domingo, setembro 25, 2005

Curtas de domingo

Apolônio de Carvalho

No momento da despedida, emocionam as lembranças do velho comunista, um dos poucos heróis sinceros cuja memória podemos evocar sem medo de errar. Alguém que lutou pela justiça acima de tudo, acima até mesmo da própria nacionalidade. E que acreditou, com vontade, até o fim. História feita apenas de beleza, verdade e um amor muito grande. Gostaria de tê-lo conhecido além das páginas da história, mas de todo modo reverencio sua memória com a gratidão de ter, como brasileira, um exemplo de coerência a respeitar.

As histórias de seu desassombro e ternura, seu eterno romance com a francesa Renée, que o seguiu ao Brasil para a vida inteira, o carinho dos dois filhos, que souberam seguir-lhe o exemplo, a reverência de um país inteiro nos instantes finais - discreta e profunda como foi a sua vida - nos mostram que dar a vida pelo sonho e pela fé nos homens, como ele, valeram (e muito!) a pena.

Estrada de terra para o Oscar

"O Quatrilho" é um excelente filme sob todos os aspectos. "Central do Brasil" é um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos.
Ambos concorreram ao Oscar. Ambos perderam para filmes menos talentosos.
"Dois filhos de Francisco" é um bom filme, mas sobretudo uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Só isso já diz algo sobre ele - que, apesar do sucesso e do marketing pesado, em nenhum aspecto se compara, de longe sequer, aos dois filmes citados acima.
E foi escolhido por uma comissão para representar o Brasil na corrida dos filmes estrangeiros por uma vaga no Oscar.
Agora, é esperar para ver qual a matéria que pavimenta a estrada para a Academia: os lucros, um regionalismo que pode passar por exótico ou a qualidade das produções. Se for uma das duas primeiras, pode ser que passe.
O cinema brasileiro já esteve melhor na foto, quer dizer, na película...

"Arigó", do Rio à Índia

Cinema de animação feito no Brasil, por brasileiros, e com tempero de novos talentos revelados é uma raridade nesses tempos de mídia. Pois este é o caso do curta "Arigó", produção de sete minutos realizado pela Usina de Cinema do FanCine, organização não-governamental fundada em Volta Redonda.
"Arigó" é o nome de uma ave de arribação bem brasileira. É também o apelido, entre carinhoso e pejorativo, dado aos peões de trecho que construíram a CSN, em Volta Redonda, em plena Segunda Guerra. Daí o nome do curta, escolhido por unanimidade pelo próprio time de criadores.
O projeto foi resultado de uma grande parceria que envolveu o Fundo Nacional de Cultura, a Coordenadoria de Educação do Médio Paraíba 2, o FanCine e a prefeitura da cidade. Além do filme, um estudo cartográfico e antropológico amarra as origens de Volta Redonda aos fatos mais marcantes de sua história. Tudo na produção foi obra e graça dos jovens artistas, assistidos por um time de profissionais da pesada.
Essa história toda saiu da cabeça e do coração de Fatita Celes, cinéfila e curadora de festivais internacionais, que fundou o FanCine para pôr uma câmera na mão de gente talentosa.
"Arigó" será exibido no Festival do Rio no dia 30 de setembro, com direito a debate com a turma de realizadores. Em novembro, brilha no 14º Festival Internacional de Filmes Infanto-Juvenis, em Hyderabad, na Índia. A coroação perfeita para um vôo de sucesso que passou pela 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a competitiva do CINE PE 2005 (Festival de Audiovisual de Pernambuco), o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte e a Mostra Infanto-juvenil de Florianópolis, só para citar os convites deste ano.
"Arigó" é um santo de casa que, sem mídia ou ações mirabolantes de marketing, está fazendo milagres importantes por aí.
Atenção, pessoal da animação: fiquem de olho em Volta Redonda. Lá tem gente aprontando com a maior qualidade!

sábado, setembro 24, 2005

Impunidade sempre em alta

Já não basta a constante vergonha que nos assalta todos os dias, ao abrir os jornais e acompanhar todos os absurdos vai-não-vai e toma-lá-dá-cá da crise política, sem nada - ou quase nada, à exceção da recente malufada enjaulada - de conclusivo acontecer na prática.

Alguém viu alguém devolver dinheiro aos cofres públicos deste país? Viu? Onde??? (Sem dúvida estou tendo hoje o meu dia de Graúna).

Pois agora isso é pouco. Ainda temos de assistir a vergonhas muito maiores. A primeira página do Globo de hoje - coluna mínima, mas vá lá, é primeira página - informa que o Supremo Tribunal Federal, por meio de habeas-corpus, acaba de colocar em liberdade um assassino condenado a 228 anos de prisão: o coronel Mário Pantoja, responsável pelo massacre de 19 pessoas, entre agricultores e familiares, em Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. É, e com direito a despacho veemente do ministro Cézar Peluso, que concedeu ao réu o privilégio de "recorrer em liberdade".

Uma de minhas grandes frustrações com Fernando Henrique Cardoso, intelectual e teórico, ídolo das médias-esquerdas da minha geração, sempre foi a sua incapacidade de agir com firmeza e responder com energia às grandes crises nacionais, durante o seu governo. Uma delas, para mim a mais emblemática, foi o massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás. Enquanto todo o país assistia, atônito, às barbaridades cometidas pelos policiais comandados pelo dito coronel Mário Pantoja, o presidente balbuciava desculpas em cadeia nacional. Nem sequer o governador do Pará foi afastado, que dirá o alto comando da barbárie.

Na página 13, a matéria - que engordou para duas colunas, ainda que imprensada entre manchetes sobre o referendo do desarmamento e o resultado da dupla sena - cita trechos do despacho do ministro. "A garantia constitucional não tolera execução de sentença condenatória, em qualquer de suas eficácias, antes do trânsito em julgado (ou seja, quando se esgotam todas as possibilidade de recurso." Tal rigor com os direitos de um cidadão, ainda mais um assassino condenado, não só me espanta como me faz lembrar o caso da jovem mulher que foi presa em São Paulo por tentar - notem bem, tentar - roubar um shampoo e um condicionador em uma farmácia e, mesmo sem ser julgada, passou um ano e sete meses na cadeia e perdeu até uma vista em função de torturas. E só saiu por causa da determinação de uma advogada diante do absurdo da situação, que batalhou até conseguir que um promotor de justiça se compadecesse da pobre. Mas o ministro Cézar Peluso, cujo salário é pago com o dinheiro do contribuinte brasileiro, vai mais além em seu despacho: "Não há maneira de o sistema jurídico reparar a privação da liberdade sequer mediante o expediente sub-rogatório de indenização (que, aliás, não se sabe quando é paga)."

Ou seja: um assassino, responsável pela morte de 19 pessoas inocentes, inclusive crianças, tem o direito de recorrer da sentença em liberdade e merece ser "reparado" pelo tempo que passou na prisão até agora. É isso mesmo ou será que eu entendi mal?

Quem indenizará a jovem que perdeu a visão de um olho e mais um ano e sete meses de sua vida na prisão, sem julgamento, por tentar roubar produtos de beleza numa farmácia?

Que indenização, por maior que seja, poderá amenizar a dor dos que perderam seus parentes no massacre de Eldorado dos Carajás?

Que indenização poderá restituir à alma brasileira a confiança na Justiça, se o maior órgão do nosso judiciário, o Supremo Tribunal Federal, age com tamanha condescendência para com assassinos condenados?

Não podemos esquecer, não devemos esquecer o que vimos - eu e todo o Brasil - acontecer em Eldorado dos Carajás. Nossa Justiça deveria defender e proteger a população, independentemente de cor, raça ou classe social. É isso o que diz a nossa Constituição, que todos juramos honrar. E é isso o que o ministro Cézar Peluso acaba de ignorar, quando concede habeas-corpus a um assassino condenado.

É o mesmo que rir na cara de todas as vidas humanas perdidas no massacre, rir na cara da dor dos parentes, rir na cara de todos os brasileiros que desejam banir, de uma vez por todas, a impunidade crônica que inibe o crescimento da nossa dignidade e cidadania.

Quando o Judiciário chega a este ponto, ao mesmo tempo em que o Executivo e o Legislativo se envolvem num dos maiores imbroglios da nossa história recente, dá muita vontade de sair gritando por aí. Como é que nós, a sociedade atônita, vamos dar conta de restituir ao nosso país o direito de existir, funcionar, legislar, educar, sonhar?

quarta-feira, setembro 21, 2005

Esses jovens tresloucados e talentosos

Da primeira fila da platéia me vem um flashback paralelo: vejo-me há mais de vinte anos, num tímido teatro de um colégio na Tijuca, assistindo a uma montagem de "O despertar da primavera", encenada por um grupo de jovens cheios de garra e vontade: Maria Padilha, Fábio Junqueira, Daniel Dantas, Miguel Fallabela, Paulo Reis... Neste mesmo momento em que na cabeça rola o vídeo-tape daquela galera que deu certo de verdade, olho para o palco onde Carolina Portes, Fabricio Belsoff e Keli Freitas desenrolam, com graça e competência, sua versão fulminante de "Esses anos estúpidos e perigosos", do canadense George F. Walker, e sinto a mesma coisa: um perfume de futuro bom.
"Esses anos...", que no original atende pelo contundente nome de "Tough!", ou seja, dureza, é barra, é f..., é uma história simples de adolescência. Simples? Claro, pra quem nunca passou, ou já passou mas esqueceu, ou viu acontecer com o filho do vizinho. Mas nunca para os protagonistas, ou seja, os adolescentes metidos em confusões que envolvem sentimento, presente confuso e futuro em pânico. O texto é ágil, fotográfico e muito teatral. Funciona como uma luva na montagem agressiva e de uma velocidade quase digital, com marcações despojadas, práticas e que evoluem muito bem em cena. A composição de cenários, figurinos e uma iluminação contida, mas eficaz, é importante para construir o clima, apoiado por uma ótima trilha sonora.
Mas o que seria de tudo isso sem os atores, claro, os rostinhos iniciantes, mas flamejantes, que transformam boca de cena em mágica e poesia? Fabricio Belsoff é perfeito como o confuso jovem que se alterna entre o carinho pela namorada, a vontade de viver outras aventuras e a súbita notícia de que ela espera um filho seu; Keli Freitas, a namorada, é a própria fragilidade em cena e, no segundo seguinte, a imagem da determinação; e Carolina Portes, a melhor amiga, dona de um humor de nuances quase sombrias, alterna com extrema habilidade o seu radicalismo entre a fidelidade absoluta à amiga e o ódio à raça dos homens, concentrado no namorado da outra, a seu ver pivô de todos os infortúnios.
Todos expressam bem a profusão de sentimentos que assolam a alma adolescente, todos ao mesmo tempo: hormônios demais, carências demais, questões demais - e sérias! - a decidir toda hora. É como viver a vida toda num instante, várias vezes por dia. E os três atores parecem talhados para a história: conseguem ser dramáticos e engraçados, crianças e adultos, frágeis e extremos, bobos e profundos - e, o que é melhor: fazem bem o trânsito entre todas essas emoções sem cair no pastiche ou no melodrama. Pesa aí, sem dúvida, ao lado do talento do trio, a eficiente direção de João Fonseca. A tradução tem lá seus pecadilhos, sobretudo no abuso de expressões que simplesmente não são faladas no português e, ao pé da letra, soam falsas; mas nada que comprometa o ritmo geral do texto como pilar da história. Sim, porque há textos que atrapalham o impacto visual do espetáculo. Em "Esses anos...", de modo algum é este o caso; o texto se beneficia do contexto estético e um reforça o outro.
Em nenhum momento o espetáculo de uma hora dá sinais de cansaço, tédio ou desfalecimento; o ritmo é intenso e a interação dos atores, total. Os pequeníssimos detalhes que, vez ou outra, parecem que vão prejudicar, não chegam a fazer barulho. E o resultado é algo verdadeiro, transparente e simples, com cara de adolescente que dá exemplo pros adultos.
Exatamente como aqueles "meninos" que, ainda ontem, depositavam todas as suas fichas no despertar de uma primavera que de fato aconteceu pra eles, como espero que aconteça também para Carolina, Fabricio e Keli.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Uma história de gente

Vou falar de alguém que conheço pouco, pouco ou quase nada além das crônicas de jornal, algumas paixões declaradas - como árvores centenárias, tecnologia, capivaras, frangos d'água - e referências muito carinhosas do Drummond, grande amigo de seu pai, que a viu crescer.

Vou falar de Cora Rónai, com especial emoção após ter visitado seu blog e visto a série de fotos de viagem que vem publicando, com comentários às vezes telegráficos mas sempre poéticos, marcados pelo bom-humor e lembranças.

Em Budapeste, Cora visitou o prédio onde seu pai viveu toda a infância e onde seu avô tinha uma livraria. E tocou de passagem, como o leve farfalhar de uma pena, em dores guardadas na memória atávica de sua família, no horror da Segunda Guerra. Não posso estar na sua pele para imaginar o que ela sentiu ao percorrer o hall de entrada e as belas escadarias e imaginar, como ela mesma diz, como deve ter sido difícil abandonar aquilo tudo de repente e mergulhar no desconhecido. Sem falar nas perdas, é claro, pois seu pai nunca mais tornou a ver os avós, o próprio pai e mais dois irmãos.

Fiquei pensando nessas tristezas, às quais ando particularmente sensível ultimamente. A viagem no tempo de Cora me vez recordar a recente leitura de Ver:Amor, romance de David Grossman publicado no Brasil em 1993, que encontrei entre os saldos da Livraria da Travessa e cujo tema é o holocausto, mas a partir da visão de alguém que não o viveu - e tenta o tempo todo captar, nas pessoas que passaram por aquilo, o sentimento da tragédia.

É uma homenagem desesperada, profunda imersão na reconstrução da alma de quem precisa, acima de tudo, conviver com as marcas e mesmo assim não se tornar vítima, transcender, transformar a vida. E está cheio de histórias belas, fortes, comuns e trágicas como a da família Rónai. O texto, de uma doçura enorme, faz uma ponte para que se possa compartilhar sentimentos com aqueles personagens que, de tão reais, poderiam até morar dentro da gente. Uma onda de solidariedade, sei lá, compaixão, igualdade ou seja lá o que for, me acometeu desde então. Ao contemplar aquelas escadas atravessadas pelo tempo, não pude deixar de imaginar os seis filhos do casal de livreiros (os avós de Cora) correndo pra cima e pra baixo entre o mundo dos livros, o mundo da casa e a rua, com seus sonhos, esperanças e a vida pela frente, sem pressentir o perigo ou adivinhar as sentenças que viriam.

Diante dessas e de outras tragédias, como as tantas que se avolumam no momento presente em todo o mundo, me vem à tona com força um alerta interior para o compromisso que sempre precisamos ter com o futuro da humanidade. É preciso lembrar e relembrar, em atos e convicções, o quão desesperadamente todos nós, humanos, precisamos de paz.

Paz para salvar a gente comum das nossas favelas e das ruas, da faixa de Gaza, de Bagdá e de cada Brasil dentro desse nosso país. Paz para salvar a humanidade dela mesma. Paz como resistência, como uniforme do nosso coração.

Gostaria que houvesse escadarias, como a da família Rónai, por onde pudéssemos subir, cada dia um degrau, e chegar à paz palpável, simples e comum, que a gente tanto precisa.

domingo, setembro 11, 2005

Jóia rara e, agora, vazia

Há duas décadas, Caetano acreditava que, se o deixassem cantar, o mundo ficaria "odara", tudo seria "jóia rara". Nesse interlúdio entre tempos mais românticos e cultura - como pão espiritual de cada dia - mais disponível, natural e profusa, nove cinemas naufragaram em Copacabana, nas águas do irracionalismo ditado por produtos de consumo com pretensões de equivaler à sala escura e, muito provavelmente, da violência que nos rouba, dia a dia, o direito de curtir apaixonadamente a nossa cidade.

O Jóia - peça de resistência encastelada no antigo shopping da Av. Copacabana 680 - acaba de fechar. Aliás, fechou na última quinta-feira, como atesta o Globo de hoje. Cineminha maldito, pequeno, escondido, muitas vezes quente, com eventuais problemas técnicos e alvo de reclamações freqüentes, sem dúvida. Mas foi lá que fui apresentada, em êxtase, à Flauta Mágica de Ingmar Bergman. Foi lá que vi o notável brasileiro Os Mucker, hoje um tanto esquecido. E foi também lá que, mais recentemente, derramei-me diante do dolorido Dançando no Escuro, de Lars von Trier.

Sim, o Jóia era raro, especial. Endereço velho conhecido dos ratos de cinema, todo mundo sabia que podia assistir lá aos filmes cult em fim de carreira, na repescagem. Raramente tinha fila e era um dos preferidos dos idosos das adjacências, por ser perto de tudo, de fácil acesso e com escada rolante. Jóia rara que fez história na vida da cidade e do bairro.

A nota do jornal não me deixa esquecer que o Roxy, hoje, é o único cinema de Copacabana. Parei para pensar e contar os mortos: Cinema 1, paraíso no qual navegamos, eu e minha geração, pelo melhor do cinema europeu de autor; o Ricamar, que pelo menos virou a Sala Baden Powell e se manteve como espaço de cultura; o Metro Copacabana, que ficava pertinho da C & A, na Nossa Senhora do Mesmo Nome; o Art Copacabana, em frente à Dias da Rocha, transformado em triste academia de ginástica para os modernos de plantão, o que me fez odiar para todo o sempre a marca BODY TECH, que perpetrou o crime; o Rian, majestoso em sua bela arquitetura na Avenida Atlântica, ao qual eu chegava fácil, fácil, de 119 - ônibus que eu pegava na São Clemente, cruzava o Túnel Velho e saía na Santa Clara, depois pegava a Constante Ramos e ia até a praia; o Cinema 3, na Raul Pompéia; e o Caruso, inesquecível em suas poltronas de couro vermelho, aclamadas como as mais confortáveis da cidade.

Tinha ainda o Bruni Copacabana, aquele cineminha um tanto acanhado, com ar de abandono, no fundo de uma galeria na Barata Ribeiro, quase Santa Clara, e que foi engolido pela recente expansão da Modern Sound, a melhor loja de CDs e DVDs da cidade. Lembro que ali assisti "A estranha família de Antonia", o filme que derrotou o belo Quatrilho, o primeiro filme brasileiro finalista do Oscar de melhor filme estrangeiro.

(A Modern Sound só está perdoada pela invasão por ter criado, em seus excelentes domínios, um charmoso misto de bar, espaço cultural e palco para a música que ainda resiste na cidade. Um sucesso que merece o nosso respeito.)

Nove salas é uma perda grande. E fica ainda maior se contabilizarmos, bairro a bairro, a derrocada das salas de cinema nas zonas sul e norte do Rio. Entrar no saudosismo barato não ajuda, é claro, mas é preciso pensar no destino da cultura. O slogan de uma conhecida e hoje bem reduzida rede carioca - Cinema ainda é a melhor diversão - ainda fala ao coração de muita gente capaz de gerenciar projetos de sucesso, como o Estação Botafogo, o Espaço Unibanco e o Arteplex, onde o cinema enquanto arte é a filosofia principal, temperada com a competência necessária para manter o equilíbrio financeiro. Isso sem falar nos Cinemark da vida, que asseguram o presente e o futuro do circuitão.

Estamos vivendo a era das lojas de R$ 1,99, das farmácias e dos varejões de roupa pronta. Ah, e como esquecer, também das locadoras e dos home-theaters - sem o cheiro da pipoca da carrocinha se misturando ao sereno da tarde, sem a doce ansiedade do primeiro ruído (rugido?) que silencia a tagarelice da espera e nos faz prender a respiração, à espera do novo? Cinema é cultura de primeira hora, de primeira linha, que transfigura a nossa imaginação e nos dá o poder do movimento, sem muita distinção de berço ou classe social.

O que fazer com uma Copacabana quase deserta de cinemas, que sofre sucessivos baques em sua tradição boêmia, efervescente? As forças culturais dessa cidade bem que poderiam se unir em oferenda aos deuses do cinema e, contra a maré demolidora, buscar um projeto que, equilibrando o cinema-entretenimento e o cinema-cultura, possa contra-atacar essa tristeza de cenário e fazer procriar a tela grande nos corações das atuais e futuras gerações de cinéfilos, formados ou em formação.

Esse novo complexo - já estou eu sonhando! - poderia, inclusive, batizar suas modernas salas com os nomes dos finados Rian, Caruso, Art, Jóia..., o que equivaleria a ressuscitá-los e devolvê-los à terra de onde, afinal, nunca deveriam ter saído.

terça-feira, setembro 06, 2005

Cada vez mais perto do perigo de viver

(da série "Tratado das letras de Parati")

Hoje, arrumando gavetas seculares, encontrei uma página meio amassada, talvez caída de sei lá que livro, com uma foto de Clarice Lispector - aristocrática, enigmática e forte, sempre forte como presença.

É inevitável: sempre que penso em Clarice, lembro do conto "Amor" - e da bolsa com os ovos, tão protegidos e de repente quebrados, coitados, espalhando seu amarelo pela tela da bolsa, esvaindo-se pela saia da personagem, por sua alma e pela calçada.

Um dos primeiros, dentre tantos outros, momentos de Clarice que me marcaram a ferro - e ovo - para a vida, o conto "Amor" fala do instante inexorável do acordar interno, de alguém que de repente se situa no mundo, abandona a casca da conveniência e encara a dor de dentro, o vazio e o precipício, o arriscado no ato de viver.

Na FLIP, que este ano homenageou a escritora, os encontros com Clarice foram marcados pela vertigem que ela sempre provocou - tanto com sua personalidade como com seu texto único. No espetáculo de abertura, falaram os poemas, os contos, os amigos e até os personagens, na pele dos atores que interpretaram uma espécie de versão de concerto de "A hora da estrela". Na mesa 3, "No raiar de Clarice", a escolha foi retratá-la do ponto de vista de amigos e estudiosos de sua obra, de um modo muito acolhedor, que aproximou o mito da platéia.

Marina Colasanti narrou como se fosse um romance a convivência de longos anos com a amiga, desde a descoberta, junto com o irmão Arduíno, do primeiro conto publicado na revista "Senhor" até os últimos anos em que, debilitada, era cercada pela atenção e o cuidado de todos os que a amavam.

Lembro-me de Clarice na antiga TV Tupi, na década de 60, com sua desenvoltura e aguda inteligência, gesticulando e fumando. Tinha uma presença impactante para mim, menina ainda e muito longe de seus livros. Só mais tarde, ao descobri-la em todo seu esplendor e intensidade literários, é que eu teria meios de fazer a conexão entre a enérgica debatedora e a mulher que deu voz ao sentimento mais exacerbado, mais fundo e quase insuportável.

Marina Colasanti diz que, diante de Clarice, havia toda uma reverência, um sentimento de adoração; ninguém abria a boca. Era como se em Clarice alguma coisa pudesse acontecer a qualquer momento. - Ela nunca coube em qualquer realidade, nem mesmo na sua - frisa Marina. - E todo o seu esforço, como escritora, está em buscar o seu outro eu.

"Quero apossar-me do 'é' da coisa." A frase, de Água Viva, me paralisou por meses. Tive medo, constrangimento, desentendimento, aflição - mudei de livro, de autor, de temática, fui e voltei, mas continuava atormentada. Agora, quando ouço de Marina Colasanti uma frase de Clarice - "Eu sou mais forte do que eu" - entendo melhor. Começo a me aproximar, chego quase à beirada e posso me arriscar a compreender.

"Às vezes acordo de madrugada e julgo ouvir o bater das teclas da máquina de escrever de minha mãe. Acostumei-me desde pequeno àquele ruído, às madrugadas que ela varava escrevendo." O depoimento emocionado do filho de Clarice Lispector cabe como uma luva no mosaico de impressões deixadas por essa mulher múltipla, praticamente dona de todas as palavras certas.

Há quem diga que ler Clarice é perigoso; o seu "território" é tão específico que muitos ficaram impotentes ao tentar seguir sua literatura. Clarice trilhou um caminho intensamente "de alma" - e suas obras são como tentativas verbais de alcançar um ponto que sempre lhe escapava, nas palavras de Benedito Nunes.

Mas o que acontece com quem lê a torrente de paixões que se arremessa da prosa de Clarice e sente que não pode fazer nada senão entregar-se, segui-la, intensificá-la acima de tudo? Nesse sentido, não há perigo no encontro. Antes, plenitude e um imenso desafio: sentir Clarice, verter Clarice para suas próprias palavras, intenções e gestos.

Lembro-me agora, de "A mulher que matou os peixes". Clarice cultivou muito o universo infantil, talvez por causa de seu filho, talvez porque amasse as crianças ou tivesse, ela mesma, algo de lúdico e simples em meio ao terremoto interno da mulher crescida. É um livro que qualquer criança entende, sente - e no qual viaja, hipnotizada, com bilhete sem volta.

Para Vilma Arêas, autora de "Clarice na ponta dos dedos", Clarice é intuitiva. Na verdade, ela era um mundo à parte, com tudo do melhor e do pior que o mundo de verdade tem. O incrível e fantástico é que, com essa multiplicidade e por caminhos tortuosos, Clarice entrava sem dificuldade no coração das pessoas e passeava pela alma com uma desenvoltura que podia assustar.

No mundo prático, Clarice não tinha lugar. Não se sentia à-vontade com as lides comezinhas do dia a dia. Ter de escrever para ganhar a vida - crônicas e até mesmo livros - era algo que a angustiava. Mal interpretada às vezes e injustamente taxada de reacionária ou alienada, Clarice tinha seu próprio jeito de interpretar a realidade brasileira. Assim, a pobreza e a exclusão foram temas de "A hora da estrela", enquanto, em sua última crônica, escreveu sobre o bandido conhecido como Mineirinho, assassinado com dez tiros. Envolvia-se, preocupava-se, mas não sabia viver direito num mundo sedento de palavras de ordem. Política, sim, partidária jamais.

Clarice falou como ninguém ao meu coração feminino em "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", uma de suas obras ditas "menores" (Aliás, dessa questão de menores ou maiores, prefiro passar ao largo; existe apenas Clarice, que nasceu na Ucrânia mas criou sua alma aqui, no idioma das nossas contradições). "Uma aprendizagem" é todo intensidade, fervor - e nudez, também, um despir-se de tudo o que é mero, fugaz e incapaz de "ser" completamente.

Na FLIP, Clarice esteve perto, viva, menos mito que poesia. Marina Colasanti contou sobre um jantar que a própria Clarice pediu para ela fazer, num recado transmitido por Nélida Piñon. Ela queria ver os amigos. Marina fez, Clarice chegou "imperial", na definição dela - e logo depois desesperou-se numa dor de cabeça e pediu para ir embora. De nada adiantaram argumentos ou aspirinas. Precisava muito ir. "Tudo é terra dos outros onde os outros estão contentes" - sentenciou. Tudo o que Marina pôde fazer, diante disso, foi pedir ao marido, o poeta Affonso Romano de Santanna, que a levasse.

- Tenho certeza de que ela ficaria muito feliz em saber que, hoje, essa 'terra' é toda dela - concluiu amorosamente Marina.

Em respeitoso silêncio, todos nós concordamos e aplaudimos com o nosso coração selvagem totalmente dominado pela lembrança e pelo mistério de Clarice.

domingo, setembro 04, 2005

Cinco a zero

Domingo de grande decisão, o Brasil praticamente inteiro na frente da televisão: é hora de carimbar o passaporte pra Alemanha, como diz o inspirado comentarista global.

E vencemos com todos os requintes, até direito ao quinto tento no último minuto do segundo tempo. E o adversário, coitado! Nada de gol de honra; é fazer as malas e adeus. Um cinco a zero na veia, um pico de adrenalina para restabelecer o fôlego da confiança, ultimamente tão abalada, dos brasileiros.

Que é bom, não adianta negar. Mesmo quem diz não ligar pra futebol pode sentir o amarelo no ar, aquele amarelão de ouro que tremula na arquibancada, que venta na alma. É uma força nada estranha, um "eu sabia" que, ainda que não tão sabido assim, sai do coração com tanta certeza, com tanta empolgação, que emociona de verdade.

Nos braços dessa alegria, fiquei pensando em como seria bom se ganhássemos de cinco a zero em outras lutas além do gramado. Se a gente derrotasse a fome por cinco a zero, por exemplo - e goleasse de vez, irremediavelmente, essa funesta senhora que insiste tanto em destruir vidas tão importantes para o nosso destino e futuro.

Tenho certeza de que, se déssemos de cinco a zero na porção abjeta da classe política que consegue encher os bolsos com o dinheiro que faria a diferença entre vida e morte de crianças, entre o remédio ou a condenação para um idoso, entre o futuro e uma arma para um adolescente cooptado pelo tráfico, daríamos um golpe mortalíssimo na miséria que se mostra para nós todo dia, abatendo a dignidade de quem precisa e de quem atende.

Precisamos golear as incertezas, as descrenças, as maldades. Tinha de ser cinco a zero também nas mazelas do Rio de Janeiro, de São Paulo, no estado de calamidade a que o nosso sistema jurídico e penitenciário está reduzido. Somos reféns do crime, do desgoverno, de nós mesmos e de nossos medos e preconceitos.

O nosso povo que canta e bem podia ser feliz, mas não é, o nosso povo que dança de um jeito e dança de outro, bem que podia ir em massa atrás desse cinco a zero. Não num espetáculo gigantesco, uma produção para a mídia, mas com passo firme, decidido, fechado com a vontade de mudar. Muito além dos 90 minutos de uma emoção bela, legítima, mas passageira - e no entanto, com a mesma garra, graça, ginga e raça, que é o que não falta por aqui.

Está na hora de profissionalizar o talento pra golear que a gente tem de sobra. A equipe técnica sempre esteve pronta, é só entrar em campo.

O que será, então, que a gente está esperando?

domingo, agosto 28, 2005

Ferocidade legalizada

Por uns bons dias cheguei a acreditar na Justiça brasileira: a aprovação de uma severa legislação para impedir a violência de cães das raças pitbull e rotweiller me fez achar que, afinal, nem tudo estava perdido. Acreditei nessa lei, numa iniciativa que visava claramente a extinção progressiva dessas raças no Rio de Janeiro.

Pois eu estava errada; a Assembléia Legislativa "abrandou" o rigor da lei e permitiu aos "pobres animais" passear a qualquer hora do dia, "desde que com focinheira, enforcador e conduzidos por maiores de 18 anos".

É inacreditável o número de vozes que se levantaram em defesa desses assassinos em série, alegando que o texto da lei legaliza "maus-tratos". Acaso uma criança que faz malabarismo num sinal de trânsito, que dorme na rua, que passa fome e cheira cola na madrugada merece uma atenção dessas? São momentos surreais que me fazem lembrar o engenhoso protesto musical de Eduardo Dusek, nos anos 80: "Troque seu cachorro por uma criança pobre..." Não, eles não querem trocar; aliás, os donos de cães ferozes, na sua imensa maioria beligerantes, acham que seus bichinhos são "incapazes de violência" e invarialmente acusam as vítimas de "provocação". Criança morta em favela, na rua ou por bala perdida é estatística, mas cartão de vacinação de pitbull é sagrado.

Sempre achei que dono de cão feroz tinha de ter porte de arma, com registro e tudo o mais. Bem, nesse ponto a lei concorda comigo; agora todo mundo tem que registrar na Polícia o seu animalzinho de estimação. Já é alguma coisa. Mas ostentar um bicho desses à luz do dia, nas mesmas ruas em que mães passeiam com seus bebês e onde os velhinhos mais modernos fazem suas caminhadas, é demais.

Proponho relançarmos a música de Eduardo Dusek com camisetas, faixas, passeatas e ações de cidadania. Nem que seja para iluminar, com todos os holofotes, o ridículo que é defender pitbull de rico e ignorar a massa invisível de crianças e adolescentes que é engolida a cada ano por estatísticas inclementes, conivência geral e pouco ou nenhum interesse do Estado em lhes dar sequer a perspectiva de um futuro.

Sonoridades no rumo da paz

Tão irritada fiquei com as críticas ao programa de Schöenberg no Municipal que me inflamei a ponto de esquecer, temporariamente, de comentar o imenso prazer que foi assistir à Filarmônica de Israel, sob a batuta de Zubin Mehta.

O maestro me é caro por motivos que vão muito além de sua consagrada competência. Mora no meu imaginário sua presença forte e emocionada à frente do primeiro Concerto dos Três Tenores, nas Termas de Caracalla, em 1990. Aquele momento absolutamente inesquecível, que devolvia um ainda combalido porém bravo José Carreras às platéias de todo o mundo, após curar-se de uma leucemia, ficou guardado no coração, mesmo após o natural desgaste provocado pelas inúmeras repetições da fórmula. Mas Zubin Mehta foi o artífice da primeira - e, em muitos aspectos, única - reunião das vozes mais importantes do mundo, em torno de uma comemoração alegre e pacífica: o futebol, paixão dos três, paixão de muitos.

Na recente entrevista ao Caderno B do Jornal do Brasil, vemos um Zubin Mehta vigoroso, fértil, alegre e com pendores brasileiríssimos para apreciar o sol, a caipirinha e a macumba ("não abro mão!"). Ativo na música, ativo na vida, Zubin Mehta quer reger o concerto que celebrará a paz entre Israel e Palestina, afirma com um sorriso convicto, quase infantil. Bons ventos; a gente merece ver gente incansável, que tem talento para a arte e a cidadania, fazer planos, desenhar futuros que podem ser decisivos. Nos seus muitos anos à frente da Orquestra Filarmônica de Israel, sempre procurou semear a paz ao longo das notas musicais, onde quer que se apresente e seja qual for o repertório. Arriscou Wagner em Jerusalém, com a pretensão de curar feridas com a magnitude da música; hoje, apesar de admitir que foi um erro naquele momento, prova que ainda crê no poder universal e transformador da música, mesmo nos momentos mais difíceis.

No palco do Municipal, a Filarmônica de Israel não decepcionou: não faltaram uma emotividade sutil, crescente e contínua, qualidade verdadeira, talento e esforço concentrado. Um teatro lotado, em suspenso, mal respirava ante o cuidado, a confiança, a certeza de uma equipe que se entrelaça ao seu condutor, guia e mestre e responde com imensa energia e talento ao que se exige dela.

E como se exige! À clareza e suavidade da Sinfonia nº 41 em Dó maior ou "Júpiter", de Mozart, segue-se o angustiado e tortuoso diálogo musical que caracteriza a "Trágica" de Mahler (Sinfonia nº 6 em Lá menor) - que, segundo as reminiscências da esposa do compositor, Alma Mahler, era a obra que mais profundamente o emocionava. Somente uma orquestra perfeitamente madura e profundamente viva seria capaz de executar tão ambicioso programa com um equilíbrio perfeito entre emoção e técnica, como o fez a Filarmônica de Israel. Sem a menor pretensão de analisar as filigranas do desempenho musical, recebo apenas a beleza e a emoção que tomaram conta do meu espírito e inundaram de felicidade os meus sentidos auditivos.

Com o concerto, fiquei mais confiante na promessa de Zubin Mehta para celebrar a paz; afinal, quem constrói milagres musicais como o que tivemos aqui no Rio, no dia 18 de agosto, só pode ser a pessoa certa para dar o tom de um futuro que a humanidade toda quer ver acontecer.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Abaixo a arte, viva o cenário????

Sem a menor vontade de voltar a mencionar o caos mental em que caímos, talvez por influência da crise nacional de auto-estima provocada pelos ventos dircélicos e delubianos, devo dizer que me espanto em verificar que esses sintomas vêm atingindo também a arte. E de forma grave, a tal ponto que até experientes críticos confundem muitas coisas - e passam a louvar o que não acontece em lugar do que acontece.
É meio como naquele recurso de computador em que você move uma forma "para trás" ou "para a frente", dependendo das circunstâncias. E às vezes o que você move para trás pode ser muito mais importante do que o que acaba ficando na frente.

Assisti na estréia ao duplo Schoenberg produzido pelo Theatro Municipal do Rio, composto da ópera Erwartung e do balé Noite Transfigurada. Para mim, foi um acerto em muitos aspectos: o bom-gosto, o refinamento, os intérpretes, a direção, a coreografia, concepção, bailarinos, figurinos e cenário. Na ordem em que aprendi a compreender a cena teatral, a primeira coisa visível aos meus olhos e ouvidos é o artista. Através dele e de seu desempenho é que entram em cena a competência da direção, no caso da ópera, e a coreografia, no caso do balé. Os figurinos complementam, a iluminação realça, o cenário situa.

E nessa produção não foi diferente. Os dois momentos nos trouxeram suas lições de beleza e intensidade, força, sutileza, poesia.

Confesso que o dodecafonismo exige sempre de mim um esforço maior, já que sou mais afeiçoada ao melódico. Mas ouvi com o maior respeito a ópera Erwartung que, embora não empolgue, é carregada de um drama profundo e pungente. A concepção me pareceu sensível, exata. Laura de Souza correspondeu plenamente e conseguiu manter a intensidade, que foi o que mais me prendeu desde o início. Lamentei, como tenho certeza a maioria dos presentes, a falta das legendas. Uma obra difícil como esta, que exige do intérprete um esforço quase sobre-humano, já que a protagonista deve comandar a cena sozinha no palco com sua dor e desventura, teria na legenda um apoio essencial. Aliás, legenda não é uma praxe, algo dispensável em ópera: faz parte da função, do contrato que se celebra entre espectador e obra.

Soube no intervalo que a ausência das legendas foi imposição unilateral do cenógrafo, pois segundo ele desviaria a atenção do "seu" cenário, e aceita sem questionamentos por parte da direção da casa.

Este foi o meu primeiro espanto. Não compreendo, já que o cenário de Erwartung é deslumbrante e sem dúvida nenhuma extremamente valorizado pela iluminação. A legenda, obrigatória, fez falta à compreensão do todo e prejudicou o resultado.
Noite Transfigurada foi, no mínimo, um prazer indizível; impecável na estética, poético no movimento, artístico até mais não poder e de um refinamento a toda prova, o balé criado por Fábio de Mello é novo na maneira de traduzir em formas a sensualidade e a tensão da música. Além disso, valoriza cada dupla de bailarinos em particular, exatamente naquilo em que cada uma tem de melhor. Um grande poema sob medida, sem fragmentações, sem resvalar em mesmices, com beleza romântica e humana ao mesmo tempo. O conjunto masculino que representa a noite, mas que também poderia representar o lado sombrio do coração daquelas quatro mulheres em uma, enquanto permitem assomarem seus sentimentos de dúvida, medo e insegurança, faz uma costura de cena belíssima, com figurinos afinados com as tonalidades da iluminação. São seres fantásticos e, por isso mesmo, as roupas assinadas por Rosa Magalhães fazem questão de sublinhar esse aspecto mágico de um poder que envolve, oscila e circunda a consciência que se debate.

Para mim, foram emoções na medida; enquanto Erwartung me atirou no chão com alguns arranhões, Noite Transfigurada me deu uma oportunidade de arriscar a jornada do herói e chegar a uma espécie de iluminação, mesmo carregando a dor como documento da alma.

Mas o que eu não sabia é que o meu espanto cresceria imensamente nos dias que se seguiram, ao me deparar com as críticas de Roberto Pereira, ontem no Jornal do Brasil, e Silvia Soter, hoje no Globo.

As opiniões de ambos fazem coro em ponto e contraponto. O que as diferencia, basicamente, é a elegância, no caso de Silvia Soter, e o escárnio de Roberto Pereira. Tamanha concordância só fez aumentar o meu leigo espanto, após uma noite de estréia em que a platéia simplesmente não permitia que a cortina se fechasse, tamanha a felicidade coletiva pelo belo resultado. Será que os críticos são pessoas tão acima do bem e do mal que conseguem enxergar monstros onde os pobres mortais da platéia só vêem flores?

De tudo, o que mais espanta - com a devida vênia pelo uso excessivo, esta é a palavra que melhor traduz o meu estado de espírito - é que o cenário seja mais festejado pela crítica do que a obra de arte! Roberto Pereira, inclusive, chega a considerá-lo "sozinho em cena", desprezando solenemente coreógrafos e bailarinos! No Globo, o cenário ganha inclusive uma crítica própria, de Luiz Camillo Osório, que ressalta seu "diálogo" com a música de Schoenberg...

Francamente, creio que um amante de música ou dança jamais pagaria um ingresso para se sentar no Theatro Municipal e assistir a um cenário que dialoga com a essência da música dodecafônica e dispensa a presença de orquestra, maestro, cantores e bailarinos. Ainda que esse cenário seja assinado por um importante artista plástico brasileiro - e que seja belo, sensível e bem executado. Na ópera ou no balé, cenário é um elemento complementar, sem que isso desmereça sua importância. Quando um cenário ganha espaço na mídia e é exaltado acima do conteúdo do espetáculo, alguma coisa está muito errada. E, como testemunha, posso dizer que o erro não está, de modo algum, no conteúdo de uma produção competente e bem realizada, apoiada no talento de gente experimentada e sensível como o maestro Colarusso, o diretor da ópera, Gilberto Gavronsky, a intérprete Laura de Souza, o coreógrafo Fábio de Mello e, meu Deus, bailarinos da estirpe de Ana Botafogo, Áurea Hammerli, Nora Esteves, Sandra Queiroz, Marcelo Misailidis, Vitor Luiz, Joseny Coutinho e Paulo Henrique. Emoldurados luxuosamente, diga-se de passagem, pela iluminação de Paulinho Medeiros.

Senti farpas de maldade na crítica de Roberto Pereira, que não conheço; agulhas espalhadas em várias direções, dando a nítida impressão de querer atingir alvos específicos. Já Silvia Soter foi mais técnica e comedida, objetivando o tema com o suporte da lógica e da técnica. Ambos, porém, apressaram-se em rotular Rosa Magalhães, deixando de captar sua poética construção para os figurinos do balé, em absoluta sintonia com as necessidades de expressão e movimentos. As alusões ao carnaval me pareceram uma tentativa de anular as múltiplas competências da figurinista, como se fosse obrigatório comparar projetos em nada comparáveis.

Na minha felicidade em assistir ao espetáculo e me orgulhar dos nossos artistas, não me preparei para a ferocidade com que alguns podem se dedicar a minimizar o talento e o profissionalismo deles. O que fica é um estranhamento, uma ponta de desconforto e também uma certa revolta, porque, ainda que os textos sejam assinados, ninguém, nem mesmo os autores, pode responder pelo estrago que eles causam. Daí a importância de se assistir, a todo custo, à arte em ação no palco, ainda que essa arte tenha defeitos, pois fatalmente terá qualidades. A arte verdadeira e sincera sempre emocionará o público, pois vale mais que milhões de palavras-agulhas, expressões-dardos ou frases-morteiros soltas ao vento.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Vida que explode

Sergio Britto. Ponto final e inicial. Não vale tentar defini-lo com termos extraídos do catálogo normal do nosso vocabulário. Ver o Sergio em ação é reaprendê-lo sempre, pois nada é e nem pode ser esperado; é um testemunho novo, reinventado, reescrito, reinterpretado com uma autenticidade absolutamente autoral e viva, verdadeira, que não se repete jamais, ainda que um mesmo texto, voz e expressões sejam evocados a cada noite. Tudo o que parece ser igual, na verdade é sem igual. E Sergio Britto, 83 anos e a mais absoluta expressão da vitalidade de corpo, alma e coração, se dá de presente à platéia, aos afortunados por estarem diante dele, a cada dia com a mais absoluta originalidade. E com a generosidade de quem aprendeu a viver tudo de novo, com todas as forças, a cada momento.

Jung e eu, eu e Jung: idéia, texto e arquitetura de grande beleza, mérito dos autores Domingos de Oliveira e Giselle Falbo Kosovski, sem dúvida, mas costurado direto no corpo, na alma, na anima de Sergio Britto. Ou terá sido essa anima a se imiscuir na própria criação, dando-lhe a essência que subverte as palavras de tal forma que as transforma em vida orgânica, numa globulina espiritual que faz tremerem as veias de quem as presencia, como se o próprio sangue não agüentasse ficar preso no corpo da gente? Sergio Britto dividido e multiplicado nas peles do Dr. Jung e do ator Leonardo-Svoba-ele-mesmo que vai vivê-lo, os dois tecidos um à imagem e semelhança do outro, separados apenas por obra e graça de um cênico par de óculos, é a expressão máxima do que seria, para mim, uma definição de "vida". Vida que urge, que teima, que incandesce, cresce, domina, envolve, seduz, distribui-se, alaga, enreda e se doa completamente.

E o nosso Sergio maior - aquele que aprendemos a amar pelo talento, grandeza e peso intelectual na história do nosso teatro - prova mais uma vez que é muito, muito mais que isto. Menino sempre pronto para o novo, o surpreendente, o inusitado, o inimaginável que no entanto o confirma: Sergio nas mãos da vida e a brincar com ela, a dar-lhe voz aqui, voz ali, a argumentar e contra-argumentar com tudo o que é improvável, mágico e belo. E só, inteiro, desarmado diante do enorme, enorme desafio. Sergio é a sinceridade sem disfarces, é aquele que se entrega com tal intensidade a quem quer recebê-lo que acaba fazendo parte de sua alma.

No encontro amoroso com Jung via Svoba, Sergio nos convida e nos leva ao espaço sem gravidade das emoções mais profundas, praticamente exige que abramos nossa alma e deixemos de lado as vidas diárias tão exigentes para
fluir com ele e seus personagens rumo àquilo em nós que quase sempre não ousamos tocar. E súbito as teorias se tornam leves, permeáveis, acessíveis ao coração como um sopro da vida verdadeira que ele solta no ar, pega quem quiser, contamina-se quem estiver pronto e disponível.

Sergio e sua vida pulsante são um tesouro fantástico que absorvemos com uma estranha felicidade, um sorriso avarento de quem descobre de repente que possui ao menos um pedacinho da maior obra de arte jamais concebida, e que pode dispor dela à-vontade mas não pode contar a ninguém, não, não deve, pois quem sabe, Deus o livre, ela pode de repente se esvair e então, como fica o coração?

Sergio Britto, Carl Gustaf Jung, Leonardo Svoba. Nomes novos e eternos para a nossa esperança e um lampejo de felicidade e vida, vida, vida para aplacar a dor dos tempos e nos fazer tomados, num instante único, da sensação de que podemos ser melhores.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Contro-versos

(da série "Tratado das Letras de Parati", sobre a Mesa 2 - Coro dos contrários)

Poema nem de longe inunda a sala,
resvala com algum escândalo
por espaço mínimo,
senta-se para conversar,
mas sem muito ânimo.
Muitos esperam, suspiram
e até conspiram,
mas poema quer nem saber.

Um aplauso mediado se anuncia
mas não eclode,
enquanto a voz do cais
fala em referências.

(Não ouço a música das palavras
no espaço suspenso
onde agora poderiam brincar.)

A moça loura com olhos de boneca
se esvai

pretenso jogo de desdém

e encolhe o verso.

Apenas resta
um bravo navegante
a singrar ventos de Macau
com música, música, sim,
de palavras! Que começam
a chegar de roldão,
e belas, e cheias,
e plenas, enfim,
ocupando o tempo
como vastos véus
de algodão recém-tecido.

(Poema abre um olho só,
mas fecha depressa
e se recosta,
fingindo dormir.)

No espaço escorrido
do tempo quase frustrado
as palavras não se vestem
da festa pretentida.

Poema talvez desejasse voar,
mas de que jeito?
Melhor puxar a cortina,
se houvesse uma,
e dançar
nas pedras da rua.

Um segundo escuro pontilhado de estrelas

"Agora vai ficar tudo escuro, mas em seguida volta", instrui a voz confiável. Espero, mal respiro. O medo silencia e obedece. E de fato escurece, mas - incrível! - há múltiplos pontos coloridos no escuro fugaz. Logo em seguida, minha visão volta, enquanto a cirurgia prossegue. O medo se afasta de vez, e acompanho fascinada o que ocorre à flor dos meus olhos que em breve se verão renovados, livres da permanente dependência dos óculos, por mais "fashion" que possam parecer.

A aventura é quase indescritível. Ao decidir embarcar, escolhi a companhia do Dr. Carlucio Andrade, mais que experiente oftalmologista e cirurgião carioca. Como todo mundo que viveu a mesma situação, tenho certeza, alternei-me entre o temor, a dúvida e a determinação que, no final, se fez maior.

Deitada na cadeira cirúrgica, penso apenas em concentrar-me no meu papel: não atrapalhar. O cirurgião explica com suavidade cada fase do processo. Em contraste com o breve tremor que me assaltava ao vestir as roupas hospitalares, pantufas e touca (um frio irreal que crescia e se tornava quase insuportável), agora sinto-me bem, tranqüilizada e consciente. E assisto ao milagre tecnológico, operado pela mão precisa do profissional.

O olho tudo vê, mas como se fosse o de outra pessoa: não há sensação física, somente uma observação constante, um desfilar de imagens ora firmes, ora desfocadas, guiadas por uma luz permanente, ora verde, ora vermelha, que mantém o olhar cativo e firme. Sinto-me espectadora de mim mesma, não protagonista. Não imagino catástrofes e nem me dedico a pensar no ato cru e material da cirurgia. Só a viagem mágica existe, a contemplação de mundos feitos de caleidoscópio.

"Agora vamos fazer o laser. Você vai ouvir um barulho e tudo vai demorar uns vinte segundos, no máximo."

Esta é a hora em que a minha visão vai mudar para sempre, penso. E continuo a buscar a luzinha-guia, com toda calma, até que o anunciado barulho, nem tão alto assim, silencia. Seguem-se as operações finais, que a voz sempre informa. E o final de tudo, em inacreditáveis dez minutos.

Levanto-me da cadeira e recebo um par de óculos escuros tipo Matrix. Saio caminhando tranqüilamente e sou conduzida até a sala de espera, onde aguardarei um último exame, após uns trinta minutos. Lá encontro os operados que me antecederam e encontrarei, dentro em pouco, os que me sucederão. Instaura-se no ambiente uma espécie de terapia grupal, onde todos riem, aliviam-se das tensões passadas e se contemplam por trás dos óculos iguais, antecipando a felicidade futura de enxergar melhor. Adoro esse momento e deixo-me levar, com os até então desconhecidos que de repente partilham comigo algo especial e único.

Passo pelo exame, sou liberada e sigo para casa. Sozinha, heróica e triunfante como nunca.

No caminho, penso nos vários milagres que vivi - a tecnologia, a competência e humanidade do médico, a determinação interior de vencer o medo e dar um passo adiante. E contemplo esse lado bom da evolução: trabalhar para criar formas de fazer alguém sentir-se mais capaz, como eu me sinto agora. Em mais dez dias, operarei o outro olho e poderei sair de casa sem óculos. De novo, como há muitos anos atrás, olharei de frente para a vida sem anteparos, e conseguirei enxergá-la em suas cores reais ou, pelo menos, nas cores que os olhos da minha alma interpretam como reais.

Estranha e boa felicidade, libertada por um simples e novo olhar.



domingo, julho 24, 2005

Todas as guerras nos afetam

Talvez por um mecanismo psicológico de defesa, temos uma certa tendência a cristalizar nossos sentimentos mais profundos diante de situações de perigo, conflito, guerra. Vivemos em torno dessas situações, sejam elas próximas ou aparentemente distantes, como se elas não nos afetassem, como se tudo acontecesse somente com os outros.

Até presenciar um ato violento, como protagonista ou não. Ver aquela dor passar por dentro do corpo, guardar-se em imagens na memória, um filme que insiste em se reproduzir na tela da consciência.

Ou até ser atropelado e tocado pelo relato de alguém que viveu, ou vive, uma guerra. Nesses momentos, dá-se a ponte entre a humanidade que mora em nós e as situações que ameaçam essa humanidade.

A Flip 2005 provocou em mim umas tantas alterações nesse sentido. O ambiente esteve todo o tempo aberto à exposição de relatos de experiências fortes, não para que fossem vistas como curiosidades, como forma de ampliar nossos insights, mas justamente para nos confrontar com duras realidades que mudam o mundo a cada segundo e sacodem, violentamente, o quintal da nossa alma.

Me lembro de uma cena exibida em todos os telejornais há um tempo atrás, que me marcou profundamente: um palestino e seu filho de uns 10, 11 anos, tentavam passar por uma calçada onde só havia um muro, nenhum lugar para se proteger, com o exército atirando bem à frente. O pobre homem, desesperado, fazia sinais, pedia passagem, tentava dizer "Por favor, deixa a gente passar!" a metralhadoras insensíveis produzindo balas a todo vapor, ao mesmo tempo em que tentava inutilmente proteger, com o próprio corpo, o corpo do filho. E tudo documentado por uma câmera de frente para o crime. As balas não cessam, apesar dos apelos, a criança é brutalmente assassinada e o pai fica muito ferido. O desespero daquela cena jamais saiu da minha memória. No dia seguite, soube pelos jornais que o homem sobrevivera, e me lembro de ter sentido uma enorme dor. Pensei: talvez fosse melhor morrer, numa situação dessas. Uma pessoa comum, pacífica, que só deseja, e não consegue, fazer o que todo pai desejaria num momento daqueles: proteger seu filho de todo mal. E fica apenas com a morte nas mãos.

Anos mais tarde, numa tarde de domingo que se anunciava aprazível no Rio de Janeiro, chego de carro ao Centro Cultural Banco do Brasil, com duas amigas. Ia ver uma exposição de desenhos de Rembrandt. Logo ao saltar, alguém na porta do Centro Cultural diz: "Olha!" Olhei e, a poucos passos de nós, no meio da rua, um homem com uma bala na testa era imobilizado por um policial à paisana que brandia em todas as direções uma pistola a meu ver gigantesca. Apavoradas, retornamos ao carro e nos abaixamos, sem saber o que poderia acontecer. O homem, possivelmente um assaltante (jamais saberemos), morreu na calçada. E o domingo inacabado se esvaiu em tristeza.,

Na Flip, vários depoimentos vieram mexer nessas feridas aparentemente pequenas. E tiveram o efeito de um estranho mas necessário despertar. No Rio de Janeiro, em Jerusalém, em Bagdá, na faixa de Gaza, em Angola, nas muitas favelas brasileiras dominadas pelo tráfico, em Madri e Londres, no Egito e em muitos lugares que não figuram nos jornais, a insanidade destrói vidas o tempo inteiro, por milhões de motivos e nenhuma razão.

MVBill é um rapaz admirável, que se diz salvo pelo hip hop e pelos livros, que descobriu trabalhando numa banca de jornal. O hip hop foi a ponte para vencer a invisibilidade de quem é "preto, pobre, mora em favela e teve uma infância padronizada, com muito trabalho e pouco estudo", segundo suas próprias palavras.
Hoje luta para diminuir o genocídio de jovens pretos e mestiços das favelas por conta do tráfico, mais de armas do que de drogas, segundo suas pesquisas, relatadas no livro "Cabeça de Porco", escrito em parceria com seu empresário Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro e alvo de perseguições políticas que o obrigaram, inclusive, a se auto-exilar no exterior.

Com o clip "Soldado do morro", que retratava jovens do próprio tráfico, Bill quis documentar a dimensão da tragédia que condena à morte 100 em cada cem mil adolescentes brasileiros pretos e pobres, estatística pior do que a de conflitos como o do Oriente Médio, por exemplo. Em vez disso, foi acusado de fazer a apologia do tráfico e responde processo até hoje. Vozes em sua defesa? Nenhuma, a não ser a de Luiz Eduardo Soares, que nem sequer o conhecia, mas sabia tudo das artes e manhas entre o aparelho policial e o tráfico. "Quando li sua entrevista na revista Caros Amigos, vi que ele só fez isso pela verdade", emociona-se Bill.

Dos 16 jovens que aparecem no clip "Soldado do Morro", quinze já estão mortos. Rodando o Brasil inteiro para documentar a situação dos jovens reféns do tráfico, MV Bill e Celso Athayde perceberam que a dimensão do problema era muito maior do que pensavam; as mortes continuam, do Oiapoque ao Chuí, e muitas não são noticiadas. Com quase 180 horas de material filmado, Bill admite que o problema está longe de uma solução. No noticiário, ganham espaço as mortes mais "próximas" das metrópoles, mas ninguém fala do problema em termos nacionais. Os jovens filmados falam de sua esperança de mudar, de seus sonhos e dores. Um dos retratados no clip, também assassinado, tinha uma enorme revolta porque a mãe "morreu antes de me levar no Beto Carrero". Seu maior desejo era ser palhaço.

Saída não tem, mas, segundo Bill, "a humildade é o nosso método científico." Dentro de um quadro que parece insolúvel, e a partir do tamanho do abismo, sem arrogância, "talvez a gente consiga inventar um jeito de sair. Porque tem que haver um jeito".

Pedro Rosa Mendes, jornalista português, percorreu durante quatro meses áreas imensas de Angola que não eram visitadas por ninguém e representavam "uma cápsula gigantesca de invisibilidade e silêncio". A missão, realizada por sua conta e risco, era entender o conflito.

Já nos preparativos do que chama de sua "viagem através do vazio literal", Pedro descobriu que ninguém sabia nada do que se passava no país. Munido apenas de sua curiosidade jornalística, Pedro percorreu o território da guerra, que não existe para a economia e nem para o turismo: um arquipélago de vazio onde milhões de indivíduos reproduzem a solidão, isolados de ingredientes básicos da condição humana, como a memória de uma língua, da família etc. Em quatro décadas de conflito, 75% da população angolana tem hoje menos de 25 anos; desses, a grande maioria tem no máximo 15 anos. A guerra primitiva, porém servida pelos mais modernos instrumentos de morte criados pelo homem, deixa atrás de si um imenso rastro de destruição, onde todas as as referências foram cortadas, além de uma vasta legião de mutilados pelas minas terrestres.

Pedro Rosa Mendes fez questão de registrar sua viagem no livro "Baía dos Tigres", para que não seja possível dizer que essas coisas não aocnteceram. E se emociona com a generosidade dos sobreviventes, que reinventam a vida todos os dias. "Numa guerra assim morremos coletivamente, mas quando se chega a inventar a vida nessas condições, já não é uma sobrevida, mas uma vida muito além da morte".

Mas Pedro não se exime da responsabilidade. "Esse esterco humano, gente pilhada de toda normalidade a um nível dantesco, foi produzido por nós." E denuncia o papel financiador das empresas multinacionais que alimentam o conflito para servir a seus interesses.

John Lee Anderson, que conhece bem Angola, concorda que é um dos lugares mais esquecidos da terra. "Saí dali profundamente entristecido e com uma raiva que não sentia há tempos." O jornalista americano faz coro às denûncias de Pedro: "Há pessoas amputadas por todos os lados e sangue nas ruas. O país está destruído, mas o petróleo e os diamantes continuam a sair regularmente, sem qualquer problema." E a história é a mesma em Bagdá: "O maior exército do país é contratado pelas empresas petrolíferas, para proteger o oleoduto."

Nesse sentido, os dois concordam que a lógica de poder em Angola, no Iraque e em Serra Leoa é bem parecida. "Apenas por má fé conseguimos ignorar que as piores zonas de conflito são zonas de pilhagem", comenta Pedro. Angola garante 9% das necessidades energéticas dos Estados Unidos; nos momentos mais drámáticos, quando o conflito matava 1000 pessoas por dia, o comércio de diamantes financiava a Unita com 500 milhões de dólares.

Para ambos, esse tipo de círculo vicioso ocorre sempre que as zonas de conflito são mantidas numa membrana de invisibilidade. Por isso é tão importante escrever e mostrar, revelar todas as cores da tragédia.

Em Bagdá, os ataques a jornalistas se tornaram parte do conflito. E John Lee Anderson vê isso de forma preocupante, porque "a segurança é tão precária, qualquer controle é tão impossível que não se consegue chegar à cidade. Há carros-bomba suicidas e o exército não controla o trajeto entre o aeroporto e o centro de Bagdá. Muitos jornalistas vivem dentro da chamada "zona verde" e o único meio de cobrir é com imagens fornecidas por um dos lados do conflito. "Só se pode sair disfarçado ou à noite. É terrível, pois os jornalistas não são respeitados como apartidários".

John Lee Anderson alerta para o fato de que o Iraque não era campo de batalha do terrorismo, mas agora já é, numa guerra sem piedade. E os jornalistas são perdedores porque não conseguem mais informar: as opiniões são muito polarizadas. Mas mesmo assim, é importante que "não deixem que o conflito perca importância, porque Bagdá ainda é uma capital com 5 milhões de pessoas e teremos um monte de vítimas, diretas ou indiretas. E ser vítima não é uma condição nobre, nem torna alguém uma boa pessoa."

Pedro Rosa Mendes considera que a maior tragédia de lugares como Angola, Colômbia e Afeganistão é que "o conflito torna-se autônomo, despido de toda razão ou ideologia, e essa autonomia é viabilizada pela máquina da guerra, fruto dos interesses econômicos."

Como viver tudo isso, escrever e sobreviver? John Lee Anderson precisa de um período de "descompressão", ao sair de uma zona de conflito. "Eu sentia muita raiva, não podia ir de uma situação a outra assim impunemente. Então, quando saí do Iraque, fiquei uns quatro dias em outro lugar, para me compensar." Apesar das dores, o jornalista acha melhor ter suas feridas "abertas" do que cicatrizadas. "Prefiro ter todas as memórias comigo, para saber onde caminho e onde cai minha sombra."

Para Pedro, é preciso desenhar uma espécie de "fronteira cartográfica" entre aquilo que se vê e o que ocorre em si, para que seja possível refletir sobre a violência e dar-lhe uma linguagem que seja inteligível para quem não viveu a situação. "É preciso colher os espinhos no fim do dia".

Ao longo de sua viagem de quatro meses, que coincidiu com os quatro meses finais da primeira gravidez de sua mulher, Pedro Rosa Mendes carregou consigo a primeira ecografia de sua filha Inês. "Naquele papel tinha mais ou menos a linha do rosto dela no dia da minha partida. Não gosto de andar com retratos dos que me são caros, mas levei a ecografia. A tinta desse tipo de impressão sai com facilidade, e ao longo do tempo parece que se desvanecia, mas ao mesmo tempo continuava lá. E eu tinha que voltar antes que o rosto dela sumisse de vez. Aquela ecografia foi o meu elo com a realidade para a qual eu sabia que retornaria."

David Grossman falou no primeiro dia da Flip, e de certa forma foi ele quem abriu minha "ferida pessoal" sobre conflitos e responsabilidades, com uma constatação totalmente inesperada: "Nós, o povo judeu, temos um passado e tradições, mas não temos futuro. Viver em Jerusalém é como viver numa casa com paredes móveis; você não sabe direito onde está, onde vai, como fazer qualquer planejamento." A sinceridade de seu testemunho me emocionou e chocou, fez pensar e melhorou minha capacidade de ouvir naquele exato instante. Indo além, David insistiu na necessidade de nos colocarmos no lugar do outro, num conflito, mesmo que esse outro seja o "inimigo". Todos têm razões e nenhum tem razão, por isso é preciso combater o radicalismo, a arbitrariedade, a insanidade de parte a parte. É esse o compromisso que ele sempre teve em anos de jornalismo, em suas inúmeras crônicas, ensaios, palestras e em seu trabalho como escritor.

Estamos aí, todos, diante dessa insanidade - tragicamente exemplificada pelo brutal assassinato de um jovem brasileiro, eletricista mineiro de 27 anos e há quase três em Londres, por uma Scotland Yard que, cega pelo medo e pela impotência, o confundiu com um terrorista. Qual é a guerra que não nos afeta? Somos todos responsáveis e temos, como diz MVBill, de 'inventar uma saída', um jeito de nos comprometer, ainda que isso se restrinja a umas poucas linhas num blog, uma crônica de jornal, um livro-reportagem, um lívro-denúncia.

Se temos direito à condição humana, temos de atravessar as barreiras dessa dor e construir alguma coisa, cada qual com sua enxada e pá, mesmo que, em vez de metal, ela seja feita de palavras.

sábado, julho 16, 2005

Concordo em prosa e verso...

(da série "Tratado das Letras de Parati")

... com a jornalista Mànya Millen, em seu artigo "Palavras necessárias", do Globo de hoje: o que ficou da Flip 2005 foram as idéias - apaixonadas, vibrantes, inusitadas, poderosas - que tornam a literatura tão necessária para se viver nesse tempo de contradições.

Longe das críticas e além das pequenezas, o que veio à superfície foi tão importante, atual e imediato que desafia qualquer discussão bolorenta e recheada de definições. O que a literatura fez, durante toda a Flip 2005, foi provocar a consciência individual de um jeito bem coletivo. Houve, por assim dizer, uma "espalhação" democrática do pensamento humanista dessa virada de século. As pessoas tinham muito a dizer, mas nem tanto sobre si mesmas, seu estilo ou o ofício de escrever. O que conta de fato é o seu papel no mundo. E assim foi-se formando uma massa de enorme consistência, alimentada pelo pacifismo forte e sincero de David Grossman, um olhar totalmente novo e verdadeiramente humanista sobre o conflito entre israelenses e palestinos; pela releitura de Michael Ontadjee das suas raízes e das profundas feridas do seu povo; pelo agudo realismo documentado por MVBill, na busca de uma forma de frear o genocídio de adolescentes pretos, pobres e marcados pelas leis do crime organizado no Brasil; pelo jornalismo apaixonado de John Lee Anderson e Pedro Rosa Mendes, testemunhas da alma destroçada de Bagdá e de Angola; e pela fiel reprodução que Salman Rushdie fez do que havia de belo e amoroso num mundo hoje extinto, a Caxemira de sua infância.

Lado a lado com a criação literária e intimamente imbricado nela está o ato de viver, viver no mundo. E uma coisa alimenta a outra. Se Clarice Lispector não cabia no mundo dentro de si, se Machado de Assis explicava o mundo na voz seus personagens, e se a literatura também pode falar de algo externo à vivência pessoal, mas dá voz a um registro da condição humana (ou desumana), ela vive na eterna busca por traduzir, transformar e tentar solucionar o mundo. E tudo acaba - ou começa - na mesma reflexão: o que eu posso ajudar a mudar, enquanto produtor ou consumidor de literatura?

O tempo todo, em Parati - enquanto assistia às mesas e recebia essas informações, entre surpresa, emocionada e muitas vezes indignada, ou enquanto caminhava entre as ruelas seculares tentando capturar frestas de passado - essas questões me assaltavam. Reorganizava-me por dentro a partir de todas as novas referências, olhares e leituras da dor do instante presente em toda parte, que funde numa mesma panela os garotos das favelas brasileiras, soldados e crianças na faixa de Gaza, idosos e mulheres nas ruas de Bagdá, mutilados e sobreviventes em Angola.

Mànya Millen tem muita razão e muita clareza. A mescla entre vida literária e vida real, na Flip, foi a grande "produção" do encontro. Produção de consciência e de movimentos que, embora aparentemente pequenos, são definitivos na nossa construção diária do mundo. Sinto-me como que acordando, entre os pequenos e sublimes prazeres de um bom texto e o gravíssimo e convulso acontecer da vida que nos demanda, cada vez mais, ações concretas para operar, ainda que em ínfima escala, as transformações que são, assim como as palavras, muito necessárias para o hoje e o amanhã.

O mundo é pequeno, mas o Alentejo é muito grande

(da série "Tratado das Letras de Parati")

Palavra de bom português: José Luís Peixoto acredita mesmo no romance. É dele a frase que dá título a este artigo, e que na verdade veio em resposta a uma pergunta: alguém queria saber no que o Alentejo dele era diferente do Alentejo de Saramago. A resposta sintetiza o poder do romance: um mesmo lugar pequeno, povoado de histórias de aldeia, pode dar livros e livros os mais diferentes, de acordo com aquilo que desperta no escritor. Assim a mesma história, contada de outra maneira, torna-se uma outra história.
O paranaense Cristóvão Tezza, que dividiu com Peixoto e Beatriz Bracher a primeira sessão da Flip 2004, "A força do romance", acha que a vida do romance está justamente no fato de que ele não abarca uma "totalidade", mas apresenta um olhar sobre o mundo. O romance narra - e, enquanto houver linguagem, haverá narrativa.
A paulista Beatriz Bracher pondera que o romance só existe quando é lido, assim como qualquer obra de arte só existe no momento em que é percebida. Mas tem um diferencial: fica mais tempo com o leitor. Ele exige uma lentidão, que é justamente onde reside a sua força. Os contos são mais rápidos...
Para José Luís Peixoto, enquanto o mundo for mundo haverá romances. E mesmo os antigos são sempre novos, já que são lidos todos os dias de maneira diferente por leitores que pensam diferente, e assim os vão transformando. - Os leitores acabam sendo os próprios criadores. E uma das grandes riquezas de um texto de ficção é oferecer-se aos outros, enquanto referência e enquanto informação que será processada.
E quais seriam os compromissos da ficção com a realidade do mundo? No aspecto político, José Luís Peixoto sorri e sente-se livre de qualquer obrigação com relação à ditadura de Salazar, já que nasceu em 1974, portanto depois que acabou. - É sempre importante aproveitar a literatura dos que me precederam, porém para criar caminhos individuais. A grande verdade é que tudo nos influencia, de um modo ou de outro; mas é bom não ter obrigação de me posicionar sobre um regime que não conheci. Do ponto de vista da literatura em si, do estilo e da tendência, sinto-me tentado a ir beber justamente nas fontes que são consideradas "fora de moda"; afinal, o romance precisa de muitos estilos...
Beatriz Bracher reforça um outro lado importantíssimo da literatura de ficção: sua influência na educação, por ser o grande palco das experimentações que geram a "posse" das palavras. Só desse exercício saem estilos próprios, formas de expressão individualizadas, não da leitura permanente de jornais e outros textos distantes da ficção. - A literatura ensina a gente a contar histórias e a encontrar o nosso ponto de vista - lembra. Embora, como pondera Cristóvão Tezza, não se enquadre no uso pragmático justamente por ser a única expressão não oficial.
Mas com tudo isso, será que as pessoas lêem menos romances? Cristóvão acha que não. - O que se observa é que as pessoas lêem menos, ponto. Essa é a crise que merece ser combatida, pois a palavra escrita é fundamental como eixo civilizatório e identidade.
Longa vida, pois, ao romance. Em qualquer tempo e lugar, as grandes histórias e suas mágicas palavras serão sempre as primeiras a cativar um aprendiz de leitor.

quinta-feira, julho 14, 2005

Dois homens turcos em um

(da série "Tratado das Letras de Parati")

Olho para ele e me lembro dos altivos beduínos do deserto, com os quais um preciso Malba Tahan povoou a minha infância. Ao lado de Monteiro Lobato, o grande professor Mello & Sousa, disfarçado de árabe, foi um dos autores que mais sedução e magia trouxeram à minha vida de criança sempre mais contemplativa do que afeta ao ar livre.

De fato, Orham Pamuk encarna muito bem o beduíno da minha imaginação; alto e esguio, moreno, olhos verdes, expressão distante e concentrada. E que nos dois encontros com o público transfigurou-se em dois personagens quase completamente distintos um do outro.

O primeiro deles estava tenso diante das "1001 Noites" e falou de sua relação atormentada com essa obra que exerce intenso e igual fascínio sobre orientais e ocidentais. Na primeira leitura, aos sete anos, teve medo; na segunda, aos vinte e poucos, ficou incomodadíssimo com o caráter duvidoso das mulheres das histórias e, embora tenha gostado do livro, não aceitou esse fato e ficou ressentido consigo mesmo! Na terceira, finalmente, sentiu-se influenciado pela magia das tramas e pela qualidade do texto, que virou uma contínua fonte de prazer e inspiração. À medida que falava do caldo de culturas que formou a obra, das várias versões nascidas na oralidade e da multiplicidade de autores, desvendava a história da história: não se sabe até que ponto as "1001 Noites" seria uma obra totalmente oriental. Publicado pela primeira vez numa compilação organizada por um autor francês, o livro dito "original" só mais tarde viria a incorporar contos como "Ali Babá" e "Aladin". E a estética se transformaria, também, nas sucessivas edições.

No segundo encontro surge um Pamuk espirituoso, engraçado e falante. É talvez o único autor que se sente influenciado pelas capas de livros que não leu, e mesmo não os tendo lido tem ciúme de seu conteúdo, "porque devem ter sido escritos por alguém com uma vida bem melhor que a minha".

- Quando não consigo escrever vou para uma livraria e fico por lá, procurando alguma coisa que nem eu mesmo sei o que é. De repente pego um livro, olho para a capa dele e isso me influencia! É verdade! E que inveja sinto de quem o escreveu! Depois vou para casa, escrevo, escrevo, escrevo... e volto para comprar justamente aquele livro, porque acredito que o autor deve ter dito alguma coisa importante. Aí leio e o conteúdo também me influencia!

Seu romance "Meu nome é vermelho" é uma história de mistério que versa sobre um pintor que cria iluminuras perfeitas. Pamuk, na verdade, chegou a se iniciar nos pincéis e tintas. - Não sei por que parei de pintar. Escrevi um livro inteiro (o autobiográfico "Istambul") só para explicar isso para mim mesmo.

Escrever, para um alegre e já totalmente descontraído Pamuk, tem a ver com lembrar e continuar a lembrar. E acrescentar cada vez mais, sempre e abundantemente, até que chega o dia de fazer o caminho de volta e cortar passagens.

Entre sorrisos largos e uma ou outra pitada do humor mais fino, Pamuk já domina a paisagem feito um tuaregue ondulando ao vento. Como Faulkner, sua maior referência, dá voz a objetos e deixa o romance se auto-inventar, em suas próprias palavras.

Os dois Pamuk, afinal, se combinam na melhor tradição árabe: magia e fé, sonhos que brotam como miragens do mais vasto deserto da alma e se transformam em palavras que contam histórias sem fim.

quarta-feira, julho 13, 2005

Rimas de ordem

(da série "Tratado das Letras de Parati")

Confesso que conheço pouco da estética hip hop, ainda que tenha em casa uma filha e uma sobrinha adolescentes e tenha encontrado, em muitos dos festivais de dança que participo, trabalhos interessantes ao som desse ritmo vibrante e identificado com movimentos voltados para a inclusão.
Mas desde Parati uma história de hip hop tem estado dentro de mim, insistente.
Imagine milhares de adesivos para carro, todos absolutamente políticos e infinitamente diversos em intenção e gesto; falam de paz, violência, racismo, homofobia, revolta, felicidade, amizade, arbitrariedade, segregação e tudo o mais que você pensar. Agora pense numa letra de hip hop que junte tudo isso com algum sentido e, ainda por cima, com rimas - tudo para formar o retrato de um tempo agressivo e triste na história de um país.
Pois foi isso, justamente, o que fez o escritor israelense David Grossman, em colaboração com um dos mais importantes grupos de hip hop de sua terra.
Quanto mais de maldade você consegue engolir?, diz o refrão da Canção do Adesivo, como é mais conhecida. A pergunta cabe. É crucial e tristemente atual, tanto em Jerusalém como aqui. A bela embalagem musical, releitura atualizada dos ritmos tradicionais, não esconde o tom rasgado do texto, as palavras de ordem, as causas desencontradas.
Logo após o assassinato de Itzhak Rabin, David Grossman viu um homem tentando arrancar, com uma furadeira, um adesivo pregado num carro, que dizia: "Rabin é assassino". Foi aí que "bateu" a idéia de juntar todo aquele quebra-cabeça.
Com uma clareza e coração aberto impressionantes, Grossman cumpre o firme propósito de se tornar uma voz no encalço da arbitrariedade e na direção de um diálogo ampliado, um diagnóstico mais fundo do ambiente de conflito em que vive. E o hip hop é parte disso. Tanto que foi escolhido pela organização da Flip como a trilha sonora final da festa, após a última sessão, no domingo. Um recado para quem se confrontou, durante cinco dias, com o bom, o belo e o trágico nas diferenças além dos livros, que massacram grande parte do mundo. Um dos temas dominantes, aliás, do encontro - esmiuçado, além de David, como jornalista que vive em Jerusalém o cotidiano do conflito entre árabes e israelenses, por MVBill e Luiz Eduardo Soares, em cima do trabalho com os jovens das favelas dominadas pelo tráfico, e por John Lee Anderson e Pedro Rosa Mendes, jornalistas que cobriram Bagdá e a guerra de Angola, respectivamente.
Acabo cruzando mais uma vez com David Grossman na pontezinha que separa a Flip do centro histórico de Parati, e pergunto como se pode conseguir o CD. "Pela Internet", diz, no meio do aperto de mão. "Mas o que se deve procurar?", auxilia um jornalista que o acompanha. "O nome é 'Hadag Nahash", diz David. (Repito algumas vezes em voz alta). "Se você conseguir se lembrar disso, vai encontrar."
Repito foneticamente as palavras por todo o caminho até a pousada, onde breve pegarei minha bagagem para retornar ao Rio. Ao chegar, grafo-as no meu indefectível caderno de notas, para não esquecer. E debato-me durante parte da segunda-feira por não saber seu significado, até que o milagre da Internet desvenda tudo. E descubro que este é o nome da banda, e não da canção, como pensara. A música aparece cristalina num site do grupo, assim como uma tradução da letra e até o vídeo-clipe. Ah, e Hadag-Nahash, segundo a tradução do Google, significa "peixe-cobra", embora eu não saiba direito o que possa ser isso.
Ouvi-la tornou-se um ritual de lembrança, um reforço da marca de doçura e firmeza que envolve o olhar de David sobre a responsabilidade humana diante do conflito - o seu específico e o de cada um de nós. A responsabilidade absoluta, de cada um, de se colocar no lugar do outro, ainda que esse outro seja o seu inimigo. E combater o arbítrio dia após dia, com as armas da clareza e da humanidade.

terça-feira, julho 12, 2005

Tratado das Letras de Parati

Primeira providência na friusca manhã de quinta-feira, 7 de julho; comprar um guarda-chuva - o maior possível, pois o tempo trai - e um caderno onde guardar a memória.
Ainda não sei bem que tipo de caderno vou querer, mas precisa ter capa dura e caber na bolsa. Enfim, algo prático e até meio de época, nesse tempo de palmtops e laptops.
A vendedora me indica uma ala no fundo da loja. Percorro as prateleiras e dedico toda minha atenção à escolha do exemplar perfeito. Toda a vida preferi aqueles de lombada, elegantes, sóbrios, mas ultimamente ando com o pé atrás; meu fiel "amarelinho", companheiro de tantas intimidades, foi desmontado por uma sobrinha, na tentativa de arrancar-lhe folhas! Então volto-me para os espirais e, após alguma deliberação, decido-me por um que atende pelo sugestivo nome de Happy Sports, com fotos de esportes radicais na capa consistente e uma espiral azul que confiei não fosse se soltar ou machucar meus dedos.
Depois, e só depois de o caderno bem guardado na bolsa, é que me deparo com os guarda-chuvas e escolho um enorme, axadrezado em estilo inglês, que decerto me defenderá das agruras do tempo. Na véspera, uma chuva implicante após o show de Paulinho da Viola me obrigara a cruzar na intempérie os poucos metros que me separam da pousada. Poucos, sem dúvida, em tempo firme; mas com chuva...
Sigo solene para minha primeira mesa, ou palestra, ou sessão, ou conferência. E a ansiedade por esse encontro com o novo, no espaço familiar da Tenda dos Autores, é bem parecida com a que me acometeu no ano anterior.
Após a mesma fila, encontro um ótimo lugar bem em frente ao palco que se chama mesa, emoldurado por uma Parati naif pintada ao fundo. Enquanto espero ao som de bossa-nova e às vezes Burt Bacharach, abro o caderno, busco a caneta, ligo os sentidos e a aventura começa, preenchendo minha cabeça e as páginas do caderno quase na mesma velocidade. Não que eu tenha sido, ao longo da vida, uma anotadora compulsiva; ao contrário, confesso que até desprezava um pouco essa prática. Mas como saber a festa pedra por pedra, para retratá-la aqui no blog? Rendo-me, e acabo tornando esse caderno quase uma parte de mim.
Com um fervor que eu própria desconhecia, passo a abrir o ilustre confidente e nele registrar velozmente as mais belas, as mais íntimas e até as mais duvidosas declarações, fragmentos de memória, excentricidades, trejeitos transformados em palavras. Interesso-me por todos os autores indiscriminadamente, os mais brilhantes e os acuados, os falantes e os tímidos, os envolventes, fascinantes, distantes, belos ou menos belos. E o caderno recebe tudo quanto é idéia, verdades ou não em ampla dose, diletantismos, aforismos, figuras de linguagem. É aberto cinco vezes sem falta a cada dia e fechado, para dormir, na hora do aplauso final. Mas fica comigo, ao lado do corpo, na pele da bolsa, e me faz rir pensando-o igual ao "caderninho" que Erasmo Carlos escreveu e Ronnie Von imortalizou: "eu queria ser o seu caderninho, pra poder ficar juntinho de você..." Não sei se ele, o caderno, concordaria, mas para mim é meio igual. Um caderno, um cofre-forte com as preciosidades que vou recolhendo bem preservadinhas, na minha escrita o menos taquigráfica possível, pois gosto mesmo é de ver as frases inteiras e ainda por cima não sou taquígrafa. O grande bem que guardo da pré-história administrativa é, sem dúvida, a capacidade de datilografar com os dez dedos e muito agilmente, mesmo tendo sido reprovada no curso do SENAC, há mais ou menos meio milênio atrás.
Houve momentos em que temi pelo fim do caderno antes do fim das sessões (como faria com dois cadernos?), mas com o evento para mais da metade convenço-me de que vai dar, e então terei tudo num só lugar.
De fato, é o que acontece. Das 96 folhas originais sobraram 16, o que significa que tenho nas mãos uma verdadeira volta à FLIP em 80 folhas, 160 páginas, mais de uma caneta de tinta e mais que o mundo de vastas intensidades.
São estas intensidades que derramarei a cada dia sobre este blog, para livrar minha alma da força das águas que a engolfam presentemente, e para trazer a todos os que me lêem um pouco do muito que senti, nesses parcos e loucos cinco dias literários.

segunda-feira, julho 11, 2005

Aral

Certas urgências são grandes.
E novas, estranhas.
Debruço-me sobre tantas folhas
de pensamento lançadas
e fervo.

Convulsões me embaralham.
Mal consigo catar os órgãos
todos alvoroçados,
enfunados no corpo,
sem tino.

Difícil olhar de frente
os dias, noites, arrepios
de tempo guardado,
revisitado,
desbotamento de chuva fina.

Ventos se desviam
nos intervalos das pedras,
as roladas e as outras,
enquanto varo por entre casas longas,
encompridadas na noite.

Quero saber tanto
o que tanto me incomoda
e faz faltar espaço ao estômago
quimicamente oscilante,
faz o ar virar lágrima
que escala a pele
e entra de novo na alma,
ah, tanto estrago.

Quero saber dos olhos outros,
prismas, acordes,
pancadas na fronte
da chuva que vem, vai,
vem, vai
e se instila
no centro das dores.
No que falta, no que é
e no que nasce.

Rochoso, salgado
e cristalinamente
próximo.