo que passeia entre o avesso e os prodígios, mora no bairro do amor e acredita que não há passos divergentes para quem se quer encontrar.
É alguém que grava "Like a rolling stone", mesmo que não dê pra ouvir direito, só para que o momento não se perca.
Jorge consegue esses milagres, será talvez o único num tempo meio sem cor, cada vez mais longe da poesia. Mas Jorge é poesia, e enquanto poesia desfaz as rimas previsíveis, solta-se no ar preso apenas no fio elástico da sua arte, para que esta o leve aonde não poderia ir apenas com suas próprias pernas.
Jorge Palma, sempre com o coração às tantas, emociona de verdade. É a melhor fotografia do sonho que começa e acaba, para começar de novo, nas canções. E os fãs, que tudo sabem e guardam no silêncio, são capazes de adorar, redimir, perdoar e amar incondicionalmente. Cuidam dele, se o momento exige; erguem-no à glória, quando é tempo de glória. É como uma família, uma estranha corrente de luz a circundá-lo.
Por isso é que essa "Like a rolling stone" furtiva, confusa e abafada é muito, muito importante. Porque parece dizer ao Jorge que, onde quer que ele for, alguém irá ao seu encontro na estrada. E estará com ele para o que der e vier.
Ave, Jorge Palma, e seu séquito "palmaníaco". É uma honra enorme, para mim, fazer parte dele.

quinta-feira, novembro 02, 2006

De amor

De amor, sim, o meu coração fala. E porque hoje, por estes hojes, o amor voltou-me à pele - e espraiou-se sobre mim com a ternura e a fúria das marés, com a carícia de um beijo de espuma e a força das vagas a se quebrarem sobre as rochas. E, se faz-me desmanchar no ar de tanta felicidade, empurra-me também pelo despenhadeiro das angústias, arremetendo-me rumo ao nada à velocidade da luz.
Entre o êxtase e a incerteza, vivo a reaprender o caminho de um outro olhar, que ora perto, ora distante, contagia-me de doçura. Com o amor vieram memórias ancestrais num novo corpo que me olha com olhos pequenos e vivos, toma-me como um leão faminto no deserto, e ainda assim guardando toda a força num silêncio turvo de emoção... Um amor feito de palavras habilmente tecidas, mesmo quando emprestadas a livros, poemas, lembranças... de delicadezas armazenadas, antigas e perfumosas... e de distâncias vencidas, sonhares acordados, esperanças alvoroçadas, caminhadas sob o luar e a brisa noturna da praia...
E também de sustos contidos. E medos. E recuos, vieses. Amor por vezes entretravado, presa de dúvidas. E saudades, horas de não entender, exílios no corpo, tempo sem beijos, a respiração custosa, a alma com falta de ar.
Amor que me fala aos pedaços no ouvido, como se falar inteiro fosse de repente doer, fazer fugir a alma entre os dedos... enquanto arde o suspiro, o bafejo de felicidade, palpitam as veias amedrontadas, e se faltar o sangue, e se sumir-me a cor, e se eu não puder suportar esse excesso de vida? Vida que ele próprio traz e devolve, esse amor, e altera o corpo todo, uma cascata de luz a inundar-me e a vazar por todo lado, amor, esse amor que peralteia em torno de nós como um destino novo, pronto para usar e abusar!
Sinto falta do sotaque desse amor a enternecer-me os sentidos, de sua singularidade e presença a um tempo seiva e pão, um leito macio feito de pequenas histórias e ternuras, o marulhar da alegria amorosa sobre o cascalho das noites, o aljôfar que
chega com o dia e me toma em seus braços, suaves e saciados, leves como o lençol que nos vem velar o sono.
O meu amor é uma segunda pele na alma, um corpo gêmeo de mim, uns olhos que tecem carícias molhadas de luar.
Há horas em que se esconde, há dias em que parece arrefecer, há instantes em que se ausenta de si mesmo. E aí minha alma escorre pelos cantos, a buscá-lo onde estiver... E meu peito se agita quando não o consegue encontrar, o medo tenta forçar a porta, arrancar-me o ar... mas o meu amor, lá no fundo bem dentro de mim, deixa escapar um suspiro de saudade, põe sua mão na minha, reencontra minha boca e respira-me devagar, com cuidado, com certeza. E minha alma, suavemente, recupera a cor.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Flip 2006, na palma da mão - I

Desde 2004 que a Festa Literária Internacional de Parati me vicia irremediavelmente. Tem o sereno e o ancestral do ambiente a construírem pontes, tem a franqueza da palavra que é partilhada sem avarice, a informação em doses generosas, a normalidade medida pela quantidade de monstros sagrados soltos na rua, a se misturarem aos mortais. Por essas e outras, sou uma dependente confessa da Flip, para onde me dirigi no último dia 9, como faço sempre, uma espécie de rito sagrado a dobrar meu ano literário.
Cheguei cedo, depois de uma viagem algo difícil, administrando um sensível estômago por entre as curvas sinuosas de uma estrada longe da perfeição. Por volta do meio-dia, já está o clima instaurado; a imponente Tenda dos Autores e seu colorido, a Livraria da Vila com sua organização paulistana, os livros classificados por mesa, até edições em línguas originais.
Dei a volta habitual, reconhecendo e repalmilhando o terreno; alcancei a praça, o célebre Bar-Restaurante Coupé com seu charme antiguinho, as ruas que vão dar nas correntes próximas do mar. Ao cruzar a pontezinha embandeirada entre a Flip e a Rua do Comércio, vieram as saudades claras e finas do ano anterior, recheadas da memória de meu encontro com um homem chamado David Grossman.
De tudo o que vi e ouvi, vivi e recebi na Flip 2005, ele foi certamente o melhor, o mais perturbador e mais pungente. David Grossman me chegou na última mesa do primeiro dia, com sua simplicidade boa, um certo ar de sem jeito e uma sinceridade sem limites. Conquistou-me com a verdade da experiência de vida e a transparência das almas vastas. Com ele percorri a Faixa de Gaza e pude compreender sentimentos que, até então, nunca me haviam atingido de verdade. O que antes era informação, fatos jornalísticos, transformou-se em emoção, num certo saber o outro que me modificou profundamente.
Senti-me imediatamente próxima daquele homem do seu tempo, revolucionário a seu modo, surpreendente na sua verdade. E busquei o momento de continuar a conversa, por conta de uma intimidade brotada, uma súbita igualdade incorporada à alma. No domingo, após uma das mesas da tarde, fez-se a oportunidade. Cumprimentei-o e falei sobre o que sentira ao ouvi-lo. Com a mesma naturalidade, pedi para tirar uma foto, com direito a sorrisos e gracejos: "Mas preciso saber mais sobre você; assim fico sabendo com quem estou sendo fotografado..." Tudo tão simples, tudo natural, como diz a letra de uma das músicas "natureza" da minha juventude.
Na mesa de encerramento, que trata dos livros de cabeceira dos escritores convidados, David falou da Metamorfose, de Kafka. E reafirmou seus compromissos da vida inteira com a humanidade e a paz, "como homem, como pai de família, como ser humano, como escritor e em todas as instâncias da vida."
E depois, um brinde à emoção: a Flip 2005 foi encerrada ao som de The Sticker Song, um hip hop composto por ele, em parceria com um grupo musical israelense, com base nas palavras de ordem encontradas em adesivos que ele colecionou, comuns em seu país e que carregam as mais variadas mensagens.
Saí na correria para buscar um sanduíche antes de retornar ao Rio; na volta à pousada, cruzei a ponte e lá o encontrei de novo. Simpático e solícito, veio apertar-me a mão e então perguntei sobre a canção. "Você só tem de se lembrar do nome Hadag-Nahash". Prometi lembrar-me e, graças a isto, pude obter na Internet uma versão para download que tornou-se uma espécie de hino em homenagem a esse homem tão importante para a humanidade, um escritor prolífico e imaginativo, pacifista e militante na rota dos sonhos de paz no Oriente Médio, com quem passei a me corresponder desde então.
Ainda estou na cabeceira da ponte, é 2006, a Flip é nova e cheia de experiências, sentidos e sabores. David, ou a memória renovada do encontro, ainda está comigo na travessia. O domingo final já não tarda, e ainda não posso saber o que ele me trará.
Três da tarde, encontro de Nicole Kraus com Edmund White, rico em experiências diversas e tocantes: a escritora qualifica como "magnífico" o romance "Ver:amor", um dos mais importantes da obra da David Grossman. White concorda e conta que escreveu a crítica do livro para o New York Times, quando foi publicado nos EUA. E então, assumindo um ar mais sério, comunica à platéia: "A propósito, tivemos hoje a notícia de que o filho de David Grossman foi morto num ataque na fronteira do Líbano".
Morri enquanto minha alma gritava, e a dor veio inteira, como uma intoxicação por raiz-forte. O ímpeto de sair correndo da sala foi contido pelas lágrimas que brotaram imediatamente, como se a alma tivesse sido passada numa máquina de afinar macarrão. Desapareci na cadeira e lembrei-me de todas as vezes que, desde a invasão do Líbano por Israel, pensei no rapaz - sargento do exército israelense - e pedi a Deus, egoisticamente, que ele não tivesse sido enviado para lá. Há que pensar na humanidade, reza o politicamente correto, e não somente no nosso quintal. Mas é inevitável, quase que um reflexo, lembrar primeiro de quem se conhece. O David é minha referência e sempre lamentei a sua aversão natural pela Internet, que me impede de mandar um email após cada notícia ruim sobre os conflitos na área.
Penso na dor daquele homem, uma dor que ninguém conhece ou sequer chega perto. Apenas três dias antes, ao lado de Amos Oz e A. B. Yeoshua, David tinha tomado posição em favor de um cessar-fogo urgente, temeroso quanto às proporções que a guerra tomara. Penso no pacifista que me ensinou que é preciso vestir de verdade a pele do outro, buscar o que de melhor existe nele, para chegar à paz sonhada há tantos milênios. Penso no duro teste para o militante comprometido com as causas da humanidade, que tantas vezes se despiu de qualquer caráter nacional para falar unicamente dos seres humanos que precisam ser salvos e ter sua liberdade e dignidade restituídas.
Diante da tragédia, David é apenas um pai que enterra o seu amado filho, que lhe foi tirado na flor dos 20 anos. É igual a tantos libaneses que perderam seus filhos num conflito de ódios baratos, impensável em contexto já tão conturbado. É igual, também, a tantos palestinos que têm a mesma sorte todos os dias.
Igual, sim, mas há uma diferença. David Grossman colocou sua vida a serviço da paz, do entendimento, da justiça. E sempre viveu do combustível de sua entrega. A promessa de ser, sempre, uma voz contra o arbítrio de toda sorte, vem sendo cumprida à risca, com a maior presença e honestidade. Agora, sente esse mesmo arbítrio cortar-lhe a carne no que há de mais precioso, mais profundo, mais básico na vida de um pai ou mãe: proteger o filho, cuidá-lo, dar-lhe segurança.
Meu coração está com David Grossman em seu luto. E, mesmo diante do horror que vivemos, penso em tudo o que aprendi com ele: só podemos nos salvar se tivermos a coragem de enxergar o outro, conhecer sua alma, e ver que, afinal, ele é igual à gente.
A ele, a minha homenagem, o meu respeito e a minha eterna solidariedade.

sexta-feira, julho 14, 2006

Auto-estranheza

Hoje me estranhei comigo mesma. Isso há tempos que não me acontecia, e confesso que não estava lá muito preparada para passar o dia com um certo incômodo na área do estômago, a avisar-me que as coisas não andavam bem.

É difícil desculpar-se consigo mesmo, justificar-se diante da própria alma, dar explicações com o ego olhando pra nossa cara. Até porque, ia adiantar o quê mesmo? Aos olhos interiores, tudo é transparente. O malfeito é malfeito, o descuido é descuido mesmo, de nada servem palavras bonitas. A alma se desloca, o sentimento de inadequação penetra-lhe os poros cansados.

Fiz bobagem, sim. Precipitei-me em terrenos que não adivinhava movediços - e de repente vi-me tocando sem autorização o intocável: os sentimentos alheios. É ruim olhar e ver que, de fato, "foi mal", como diz a geração da minha filha. É difícil e sem jeito - e nem há como despistar. Pra quê, pra quem? O jeito é olhar de frente para a dor e o desconforto, a incapacidade, o gesto infeliz, a coisa errada no momento errado, atingindo o alvo errado. Ainda que o passo não tenha sido bem avaliado, o que importa é mesmo o resultado, não?

Contabilizei resultados ruins hoje. Reversíveis, possivelmente, mas ruins. Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu, disse uma vez Chico Buarque; mas tem dias que a gente age como quem quebrou porcelana rara. E nessas horas é que é difícil consertar.

Sinto-me assim, hoje; falei antes de pensar, fui com muita força na curva e o retorno ficou prejudicado. Reconheci, desculpei-me, mas sinto-me mal. O estômago ainda anda oprimido. O desconforto não me abandonou.

Mas a reflexão é útil; é bom saber o erro bem visível, por mais que incomode. É bom saber que, mesmo quando se erra, a meta é não errar, e esta persiste. É bom saber que, em meio a tantos estímulos a nos cegarem os sentidos, ainda podemos enxergar, com toda clareza e verdade, a parcela de responsabilidade que nos cabe por cada palavra que sai da nossa boca, por cada gesto canhestro e mal calculado. Alguém com certeza será atingido - e os resultados podem ser imprevisíveis.

De frente para mim mesma, encaro o espelho da alma. Está mais do que na hora de comprometer-me com a minha própria humanidade.

quinta-feira, julho 13, 2006

Paixão renovada pelas palavras

Lá vem a Flip de novo... e lá se vai a minha alma, de armas e bagagens, pra Parati. Pelo terceiro ano consecutivo, aproveito a felicidade mansa de presenciar encontros com o que há de melhor no pensamento contemporâneo, na literatura urgente ou na memória das grandes obras.
A Festa Literária Internacional de Parati não é festa por acaso, nem é sucesso por acaso. É festa porque celebra, de fato, a literatura como ponte entre culturas, cabeças e ideologias. Como flagrante do tempo de hoje ou retrato, em vivas cores, do tempo de sempre. E é sucesso porque identifica e atende muito bem à demanda pelas palavras verdadeiras, vigorosas e sem maquiagem que constroem o agora. Ou pelas palavras emblemáticas que nos fazem visitar as fronteiras do tempo. Enfim, a paixão por palavras tem público, e que público! Gente que não se perturba diante da perspectiva de passar, por exemplo, uma manhã inteira sentada numa fila civilizada, em plena Copacabana, para garantir seus ingressos logo na primeira hora, e de uma só vez.
Participei ontem dessa fila - que na verdade foi o meu primeiro evento pré-Flip 2006. E confesso que me diverti com o clima descontraído que se criou na antiga galeria do Bruni Copacabana, o saudoso cineminha que, demolido, deu lugar à ampliação da sofisticada loja Modern Sound, a meca dos fanáticos por música onde seriam vendidos, a partir do meio-dia, os almejados ingressos para a Flip.
Rato de livraria que se preza tem prazer em compartilhar. E na fila da Flip não foi diferente; as pessoas se organizavam naturalmente, procuravam acomodar-se e ajudar as outras, promover tranqüilidade e criar alguma graça com que passar o tempo - tudo isso de um jeito bem carioca, sem estresse.
Um pouco de cansaço? Sim, vá lá, concedo. Mas foi quase nada. Eu, que cheguei munida de um prático banquinho de armar, nem precisei dele; acabei emprestando e me sentei no banco da fila (é verdade, havia dois, um para os idosos e outro para o público em geral), batendo papo com os vizinhos e assistindo, de camarote, ao sol que se insinuava pela Rua Barata Ribeiro com sua loja de frutas que um caro amigo adorava, a lojinha nova da Cafeína e o distinto Clube Israelita Brasileiro.
Consegui meus ingressos, todos eles. Não sem uma generosa dose de burocracia, que dava uma prévia do que viria a ser o dia dos atendentes da TicketMaster. Um pouco de confusão na primeira hora, ansiedades à solta, mas reforço meu estoque de paciência, respiro fundo e espero, aliviada, a minuciosa contagem e conferência dos ingressos. Entrego a procuração que garante a meia-entrada de uma amiga e assisto, sem acreditar, à "carimbagem" e preenchimento dessas entradas, uma a uma, pelo atendente. Lá fora, a fila começava a enlouquecer com os 40 minutos que levou o atendimento das primeiras três, quatro pessoas. Quanto tempo levariam as centenas de outras que aguardavam?
Há que se reconhecer: a Flip tenta, a cada ano, melhorar a venda dos ingressos. E até tem conseguido progressos, mas como agradar a todos? O evento é um só, mas a paixão das pessoas é maior que ele e cresce a cada ano, então...
Desta vez, consegui. Outras pessoas também conseguiram. Na saída, despeço-me dos novos amigos que, alegres, já marcam encontros na entrada da bela tenda, encantados com a programação intensa e promissora.
E desço a Rua Santa Clara com um doce cheirinho de tinta sobre papel a preencher-me a alma.

Quem é vivo sempre aparece

Apesar do lapso - quase 10 meses! - a parte viva de mim está feliz em reencontrar, reassumir esse espaço com boas palavras e idéias. Não é que elas - as palavras e as idéias - tenham arrefecido nesse tempo; não, muito ao contrário. O que pesou foi, como disse Ruy Guerra no histórico Calabar, é que há distância entre intenção e gesto. Uma vez encurtado esse caminho, cá estou eu de volta ao ciberespaço com gestos prontos a materializar a intenção de sempre: informar, discutir, criar, traduzir sonhos, manter viva e acesa a chama do espírito jornalístico.

Reencontros

Naquilo que tem de melhor - a democracia do espaço e a rapidez da informação - a Internet pode ser um presente de fato. Nesse particular, tenho sido agraciada ultimamente com muitas alegrias.

Nos idos de 1974, participei de um programa de intercâmbio chamado AFS (American Field Service), que me deu a chance de morar por 11 meses nos EUA e aprender muito, mas especíalmente três coisas: falar inglês, me virar sozinha e dar muito, mas muito valor à amizade.

Éramos muitos, uns 170 ou mais, do Brasil inteiro. Todos muito jovens, entre 16 e 18 anos, e muita vontade de ver qual era. Quase sem lenço e sem documento; só sabíamos, de fato, que íamos viver como uma família e, supostamente, ser tratados como filhos na casa. Ah, e também freqüentaríamos a escola por lá.

E assim foi; ganhamos irmãos, pais novos, muitas vezes avós - e professores, colegas, namorados. Discos e livros e muito mais. Passamos sufôco, solidão, saudade, sentimentos de inadequação, grandes alegrias, muito aprendizado.

Hoje, 31 anos depois, a Turma do AFS do ano letivo 74-75 (é, lá o "ano" é diferente) está de volta, todos de novo entre 16 e 18 anos na alma, num grupo do Yahoo que está virando a cabeça, dando palpitação, frio na barriga, vontade de rir e chorar, ansiedade louca para ver qual o próximo nome que foi "achado" na rede.

Alguns já conseguiram se encontrar: a turma de Porto Alegre, a de Belo Horizonte, a de São Paulo... outros ainda suspiram pelo "ao vivo", mas se escrevem e telefonam, na esperança de diminuir a distância imposta, física...

Mas no coração estão juntinhos, com as mesmas roupas, cabelos e sonhos. Igualzinho antigamente, parece que foi ontem, é tudo muito verdadeiro, sincero, inocente mesmo.

No que tem de melhor, a Internet está sendo salvadora e essencial na vida de toda essa gente - da qual faço parte desde que tomei aquele avião fretado das Aerolíneas Argentinas, com aeromoças rabugentas, que parecíam velhíssimas por trás de tanta maquiagem e sorrisos de plástico.

Hoje, quando abro meus emails, não consigo deixar de pensar em como a tecnologia pode, às vezes, guardar algo de divino sob sua capa aparentemente mecânica.

Mas as surpresas da web têm sido ainda maiores. Um belo dia, um lindo dia, estava eu a abrir o Outlook quando vejo, assim do nada, um email que dizia: Azul! Azul! Azul! Achei você!

Na assinatura, Vera Matagueira.

Juro que, se não estivesse sentada, desmaiaria de verdade. E voltei 20 anos no tempo - dessa vez um outro tempo, a época da faculdade de Comunicação em Botafogo, no Rio.

Estudávamos na célebre Facha (Faculdade Hélio Alonso). Nossa turma começou em agosto de 78 e, desde o primeiro período, um grupinho acabou se juntando. Vera Lúcia Lima Matagueira era uma jovem extremamente crítica e animada, de profundos óculos, sempre pronta a contestar e a participar de vários modos. Filha de portugueses, morava no bairro, assim como eu: vivia numa ruazinha que desemboca na Rua da Passagem, e eu, numa vila bem no começo da São Clemente.

Estávamos sempre juntas num grupo que incluia também Ana Lígia, Virgínia, Nilcéia, Astênio, Marquinho e outros. Todo mundo trabalhava de dia em outras coisas. A Vera era uma das únicas que já estava em agência de publicidade; eu, Ana e Virgínia éramos secretárias; Nilcéia trabalhava na saúde e os meninos, em escritório. Quase ninguém estava ainda perto do sonho de tornar-se jornalista, mas era como se fosse; íamos a tudo quanto era debate, assinávamos todo tipo de manifesto, arriscávamo-nos nas cordas bambas da reta final da ditadura militar, desabridos como todo jovem idealista diante de um perigo tentador.

Uma dia Vera, quem diria, apaixonou-se... e resolveu emigrar pra Portugal. Lá foi ela com sua energia, alegria, inteligência e sonhos, muitos sonhos de artista e de mulher. Ficamos todos na torcida, pensando em quando poderíamos cruzar o tanto mar pra visitá-la. Um tempo depois, tristeza e apreensão: alguns castelos por lá desmoronaram, e a amiga deprimia-se. Preocupados, tentávamos consolá-la, mas por telefone ou carta fica sempre mais difícil. Chegamos a pensar em trazê-la de volta fazendo uma vaquinha, mas, com nossos parcos recursos, não conseguimos. A preocupação, o carinho e as cartas continuaram por um bom tempo. Depois, um certo silêncio acabou se instalando.

Lá um dia... AZUL! Chegou a primeira carta boa, claros ventos de Lisboa, uma luz no fim do túnel. Vera rompeu de vez com a tristeza, arranjou um bom emprego, aprumou-se na vida e na alma - e venceu na terrinha! Alegria geral. Por um bom tempo nos escrevemos, telefonamos... mas a rotina e a loucura são inexoráveis, acabam separando as pessoas.

Até que... bem, o resto vocês sabem. O coração está mais azul porque Vera me achou na rede. Com a facilidade e a rapidez do email, estamos juntas quase todo dia. Mesmo com tanto mar pela frente.

domingo, outubro 09, 2005

Poder de síntese

É verdade, eu assumo: deixei vários assuntos penderem esta semana. E fiquei pensando em como fazer para incluí-los todos aqui, sem escrever umas 80 laudas de texto (será que em texto eletrônico podemos falar em "lauda"?). Ora, ora, o jornalista precisa evocar o seu poder de síntese e passar a mensagem com clareza e economia, né mesmo? Pois então vamos lá:

De novo o cenário: até na Criação ele se mete

Parece que o Teatro Municipal do Rio assumiu de vez, nesta temporada, a opção pelo cenário. E no caso do poderoso balé "A Criação", essa opção não poderia ter sido mais infeliz. Na verdade, foi um pesadelo. Num espetáculo de concepção coreográfica vibrante, intensa e que, por isso mesmo, precisava imensamente de todos os espaços e possibilidades para crescer, destacou-se mais uma vez quem? O cenário, ou a intenção de um cenário, traduzida na projeção, numa tela gigantesca bem no meio do palco, de aquarelas de Francisco Clemente.
Ora, já houve outros espetáculos que compuseram cenário com projeções. Foi o caso de Romeu e Julieta, mas daquela feita foi um acerto: as projeções em tela escura, no fundo do palco e contrastando com os dois planos da cena, davam destaque aos bailarinos, à coreografia e à trama.
Em "A Criação", a projeção em tela quadrada tornava os bailarinos pequenos demais, quase insignificantes, a despeito do seu esforço e competência para desenvolver a coreografia. A iluminação não os ajudou em nada: a projeção, aliás de gosto duvidoso, além de não contribuir para o entendimento da proposta, parecia um desmesurado totem acima do bem e do mal, a condenar os pigmeus ao fogo eterno.
Quando a colaboração com um artista plástico ajuda e enriquece a obra, não há o que objetar; mas desse jeito, está difícil conviver com intervenções que dificultam a vida dos artistas.
Sorte que o Balé do Teatro, com suas estrelas e o corpo de baile, não está nem nunca esteve aí para brincadeira. Todos incorporaram o poder da música de Haydn e a força da coregrafia de Uwe Scholz e brilharam de verdade. As palavras do corpo foram mais eloqüentes do que a pirotecnia. Destaque, na noite do dia 30 de setembro, para Cecília Kerche, impecável como sempre, e Bruno Rocha, que aliou à fantástica técnica um sentimento incrível. Sem esquecer Vitor Luiz, Wellington Gomes, Márcia Jaqueline, Norma Pinna, Rodrigo Negri, Reginaldo Oliveira, Renê Salazar e o sempre irretocável corpo de baile.
Um apelo ao diretor artístico Fauzi Mansur e à direção do teatro: urge segurar a onda de artistas plásticos e confiar na boa, velha e sempre competente cenografia. Que tem lá suas estrelas, ah isso tem, mas costuma respeitar os artistas em cena.

Márcia Coragem Haydée


Aliás, por falar em Teatro Municipal, meu aplauso à grande profissional que é Márcia Haydée, eterno orgulho dos brasileiros. Na noite de 5 de outubro, ela reuniu toda sua coragem e parou, literalmente, o espetáculo do Balé de Santiago a poucos minutos do início. O motivo? Problemas com os canhões seguidores. Problemas reais, evidentes para a platéia, que ela confessou ter enfrentado desde a véspera, sem solução. Diante de um Municipal lotado, Márcia pediu desculpas mas disse que só continuaria quando os canhões fossem consertados.
Admirei sua hombridade: é claro que ela não poderia deixar que a técnica pusesse a perder todo o seu trabalho e investimento na versão de "Carmen" que idealizou para a companhia que dirige. Isso independentemente da felicidade ou não da produção, em alguns momentos até questionável; mas todo profissional dentro de um teatro do calibre do Municipal, desde o diretor até o servente, precisa se conscientizar do seu papel. O show, apesar de tudo, deve continuar.
O protesto sincero e firme da estrela, ainda que criticado por alguns, surtiu o efeito esperado e, em meia hora, lá estavam acesos, lépidos e fagueiros, os três canhões seguidores que há um dia e meio mal funcionavam. Reparo, diga-se de passagem, bem rápido.

Festival do Rio

Com arrepios de felicidade experimentei, nas últimas duas semanas, as delícias de entrar num cinema ao meio-dia e só sair quase à meia-noite, com a derrière quadrada mas a alma lavada. O Festival do Rio, entre mortos e feridos, salva-se inteiro! Aliás, é a salvação dos cinéfilos, pois nos traz a doce ilusão de que há cinemas, e muitos, na cidade, sempre cheios, com lugares para as melhores fitas (fitas, sim!) disputados a tapa nas bilheterias. E filas de cinco, seis horas para conseguir um passaporte para assistir a, pasmem, cinqüenta filmes!
As animadas sessões de meia-noite tinham cheiro de conspiração, no clima anos 70 que nos fazia achar que salvaríamos o Brasil pela arte. Assistir a um filme potencialmente revolucionário era uma atitude política obrigatória para todos os universitários que se consideravam parte da esquerda, contra a ditadura e ligados, de alguma forma, aos movimentos estudantis ou populares que sobreviveram aos anos de chumbo.
Nem adianta discorrer sobre as minhas preferências: prefiro mesmo é falar do Festival, com tudo o que ele desperta num público variado e diversificado, que tem em comum a paixão pelo cinema.
É um momento excelente para lembrar das muitas salas de exibição aniquiladas pelo poder econômico, e que há tão pouco tempo faziam a nossa alegria em tempos de festivais: os recém-falecidos Jóia e Espaço Leblon, o Rian, o Pax, os Cinemas 1, 2 e 3, o Bruni Copacabana, outros tantos na Cinelândia que conviviam em harmonia com o querido e felizmente preservado Odeon, mas que foram demolidos ou viraram igrejas.
No Festival do Rio, os deuses do cinema fizeram a festa da ressurreição e mostraram que o coração do carioca precisa, desesperadamente, de filmes nos quais pensar, com os quais sonhar, com os quais compor a identidade de sua paixão pela sétima arte.
Que venham os próximos 400 e tantos!

A terra treme

A fúria de 2005, no que toca a desastres naturais, tem sido imensa e destruidora. E o saldo, triste demais. Após o Katrina, o Rita e o Stan, temos agora Paquistão, Caxemira e Índia imersos em dores incuráveis, angústia e agonia para salvar o que ainda resta.
Na Flip 2005, Salman Rushdie afirmava que escreveu o livro "Shalimar, o equilibrista" para que as pessoas tivessem uma idéia de como era amorosa e pura a vida na Caxemira que ele conheceu na sua infância e que, vítima de disputas sangrentas entre a Índia e o Paquistão, acabou conquistada e varrida do mapa. Pois dessa vez varreram mais. Aliás, "aspiraram" o que ainda podia restar daquele mundo: o epicentro do terremoto que chegou a atingir 7,6 na escala Richter foi justamente lá, na Caxemira ocupada.
Com saldo de milhares de mortos e prejuízos incontáveis, os países atingidos clamam por ajuda, que está chegando lenta e difícil por causa da inacessibilidade das áreas atingidas. Muita dor para um mundo combalido pelo efeito avesso da globalização, disputas de poder e uma pobreza cada vez maior. Falta justiça até na natureza, devastada e, por isso mesmo, alterada em seu curso.
Será que não dá para alguém parar para pensar em construir alguma coisa, melhorar alguma coisa, em vez de ficar só pensando em subjugar, dominar e conquistar?
Tanto se distrai o rei das coisas essenciais que acaba nu - ou, como agora, submerso ou soterrado.

terça-feira, outubro 04, 2005

Adeus à favorita

"Ela é fã da Emilinha
e do César de Alencar
dá um bote no Cauby
pra depois desmaiar
Pega a Revista do Rádio
e começa a se abanar!"


Desde que o mundo é mundo, as gerações se lamentam sempre que um pouco do seu mundo começa a ir embora para dar lugar ao novo. E logo vem alguém a rotular: "Saudosismo! Bobagem!". Uns concordam, outros não; eu, mesmo sentida, às vezes devo admitir que, de fato, nada é para sempre mesmo.

Mas há coisas que, apesar de muitos pesares, se mantêm vivas dentro das culturas. Não é que o nosso Brasil seja lá tão rico nessas raridades, mas ainda guarda algumas permanências que emocionam.

Uma delas é o fã-clube da Emilinha Borba, de sempre grata lembrança e sorriso brejeiro, estrela que gerações e gerações aprenderam a admirar. Ao ver hoje as comoventes cenas do velório e do enterro da eterna Favorita da Marinha, não pude deixar de me emocionar com a melhor lembrança que guardo dela, traduzida no imenso amor que seus fãs de todas as épocas sempre lhe dedicaram.

Já não me lembro mais quando foi, mas lá se vão pelo menos uns 25 anos. Um belo dia eu, apaixonada por carnaval e ratazana de todo tipo de espetáculo que acontecia entre o centro da cidade e o final do Leblon, resolvi assistir a um show na Sala Funarte, com Emilinha Borba e Jorge Goulart. Nó repertório, claro, só as marchinhas que embalaram minha infância de coração trepidante, ao som das baterias e ao sabor do cheiro de lança-perfume importada que, naquela época, ficava mesmo só no ar - e dava às ruas de minha cidade um aspecto de realeza, ainda que diante de monarcas de lata com seu séquito de índios, tirolesas, baianinhas e piratas.

Na bilheteria, espanto-me ao saber que só tem lugar no chão. Topo a parada e vou me sentar bem lá na frente, quase rente ao palco. Logo ao entrar, não posso deixar de observar a platéia povoada por doces senhoras como a minha mãe, minha avó, as primas de minha avó, todas sem dúvida egressas, via túnel do tempo, dos auditórios lotados da Rádio Nacional das décadas de 40 e 50.

Em pouco tempo, a sala está que já não cabe uma mosca. No meu cantinho, puxo conversa com dois entusiasmados senhores que não economizam detalhes de sua rica história de fãs; penalizados com minha total ignorância sobre os momentos mais cruciais da vida da estrela, tratam logo de me atualizar. E nos poucos minutos que antecedem o início do espetáculo fico sabendo tudo, mas tudo mesmo, que se passou com Emilinha Borba nos últimos quarenta anos.

O entusiasmo dos dois artistas, que desde a infância me acostumei a ver no Almoço com as Estrelas do Aérton Perlingeiro, aqui se confunde com o entusiasmo da platéia, que não desdenha uma letra sequer; todos cantam todas, gritam, aplaudem, festejam. E eu me sinto feliz por participar, sentir de perto essa força.

"Como, você nunca falou com ela? Coitada!!! Ah, mas isso não pode ficar assim de jeito nenhum!", diz um de meus novos amigos. Súbito, no auge da Chiquita Bacana, eis que sou erguida pelos dois até, pasmem, a altura do palco, para apertar a mão da Emilinha! Do alto de sua baiana de prata, a bela me estende o braço recoberto de pulseiras e oferece a mão e o sorriso. Um tanto ofuscada pela euforia, percebo as serpentinas e confetes no ar, o movimento das dançarinas ao fundo, quase como em câmera lenta; atrás de mim, os aplausos e os gritos continuam.

Satisfeitíssimos, meus companheiros me descem e o show continua. Alegria pura e sem vaidades, o ritmo velho conhecido das marchinhas renovadas, esperançosas de viver para sempre no coração de quem canta, seus males espanta, Colombina, onde vai você? Eu vou dançar o iê-iê-iê! Emilinha toda prosa, nostalgia cor-de-rosa, muita, muita gente feliz.

Na saída do teatro, meus agora amigos para sempre fazem questão de me levar, Cinelândia adentro, até o ponto do ônibus que devo pegar para Laranjeiras. No caminho, apontam para o último andar do prédio do Amarelinho e dizem: "Lá em cima é a sede do nosso fã-clube. Tem todas as faixas de Favorita da Marinha, fotos, muitas coisas. Ah, e todo mês nós fazemos um jantar em homenagem a ela! Sempre que está no Rio, ela faz questão de prestigiar!".

Isso sem falar nos presentes, inúmeros e freqüentes, com que os fãs sempre fizeram questão de mimá-la. "O único que ela não aceitou foi uma grande cama de casal", explica um deles. "O marido, na época, não concordou", suspirou o outro.

Democráticos, elogiam Marlene. "Não temos nada contra a outra, claro. Somos amigos dela também", concedem.

Desde esse dia passei a acreditar que o fã-clube da Emilinha, como todo bom fenômeno sociológico, devia ser estudado. Tema de tese de mestrado e doutorado.

Mais recentemente, uma matéria do Jornal Hoje mostrava Emilinha, cheia de energia, vendendo e autografando seus CDs na Cinelândia. "Aqui vocês compram direto da fonte e ainda ganham o autógrafo!", brincou, lembrando a falta de espaço, nas gravadoras, para as boas e velhas marchinhas. Achei lindo, corajoso, a cara dela.

Hoje, ao ver a mesma Cinelândia tratá-la praticamente com honras de estado, enquanto seus fãs lotavam a praça e cantavam sua tristezas nas letras de seus sucessos inesquecíveis, senti que o mundo ainda pode ser bom, que ainda é possível cultivar lembranças que, de tão doces, tornam-se alento para a vida inteira. Ao largo da família e dos amigos, anônimos aos milhares, os rostos marcados pelo tempo e alguns até com dificuldade de caminhar, retribuíam a Emilinha toda a alegria e inspiração que ela lhes trouxe. Se esse Brasil que fez de Emilinha Borba uma estrela de gerações ainda está vivo e é capaz de chorar cantando, em uníssono, na sua despedida, então ainda podemos ter esperança.

domingo, setembro 25, 2005

Curtas de domingo

Apolônio de Carvalho

No momento da despedida, emocionam as lembranças do velho comunista, um dos poucos heróis sinceros cuja memória podemos evocar sem medo de errar. Alguém que lutou pela justiça acima de tudo, acima até mesmo da própria nacionalidade. E que acreditou, com vontade, até o fim. História feita apenas de beleza, verdade e um amor muito grande. Gostaria de tê-lo conhecido além das páginas da história, mas de todo modo reverencio sua memória com a gratidão de ter, como brasileira, um exemplo de coerência a respeitar.

As histórias de seu desassombro e ternura, seu eterno romance com a francesa Renée, que o seguiu ao Brasil para a vida inteira, o carinho dos dois filhos, que souberam seguir-lhe o exemplo, a reverência de um país inteiro nos instantes finais - discreta e profunda como foi a sua vida - nos mostram que dar a vida pelo sonho e pela fé nos homens, como ele, valeram (e muito!) a pena.

Estrada de terra para o Oscar

"O Quatrilho" é um excelente filme sob todos os aspectos. "Central do Brasil" é um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos.
Ambos concorreram ao Oscar. Ambos perderam para filmes menos talentosos.
"Dois filhos de Francisco" é um bom filme, mas sobretudo uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Só isso já diz algo sobre ele - que, apesar do sucesso e do marketing pesado, em nenhum aspecto se compara, de longe sequer, aos dois filmes citados acima.
E foi escolhido por uma comissão para representar o Brasil na corrida dos filmes estrangeiros por uma vaga no Oscar.
Agora, é esperar para ver qual a matéria que pavimenta a estrada para a Academia: os lucros, um regionalismo que pode passar por exótico ou a qualidade das produções. Se for uma das duas primeiras, pode ser que passe.
O cinema brasileiro já esteve melhor na foto, quer dizer, na película...

"Arigó", do Rio à Índia

Cinema de animação feito no Brasil, por brasileiros, e com tempero de novos talentos revelados é uma raridade nesses tempos de mídia. Pois este é o caso do curta "Arigó", produção de sete minutos realizado pela Usina de Cinema do FanCine, organização não-governamental fundada em Volta Redonda.
"Arigó" é o nome de uma ave de arribação bem brasileira. É também o apelido, entre carinhoso e pejorativo, dado aos peões de trecho que construíram a CSN, em Volta Redonda, em plena Segunda Guerra. Daí o nome do curta, escolhido por unanimidade pelo próprio time de criadores.
O projeto foi resultado de uma grande parceria que envolveu o Fundo Nacional de Cultura, a Coordenadoria de Educação do Médio Paraíba 2, o FanCine e a prefeitura da cidade. Além do filme, um estudo cartográfico e antropológico amarra as origens de Volta Redonda aos fatos mais marcantes de sua história. Tudo na produção foi obra e graça dos jovens artistas, assistidos por um time de profissionais da pesada.
Essa história toda saiu da cabeça e do coração de Fatita Celes, cinéfila e curadora de festivais internacionais, que fundou o FanCine para pôr uma câmera na mão de gente talentosa.
"Arigó" será exibido no Festival do Rio no dia 30 de setembro, com direito a debate com a turma de realizadores. Em novembro, brilha no 14º Festival Internacional de Filmes Infanto-Juvenis, em Hyderabad, na Índia. A coroação perfeita para um vôo de sucesso que passou pela 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a competitiva do CINE PE 2005 (Festival de Audiovisual de Pernambuco), o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte e a Mostra Infanto-juvenil de Florianópolis, só para citar os convites deste ano.
"Arigó" é um santo de casa que, sem mídia ou ações mirabolantes de marketing, está fazendo milagres importantes por aí.
Atenção, pessoal da animação: fiquem de olho em Volta Redonda. Lá tem gente aprontando com a maior qualidade!

sábado, setembro 24, 2005

Impunidade sempre em alta

Já não basta a constante vergonha que nos assalta todos os dias, ao abrir os jornais e acompanhar todos os absurdos vai-não-vai e toma-lá-dá-cá da crise política, sem nada - ou quase nada, à exceção da recente malufada enjaulada - de conclusivo acontecer na prática.

Alguém viu alguém devolver dinheiro aos cofres públicos deste país? Viu? Onde??? (Sem dúvida estou tendo hoje o meu dia de Graúna).

Pois agora isso é pouco. Ainda temos de assistir a vergonhas muito maiores. A primeira página do Globo de hoje - coluna mínima, mas vá lá, é primeira página - informa que o Supremo Tribunal Federal, por meio de habeas-corpus, acaba de colocar em liberdade um assassino condenado a 228 anos de prisão: o coronel Mário Pantoja, responsável pelo massacre de 19 pessoas, entre agricultores e familiares, em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. É, e com direito a despacho veemente do ministro Cézar Peluso, que concedeu ao réu o privilégio de "recorrer em liberdade".

Uma de minhas grandes frustrações com Fernando Henrique Cardoso, intelectual e teórico, ídolo das médias-esquerdas da minha geração, sempre foi a sua incapacidade de agir com firmeza e responder com energia às grandes crises nacionais, durante o seu governo. Uma delas, para mim a mais emblemática, foi o massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás. Enquanto todo o país assistia, atônito, às barbaridades cometidas pelos policiais comandados pelo dito coronel Mário Pantoja, o presidente balbuciava desculpas em cadeia nacional. Nem sequer o governador do Pará foi afastado, que dirá o alto comando da barbárie.

Na página 13, a matéria - que engordou para duas colunas, ainda que imprensada entre manchetes sobre o referendo do desarmamento e o resultado da dupla sena - cita trechos do despacho do ministro. "A garantia constitucional não tolera execução de sentença condenatória, em qualquer de suas eficácias, antes do trânsito em julgado (ou seja, quando se esgotam todas as possibilidade de recurso." Tal rigor com os direitos de um cidadão, ainda mais um assassino condenado, não só me espanta como me faz lembrar o caso da jovem mulher que foi presa em São Paulo por tentar - notem bem, tentar - roubar um shampoo e um condicionador em uma farmácia e, mesmo sem ser julgada, passou um ano e sete meses na cadeia e perdeu até uma vista em função de torturas. E só saiu por causa da determinação de uma advogada diante do absurdo da situação, que batalhou até conseguir que um promotor de justiça se compadecesse da pobre. Mas o ministro Cézar Peluso, cujo salário é pago com o dinheiro do contribuinte brasileiro, vai mais além em seu despacho: "Não há maneira de o sistema jurídico reparar a privação da liberdade sequer mediante o expediente sub-rogatório de indenização (que, aliás, não se sabe quando é paga)."

Ou seja: um assassino, responsável pela morte de 19 pessoas inocentes, inclusive crianças, tem o direito de recorrer da sentença em liberdade e merece ser "reparado" pelo tempo que passou na prisão até agora. É isso mesmo ou será que eu entendi mal?

Quem indenizará a jovem que perdeu a visão de um olho e mais um ano e sete meses de sua vida na prisão, sem julgamento, por tentar roubar produtos de beleza numa farmácia?

Que indenização, por maior que seja, poderá amenizar a dor dos que perderam seus parentes no massacre de Eldorado dos Carajás?

Que indenização poderá restituir à alma brasileira a confiança na Justiça, se o maior órgão do nosso judiciário, o Supremo Tribunal Federal, age com tamanha condescendência para com assassinos condenados?

Não podemos esquecer, não devemos esquecer o que vimos - eu e todo o Brasil - acontecer em Eldorado dos Carajás. Nossa Justiça deveria defender e proteger a população, independentemente de cor, raça ou classe social. É isso o que diz a nossa Constituição, que todos juramos honrar. E é isso o que o ministro Cézar Peluso acaba de ignorar, quando concede habeas-corpus a um assassino condenado.

É o mesmo que rir na cara de todas as vidas humanas perdidas no massacre, rir na cara da dor dos parentes, rir na cara de todos os brasileiros que desejam banir, de uma vez por todas, a impunidade crônica que inibe o crescimento da nossa dignidade e cidadania.

Quando o Judiciário chega a este ponto, ao mesmo tempo em que o Executivo e o Legislativo se envolvem num dos maiores imbroglios da nossa história recente, dá muita vontade de sair gritando por aí. Como é que nós, a sociedade atônita, vamos dar conta de restituir ao nosso país o direito de existir, funcionar, legislar, educar, sonhar?

quarta-feira, setembro 21, 2005

Esses jovens tresloucados e talentosos

Da primeira fila da platéia me vem um flashback paralelo: vejo-me há mais de vinte anos, num tímido teatro de um colégio na Tijuca, assistindo a uma montagem de "O despertar da primavera", encenada por um grupo de jovens cheios de garra e vontade: Maria Padilha, Fábio Junqueira, Daniel Dantas, Miguel Fallabela, Paulo Reis... Neste mesmo momento em que na cabeça rola o vídeo-tape daquela galera que deu certo de verdade, olho para o palco onde Carolina Portes, Fabricio Belsoff e Keli Freitas desenrolam, com graça e competência, sua versão fulminante de "Esses anos estúpidos e perigosos", do canadense George F. Walker, e sinto a mesma coisa: um perfume de futuro bom.
"Esses anos...", que no original atende pelo contundente nome de "Tough!", ou seja, dureza, é barra, é f..., é uma história simples de adolescência. Simples? Claro, pra quem nunca passou, ou já passou mas esqueceu, ou viu acontecer com o filho do vizinho. Mas nunca para os protagonistas, ou seja, os adolescentes metidos em confusões que envolvem sentimento, presente confuso e futuro em pânico. O texto é ágil, fotográfico e muito teatral. Funciona como uma luva na montagem agressiva e de uma velocidade quase digital, com marcações despojadas, práticas e que evoluem muito bem em cena. A composição de cenários, figurinos e uma iluminação contida, mas eficaz, é importante para construir o clima, apoiado por uma ótima trilha sonora.
Mas o que seria de tudo isso sem os atores, claro, os rostinhos iniciantes, mas flamejantes, que transformam boca de cena em mágica e poesia? Fabricio Belsoff é perfeito como o confuso jovem que se alterna entre o carinho pela namorada, a vontade de viver outras aventuras e a súbita notícia de que ela espera um filho seu; Keli Freitas, a namorada, é a própria fragilidade em cena e, no segundo seguinte, a imagem da determinação; e Carolina Portes, a melhor amiga, dona de um humor de nuances quase sombrias, alterna com extrema habilidade o seu radicalismo entre a fidelidade absoluta à amiga e o ódio à raça dos homens, concentrado no namorado da outra, a seu ver pivô de todos os infortúnios.
Todos expressam bem a profusão de sentimentos que assolam a alma adolescente, todos ao mesmo tempo: hormônios demais, carências demais, questões demais - e sérias! - a decidir toda hora. É como viver a vida toda num instante, várias vezes por dia. E os três atores parecem talhados para a história: conseguem ser dramáticos e engraçados, crianças e adultos, frágeis e extremos, bobos e profundos - e, o que é melhor: fazem bem o trânsito entre todas essas emoções sem cair no pastiche ou no melodrama. Pesa aí, sem dúvida, ao lado do talento do trio, a eficiente direção de João Fonseca. A tradução tem lá seus pecadilhos, sobretudo no abuso de expressões que simplesmente não são faladas no português e, ao pé da letra, soam falsas; mas nada que comprometa o ritmo geral do texto como pilar da história. Sim, porque há textos que atrapalham o impacto visual do espetáculo. Em "Esses anos...", de modo algum é este o caso; o texto se beneficia do contexto estético e um reforça o outro.
Em nenhum momento o espetáculo de uma hora dá sinais de cansaço, tédio ou desfalecimento; o ritmo é intenso e a interação dos atores, total. Os pequeníssimos detalhes que, vez ou outra, parecem que vão prejudicar, não chegam a fazer barulho. E o resultado é algo verdadeiro, transparente e simples, com cara de adolescente que dá exemplo pros adultos.
Exatamente como aqueles "meninos" que, ainda ontem, depositavam todas as suas fichas no despertar de uma primavera que de fato aconteceu pra eles, como espero que aconteça também para Carolina, Fabricio e Keli.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Uma história de gente

Vou falar de alguém que conheço pouco, pouco ou quase nada além das crônicas de jornal, algumas paixões declaradas - como árvores centenárias, tecnologia, capivaras, frangos d'água - e referências muito carinhosas do Drummond, grande amigo de seu pai, que a viu crescer.

Vou falar de Cora Rónai, com especial emoção após ter visitado seu blog e visto a série de fotos de viagem que vem publicando, com comentários às vezes telegráficos mas sempre poéticos, marcados pelo bom-humor e lembranças.

Em Budapeste, Cora visitou o prédio onde seu pai viveu toda a infância e onde seu avô tinha uma livraria. E tocou de passagem, como o leve farfalhar de uma pena, em dores guardadas na memória atávica de sua família, no horror da Segunda Guerra. Não posso estar na sua pele para imaginar o que ela sentiu ao percorrer o hall de entrada e as belas escadarias e imaginar, como ela mesma diz, como deve ter sido difícil abandonar aquilo tudo de repente e mergulhar no desconhecido. Sem falar nas perdas, é claro, pois seu pai nunca mais tornou a ver os avós, o próprio pai e mais dois irmãos.

Fiquei pensando nessas tristezas, às quais ando particularmente sensível ultimamente. A viagem no tempo de Cora me vez recordar a recente leitura de Ver:Amor, romance de David Grossman publicado no Brasil em 1993, que encontrei entre os saldos da Livraria da Travessa e cujo tema é o holocausto, mas a partir da visão de alguém que não o viveu - e tenta o tempo todo captar, nas pessoas que passaram por aquilo, o sentimento da tragédia.

É uma homenagem desesperada, profunda imersão na reconstrução da alma de quem precisa, acima de tudo, conviver com as marcas e mesmo assim não se tornar vítima, transcender, transformar a vida. E está cheio de histórias belas, fortes, comuns e trágicas como a da família Rónai. O texto, de uma doçura enorme, faz uma ponte para que se possa compartilhar sentimentos com aqueles personagens que, de tão reais, poderiam até morar dentro da gente. Uma onda de solidariedade, sei lá, compaixão, igualdade ou seja lá o que for, me acometeu desde então. Ao contemplar aquelas escadas atravessadas pelo tempo, não pude deixar de imaginar os seis filhos do casal de livreiros (os avós de Cora) correndo pra cima e pra baixo entre o mundo dos livros, o mundo da casa e a rua, com seus sonhos, esperanças e a vida pela frente, sem pressentir o perigo ou adivinhar as sentenças que viriam.

Diante dessas e de outras tragédias, como as tantas que se avolumam no momento presente em todo o mundo, me vem à tona com força um alerta interior para o compromisso que sempre precisamos ter com o futuro da humanidade. É preciso lembrar e relembrar, em atos e convicções, o quão desesperadamente todos nós, humanos, precisamos de paz.

Paz para salvar a gente comum das nossas favelas e das ruas, da faixa de Gaza, de Bagdá e de cada Brasil dentro desse nosso país. Paz para salvar a humanidade dela mesma. Paz como resistência, como uniforme do nosso coração.

Gostaria que houvesse escadarias, como a da família Rónai, por onde pudéssemos subir, cada dia um degrau, e chegar à paz palpável, simples e comum, que a gente tanto precisa.

domingo, setembro 11, 2005

Jóia rara e, agora, vazia

Há duas décadas, Caetano acreditava que, se o deixassem cantar, o mundo ficaria "odara", tudo seria "jóia rara". Nesse interlúdio entre tempos mais românticos e cultura - como pão espiritual de cada dia - mais disponível, natural e profusa, nove cinemas naufragaram em Copacabana, nas águas do irracionalismo ditado por produtos de consumo com pretensões de equivaler à sala escura e, muito provavelmente, da violência que nos rouba, dia a dia, o direito de curtir apaixonadamente a nossa cidade.

O Jóia - peça de resistência encastelada no antigo shopping da Av. Copacabana 680 - acaba de fechar. Aliás, fechou na última quinta-feira, como atesta o Globo de hoje. Cineminha maldito, pequeno, escondido, muitas vezes quente, com eventuais problemas técnicos e alvo de reclamações freqüentes, sem dúvida. Mas foi lá que fui apresentada, em êxtase, à Flauta Mágica de Ingmar Bergman. Foi lá que vi o notável brasileiro Os Mucker, hoje um tanto esquecido. E foi também lá que, mais recentemente, derramei-me diante do dolorido Dançando no Escuro, de Lars von Trier.

Sim, o Jóia era raro, especial. Endereço velho conhecido dos ratos de cinema, todo mundo sabia que podia assistir lá aos filmes cult em fim de carreira, na repescagem. Raramente tinha fila e era um dos preferidos dos idosos das adjacências, por ser perto de tudo, de fácil acesso e com escada rolante. Jóia rara que fez história na vida da cidade e do bairro.

A nota do jornal não me deixa esquecer que o Roxy, hoje, é o único cinema de Copacabana. Parei para pensar e contar os mortos: Cinema 1, paraíso no qual navegamos, eu e minha geração, pelo melhor do cinema europeu de autor; o Ricamar, que pelo menos virou a Sala Baden Powell e se manteve como espaço de cultura; o Metro Copacabana, que ficava pertinho da C & A, na Nossa Senhora do Mesmo Nome; o Art Copacabana, em frente à Dias da Rocha, transformado em triste academia de ginástica para os modernos de plantão, o que me fez odiar para todo o sempre a marca BODY TECH, que perpetrou o crime; o Rian, majestoso em sua bela arquitetura na Avenida Atlântica, ao qual eu chegava fácil, fácil, de 119 - ônibus que eu pegava na São Clemente, cruzava o Túnel Velho e saía na Santa Clara, depois pegava a Constante Ramos e ia até a praia; o Cinema 3, na Raul Pompéia; e o Caruso, inesquecível em suas poltronas de couro vermelho, aclamadas como as mais confortáveis da cidade.

Tinha ainda o Bruni Copacabana, aquele cineminha um tanto acanhado, com ar de abandono, no fundo de uma galeria na Barata Ribeiro, quase Santa Clara, e que foi engolido pela recente expansão da Modern Sound, a melhor loja de CDs e DVDs da cidade. Lembro que ali assisti "A estranha família de Antonia", o filme que derrotou o belo Quatrilho, o primeiro filme brasileiro finalista do Oscar de melhor filme estrangeiro.

(A Modern Sound só está perdoada pela invasão por ter criado, em seus excelentes domínios, um charmoso misto de bar, espaço cultural e palco para a música que ainda resiste na cidade. Um sucesso que merece o nosso respeito.)

Nove salas é uma perda grande. E fica ainda maior se contabilizarmos, bairro a bairro, a derrocada das salas de cinema nas zonas sul e norte do Rio. Entrar no saudosismo barato não ajuda, é claro, mas é preciso pensar no destino da cultura. O slogan de uma conhecida e hoje bem reduzida rede carioca - Cinema ainda é a melhor diversão - ainda fala ao coração de muita gente capaz de gerenciar projetos de sucesso, como o Estação Botafogo, o Espaço Unibanco e o Arteplex, onde o cinema enquanto arte é a filosofia principal, temperada com a competência necessária para manter o equilíbrio financeiro. Isso sem falar nos Cinemark da vida, que asseguram o presente e o futuro do circuitão.

Estamos vivendo a era das lojas de R$ 1,99, das farmácias e dos varejões de roupa pronta. Ah, e como esquecer, também das locadoras e dos home-theaters - sem o cheiro da pipoca da carrocinha se misturando ao sereno da tarde, sem a doce ansiedade do primeiro ruído (rugido?) que silencia a tagarelice da espera e nos faz prender a respiração, à espera do novo? Cinema é cultura de primeira hora, de primeira linha, que transfigura a nossa imaginação e nos dá o poder do movimento, sem muita distinção de berço ou classe social.

O que fazer com uma Copacabana quase deserta de cinemas, que sofre sucessivos baques em sua tradição boêmia, efervescente? As forças culturais dessa cidade bem que poderiam se unir em oferenda aos deuses do cinema e, contra a maré demolidora, buscar um projeto que, equilibrando o cinema-entretenimento e o cinema-cultura, possa contra-atacar essa tristeza de cenário e fazer procriar a tela grande nos corações das atuais e futuras gerações de cinéfilos, formados ou em formação.

Esse novo complexo - já estou eu sonhando! - poderia, inclusive, batizar suas modernas salas com os nomes dos finados Rian, Caruso, Art, Jóia..., o que equivaleria a ressuscitá-los e devolvê-los à terra de onde, afinal, nunca deveriam ter saído.

terça-feira, setembro 06, 2005

Cada vez mais perto do perigo de viver

(da série "Tratado das letras de Parati")

Hoje, arrumando gavetas seculares, encontrei uma página meio amassada, talvez caída de sei lá que livro, com uma foto de Clarice Lispector - aristocrática, enigmática e forte, sempre forte como presença.

É inevitável: sempre que penso em Clarice, lembro do conto "Amor" - e da bolsa com os ovos, tão protegidos e de repente quebrados, coitados, espalhando seu amarelo pela tela da bolsa, esvaindo-se pela saia da personagem, por sua alma e pela calçada.

Um dos primeiros, dentre tantos outros, momentos de Clarice que me marcaram a ferro - e ovo - para a vida, o conto "Amor" fala do instante inexorável do acordar interno, de alguém que de repente se situa no mundo, abandona a casca da conveniência e encara a dor de dentro, o vazio e o precipício, o arriscado no ato de viver.

Na FLIP, que este ano homenageou a escritora, os encontros com Clarice foram marcados pela vertigem que ela sempre provocou - tanto com sua personalidade como com seu texto único. No espetáculo de abertura, falaram os poemas, os contos, os amigos e até os personagens, na pele dos atores que interpretaram uma espécie de versão de concerto de "A hora da estrela". Na mesa 3, "No raiar de Clarice", a escolha foi retratá-la do ponto de vista de amigos e estudiosos de sua obra, de um modo muito acolhedor, que aproximou o mito da platéia.

Marina Colasanti narrou como se fosse um romance a convivência de longos anos com a amiga, desde a descoberta, junto com o irmão Arduíno, do primeiro conto publicado na revista "Senhor" até os últimos anos em que, debilitada, era cercada pela atenção e o cuidado de todos os que a amavam.

Lembro-me de Clarice na antiga TV Tupi, na década de 60, com sua desenvoltura e aguda inteligência, gesticulando e fumando. Tinha uma presença impactante para mim, menina ainda e muito longe de seus livros. Só mais tarde, ao descobri-la em todo seu esplendor e intensidade literários, é que eu teria meios de fazer a conexão entre a enérgica debatedora e a mulher que deu voz ao sentimento mais exacerbado, mais fundo e quase insuportável.

Marina Colasanti diz que, diante de Clarice, havia toda uma reverência, um sentimento de adoração; ninguém abria a boca. Era como se em Clarice alguma coisa pudesse acontecer a qualquer momento. - Ela nunca coube em qualquer realidade, nem mesmo na sua - frisa Marina. - E todo o seu esforço, como escritora, está em buscar o seu outro eu.

"Quero apossar-me do 'é' da coisa." A frase, de Água Viva, me paralisou por meses. Tive medo, constrangimento, desentendimento, aflição - mudei de livro, de autor, de temática, fui e voltei, mas continuava atormentada. Agora, quando ouço de Marina Colasanti uma frase de Clarice - "Eu sou mais forte do que eu" - entendo melhor. Começo a me aproximar, chego quase à beirada e posso me arriscar a compreender.

"Às vezes acordo de madrugada e julgo ouvir o bater das teclas da máquina de escrever de minha mãe. Acostumei-me desde pequeno àquele ruído, às madrugadas que ela varava escrevendo." O depoimento emocionado do filho de Clarice Lispector cabe como uma luva no mosaico de impressões deixadas por essa mulher múltipla, praticamente dona de todas as palavras certas.

Há quem diga que ler Clarice é perigoso; o seu "território" é tão específico que muitos ficaram impotentes ao tentar seguir sua literatura. Clarice trilhou um caminho intensamente "de alma" - e suas obras são como tentativas verbais de alcançar um ponto que sempre lhe escapava, nas palavras de Benedito Nunes.

Mas o que acontece com quem lê a torrente de paixões que se arremessa da prosa de Clarice e sente que não pode fazer nada senão entregar-se, segui-la, intensificá-la acima de tudo? Nesse sentido, não há perigo no encontro. Antes, plenitude e um imenso desafio: sentir Clarice, verter Clarice para suas próprias palavras, intenções e gestos.

Lembro-me agora, de "A mulher que matou os peixes". Clarice cultivou muito o universo infantil, talvez por causa de seu filho, talvez porque amasse as crianças ou tivesse, ela mesma, algo de lúdico e simples em meio ao terremoto interno da mulher crescida. É um livro que qualquer criança entende, sente - e no qual viaja, hipnotizada, com bilhete sem volta.

Para Vilma Arêas, autora de "Clarice na ponta dos dedos", Clarice é intuitiva. Na verdade, ela era um mundo à parte, com tudo do melhor e do pior que o mundo de verdade tem. O incrível e fantástico é que, com essa multiplicidade e por caminhos tortuosos, Clarice entrava sem dificuldade no coração das pessoas e passeava pela alma com uma desenvoltura que podia assustar.

No mundo prático, Clarice não tinha lugar. Não se sentia à-vontade com as lides comezinhas do dia a dia. Ter de escrever para ganhar a vida - crônicas e até mesmo livros - era algo que a angustiava. Mal interpretada às vezes e injustamente taxada de reacionária ou alienada, Clarice tinha seu próprio jeito de interpretar a realidade brasileira. Assim, a pobreza e a exclusão foram temas de "A hora da estrela", enquanto, em sua última crônica, escreveu sobre o bandido conhecido como Mineirinho, assassinado com dez tiros. Envolvia-se, preocupava-se, mas não sabia viver direito num mundo sedento de palavras de ordem. Política, sim, partidária jamais.

Clarice falou como ninguém ao meu coração feminino em "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", uma de suas obras ditas "menores" (Aliás, dessa questão de menores ou maiores, prefiro passar ao largo; existe apenas Clarice, que nasceu na Ucrânia mas criou sua alma aqui, no idioma das nossas contradições). "Uma aprendizagem" é todo intensidade, fervor - e nudez, também, um despir-se de tudo o que é mero, fugaz e incapaz de "ser" completamente.

Na FLIP, Clarice esteve perto, viva, menos mito que poesia. Marina Colasanti contou sobre um jantar que a própria Clarice pediu para ela fazer, num recado transmitido por Nélida Piñon. Ela queria ver os amigos. Marina fez, Clarice chegou "imperial", na definição dela - e logo depois desesperou-se numa dor de cabeça e pediu para ir embora. De nada adiantaram argumentos ou aspirinas. Precisava muito ir. "Tudo é terra dos outros onde os outros estão contentes" - sentenciou. Tudo o que Marina pôde fazer, diante disso, foi pedir ao marido, o poeta Affonso Romano de Santanna, que a levasse.

- Tenho certeza de que ela ficaria muito feliz em saber que, hoje, essa 'terra' é toda dela - concluiu amorosamente Marina.

Em respeitoso silêncio, todos nós concordamos e aplaudimos com o nosso coração selvagem totalmente dominado pela lembrança e pelo mistério de Clarice.

domingo, setembro 04, 2005

Cinco a zero

Domingo de grande decisão, o Brasil praticamente inteiro na frente da televisão: é hora de carimbar o passaporte pra Alemanha, como diz o inspirado comentarista global.

E vencemos com todos os requintes, até direito ao quinto tento no último minuto do segundo tempo. E o adversário, coitado! Nada de gol de honra; é fazer as malas e adeus. Um cinco a zero na veia, um pico de adrenalina para restabelecer o fôlego da confiança, ultimamente tão abalada, dos brasileiros.

Que é bom, não adianta negar. Mesmo quem diz não ligar pra futebol pode sentir o amarelo no ar, aquele amarelão de ouro que tremula na arquibancada, que venta na alma. É uma força nada estranha, um "eu sabia" que, ainda que não tão sabido assim, sai do coração com tanta certeza, com tanta empolgação, que emociona de verdade.

Nos braços dessa alegria, fiquei pensando em como seria bom se ganhássemos de cinco a zero em outras lutas além do gramado. Se a gente derrotasse a fome por cinco a zero, por exemplo - e goleasse de vez, irremediavelmente, essa funesta senhora que insiste tanto em destruir vidas tão importantes para o nosso destino e futuro.

Tenho certeza de que, se déssemos de cinco a zero na porção abjeta da classe política que consegue encher os bolsos com o dinheiro que faria a diferença entre vida e morte de crianças, entre o remédio ou a condenação para um idoso, entre o futuro e uma arma para um adolescente cooptado pelo tráfico, daríamos um golpe mortalíssimo na miséria que se mostra para nós todo dia, abatendo a dignidade de quem precisa e de quem atende.

Precisamos golear as incertezas, as descrenças, as maldades. Tinha de ser cinco a zero também nas mazelas do Rio de Janeiro, de São Paulo, no estado de calamidade a que o nosso sistema jurídico e penitenciário está reduzido. Somos reféns do crime, do desgoverno, de nós mesmos e de nossos medos e preconceitos.

O nosso povo que canta e bem podia ser feliz, mas não é, o nosso povo que dança de um jeito e dança de outro, bem que podia ir em massa atrás desse cinco a zero. Não num espetáculo gigantesco, uma produção para a mídia, mas com passo firme, decidido, fechado com a vontade de mudar. Muito além dos 90 minutos de uma emoção bela, legítima, mas passageira - e no entanto, com a mesma garra, graça, ginga e raça, que é o que não falta por aqui.

Está na hora de profissionalizar o talento pra golear que a gente tem de sobra. A equipe técnica sempre esteve pronta, é só entrar em campo.

O que será, então, que a gente está esperando?